O Centro de Apoio Social Serra d´Aire e Candeeiros (CASSAC), com sede na Marinha da Mendiga, promoveu no dia 3 de outubro, em Porto de Mós, uma conferência intitulada “Cuidar de quem cuida”. De acordo com a co-fundadora da associação APRe, Maria do Rosário Gama, a primeira oradora, «há cerca de 800 mil cuidadores informais mas apesar do grupo ser bastante numeroso é quase invisível para a sociedade», situação que, acredita, começa a mudar e a que não é alheia a recente aprovação do Estatuto do Cuidador Informal «que regula os direitos e os deveres do cuidador e da pessoa cuidada, estabelecendo as respetivas medidas de apoio».

«Uma grande parte dos cuidadores informais está nessa situação por falta de opção porque, de um momento para o outro, se viu confrontado com a necessidade de cuidar de alguém», referiu.
O tornar-se cuidador altera por completo a vida da pessoa. Stress e ansiedade, sentimentos de culpa, dificuldades na gestão do tempo e redução do tempo livre são frequentes. «Muitos são obrigados a deixar o emprego, não têm tempo, sequer, para ir beber um café ou encontrar-se com os amigos e a vida familiar também se ressente». Para agravar a situação, aprende-se a ser cuidador, fazendo. Tendo em conta isso, defendeu que é urgente haver «formação para cuidadores informais e ser criada uma rede eficaz de cuidados continuados». O cuidador deve também poder contar com o «apoio de uma equipa multidisciplinar para cuidados mais diferenciados à pessoa cuidada e aconselhamento a si próprio».

Em relação ao Estatuto do Cuidador Informal destacou o facto de vir reconhecer oficialmente um grupo que até aqui tem tido muito pouca visibilidade pública, concedendo-lhe direitos, como acesso a um subsídio, a possibilidade de poder continuar a ter carreira contributiva, formações específicas, e dias para descanso (pelo recurso a apoio domiciliário). Tudo isto tem, apenas, um grande senão: nada está ainda regulamentado. A lei já foi aprovada mas agora é necessário criar a regulamentação e isso é coisa para durar meses ou mais de um ano.
Catarina Lobão, da Escola Superior de Saúde de Leiria, abordou a saúde do cuidador nas dimensões física, psicológica, social e espiritual e deixou pistas de como contrariar os efeitos negativos registados. Entre outros, deve haver «trabalho de proximidade entre o cuidador formal e o informal; apoio médico, e períodos de descanso do cuidador». Uma boa ideia poderá ser também «ingressar num grupo de auto-ajuda».

O impacto do diagnóstico, a perceção negativa do estado de saúde, a necessidade de adaptação a uma nova realidade e o tempo dedicado à prestação de cuidados, bem como o eventual pouco apoio da família, os conflitos, as dificuldades económicas e o estigma social e intolerância socio-cultural face à doença, são elementos que podem contribuir para o degradar da saúde mental dos cuidadores lembrou Catarina Tomás, outra das oradoras. Nesse sentido, cuidar de quem cuida, deve ser palavra de ordem não só para os profissionais de saúde mas também para todos os outros que lidam de perto com cuidadores informais, lembrou a docente da mesma escola.

Margarida Pires, diretora técnica do CASSAC defendeu uma maior interligação entre as diversas IPSS e disse que, no caso dos cuidadores informais, «o sucesso passa por uma intervenção integrada levada a cabo por equipa multidisciplinar». Ana Ferraria, que tem dado vida ao (premiado) projeto “Fisioterapia ao domicílio”, apresentou dados que mostram que os que usufruiram deste serviço registaram melhorias a vários níveis. O número de quedas, por exemplo, baixou para cerca de metade. A jovem não esconde, agora, o desejo de estender o projeto aos cuidadores informais na certeza de que «um cuidador só poderá cuidar bem, se ele próprio estiver bem».

Esta conferência contou também com o testemunho de uma cuidadora informal, Lúcia Santos, enfermeira de profissão. Apesar da sua experiência profissional, disse sentir a necessidade da colaboração efetiva de uma equipa multidisciplinar e defendeu que os serviços devem alterar os horários e dias de funcionamento «porque à noite e aos fins de semana as pessoas também precisam de cuidados». Chamou ainda a atenção para outro facto que considera preocupante: «há cada vez mais idosos a cuidar de idosos».

Clarisse Louro, a vice-presidente do CASSAC, concordou que «é urgente adaptar os horários de funcionamento dos serviços às reais necessidades das pessoas» e lembrou também «a necessidade de reorganizar o interior das casas porque a maioria não está preparada para acolher pessoas em situação de dependência, nem, sequer, tem sistema de aquecimento».

Ana Querido apresentou a gestão da esperança e da espiritualidade, como «um desafio para os cuidadores». A espiritualidade, vista aqui como algo que vai muito além de uma crença religiosa, é, no seu entender, um fator importantíssimo para a pessoa cuidada e caminha lado a lado com a esperança. Encontrar um sentido para a vida, ter objetivos concretos, acreditar em algo e não deixar morrer a esperança é fundamental para a pessoa cuidada. «Quanto maior a minha esperança e a minha espiritualidade, mais saúde eu tenho», frisou.