É com entusiasmo e até alguma emoção que a população portuguesa, maioritariamente católica, sente a chegada do Natal. No entanto, e devido à sociedade multicultural onde estamos inseridos, Portugal abriga cada vez mais pessoas de outros credos para quem a quadra natalícia não tem idêntica importância.

Foi com o intuito de descodificar essas diferenças que O Portomosense esteve à conversa com um evangélico e uma muçulmana, para entender como é que a quadra natalícia é por eles encarada e ainda aproveitámos para conhecer algumas das suas crenças e práticas religiosas.

Faltavam poucos minutos para as 20 horas, quando chegámos à Igreja Evangélica Assembleia de Deus Remissão, no centro da vila de Porto de Mós. No início, em abril deste ano, tinha apenas sete pessoas, atualmente conta com mais de 60. Sexta-feira é o dia dedicado à Cura e Libertação e enquanto os fiéis não chegavam, Sinelton Leal, um dos pastores da igreja, falou-nos das suas vivências num período que para a maioria dos portomosenses é de festa.

Foto: Jéssica Silva

Com 36 anos, natural de São Paulo, no Brasil, veio para Portugal há «praticamente um ano». Depois de uma breve passagem por Lisboa, assentou arraiais no Bairro de São Miguel, em Porto de Mós. Para trás ficaram meses de «bastante dificuldade» que se deveram não só ao facto de vir apenas com a esposa e a filha mas também porque no Brasil tinha uma vida «ligada a muitos relacionamentos». Hoje, confessa que se sente muito «acolhido» e que já adotou Porto de Mós como a sua «cidade».

Longe da família, a celebração é feita entre o corpo da igreja

Três vezes por semana há celebrações distintas naquele espaço. Contudo, o Natal não faz parte de nenhuma delas. Sinelton Leal assume a existência de algumas divergências teológicas ao nível de pensamento. «Nós acreditamos que Jesus não nasceu a 25 de dezembro porque a bíblia não enfatiza isso. Cremos, sim, que nasceu no verão», justifica.

O pastor entende que a principal diferença entre evangélicos e católicos é que enquanto estes últimos olham para o Natal como a celebração do nascimento de Cristo, os evangélicos vêem também a sua «morte e ressurreição». «Quando falamos de Jesus, devemo-lo celebrar todos os dias», diz o pastor.

Chegado o dia 24 de dezembro, o momento é de celebração entre o «corpo da igreja» e já existe o hábito de se reunirem. «A verdade é que estamos bem distantes dos nossos familiares e então reunimo-nos todos», adianta.

Na incerteza quanto ao local escolhido para passar a ceia e o dia de Natal, uma coisa é certa: «A celebração dessa época natalícia será com bastante comida como os portugueses também gostam», refere Sinelton Leal adiantando que na mesa, que se prevê farta, não pode faltar o tradicional «bacalhau, assim como, o pernil e as bifanas».

Por norma, a maioria dos evangélicos opta por não fazer árvore de Natal. Também a abertura de prendas é realizada cerca das 23 horas, ao invés da meia-noite. Nesse dia, apesar de não haver nenhum tipo de celebração no que «tange à fé e às reflexões» é feita uma oração antes da refeição.

«O Natal é um dia importante, pelo período que finda e pelo ano que acaba. Também agradecemos a Deus por participarmos desse momento e pela oportunidade de estarmos com os nossos irmãos», diz, explicando que essa oração é feita de forma mais reservada.

Foto: Jéssica Silva

Ser muçulmana num país em que a maioria vive o Natal

Nargiza Ahrorova, tem 33 anos e é muçulmana. O sotaque ainda forte deixa transparecer as suas origens. Há 12 anos que trocou Samarcanda, a maior cidade do Uzbequistão, por Leiria. De sorriso nos lábios e envergando um hijab cor-de-rosa (vestuário que cobre a cabeça), é assim que O Portomosense a encontra no centro de estética que explora desde 2010.

«Antes de vir viver para aqui, o dia 25 de dezembro era um dia completamente normal», conta. Hoje Nargiza, o marido e os seus três filhos já se adaptaram à cultura portuguesa. A uzbeque confessa que «respeitam o Natal», contudo, não o vêem ao «nível religioso» mas sim como um dia «para descansar» em que se junta toda a família e se faz «comida muito boa», onde o bacalhau ou o peru não são esquecidos.
Para esta família, a árvore de Natal é um elemento imprescindível no contexto desta época. Uma tradição que trouxeram da sua terra de origem. «O nosso país pertencia à União Soviétiva e como era tudo junto, nós nascemos com essa cultura», justifica. Já a troca de presentes só acontece na noite de passagem de ano. Para Nargiza Ahrorova, este dia é «muito importante» porque há uma preocupação ainda maior com a aparência. «Arranjamo-nos muito com maquilhagem e roupa bonita. Depois tiramos muitas fotografias para recordação», conta.
Este é também um momento em que se aproveita para fazer comida do país de origem, na impossibilidade de o confecionar durante a semana devido à falta de tempo. Vinegret, com legumes cozidos, Francusku, cujo o frango é o ingrediente principal e Arenque de Shuba, que além do arenque inclui vários vegetais, são exemplos das iguarias servidas.

O Ramadão: o mês mais valioso na vida de um muçulmano

Dos cinco pilares que fazem parte do Islão, há um que sobressai e que poderá ser o menos entendido pelas religiões alheias, o Ramadão, o nono mês do calendário islâmico e que implica um ritual de jejum em que todos os dias, desde que o sol nasce até que o sol se põe, os muçulmanos se abstêm de comer, beber, fumar ou ter relações sexuais.

Sobre a capacidade para conseguir aguentar esse período, Nargiza é perentória: «Este sacríficio é feito para Deus, então Ele dá a força necessária e sentimo-nos muito aliviados». A muçulmana confessa que «gosta muito» porque pode «pedir» muitas coisas que «Deus ouve» e a família junta-se todos os dias. Este período é o mais importante porque implica «tempo de oração, boas ações, reflexão interior e cura de doenças espirituais». Esta celebração é obrigatória a todos os crentes, excluindo-se doentes, crianças, grávidas, mulheres em período de amamentação ou menstruadas.
No dia a seguir ao Ramadão, os homens vão de manhã cedo orar para a mesquita e quando regressam há a tradição de «darem rebuçados ou dinheiro às crianças». Nesse dia há que «vestir alguma coisa nova». Também o Uraza Bayram, é um dos feriados mais cruciais, porque além de simbolizar o fim do jejum marca a «purificação do homem» que teve que se abster de «comer, beber, intimidade e linguagem suja». Nesse período, há a tradição de se matar um borrego e de oferecer às «pessoas mais necessitadas». Além disso, é feita uma visita às pessoas doentes e há uma ida ao cemitério.