Em entrevista… Benvinda Januário

28 Fev 2019

Benvida Januário, antiga presidente da União de Freguesias de Alvados e Alcaria, é a entrevistada da presente edição. A poucos dias de se assinalar o Dia Internacional da Mulher conversamos com uma mulher “de garra”, que tanto na vida autárquica como no movimento associativo se distinguiu pelo dinamismo e capacidade empreendedora, nomeadamente, com a criação de projetos inovadores a nível concelhio e, nalguns casos, regional.

Foi professora primária por vocação ou por força das circunstâncias?

Foi a profissão que escolhi e que exerci sempre com gosto. Curiosamente, trabalhei sempre no concelho. Foi sempre bastante gratificante. Tive a sorte de ter sempre crianças interessadas e pais que se interessavam pela escola e isso é muito importante.

Ter crianças que queiram aprender e pais interessados continua a ser fundamental?

Claro. A primeira coisa é as crianças estarem despertas e gostarem de aprender, mas os adultos têm de fazer o seu trabalho. É importantíssimo a presença e o interesse dos pais e, mesmo que algum dia possam ter razão para dizer mal da escola ou de algum professor, nunca devem fazê-lo à frente dos filhos.

Qual a importância que atribui ao 1.º ciclo para a formação das crianças?

Esta primeira parte [do percurso escolar] é importantíssima, não só na aquisição de conhecimentos, mas na parte cívica e hoje, mais do que nunca, essa componente tem de ser muito trabalhada, para depois as crianças terem atitudes cívicas.

Outro ponto importante do seu percurso é a ligação ao Coral Vila Forte, de Porto de Mós. Como vê o grupo atualmente?

Eu cheguei ao Vila Forte um ano depois de se ter formado. Em Alcaria já havia um embrião de um mini coro com o qual chegámos a fazer algumas atuações. É curioso, aliás, que Alcaria deu bastantes coralistas ao Vila Forte. O grupo tem sido um grande embaixador do concelho. Fomos a muitos sítios, houve fases mais ou menos boas, como em todas as organizações, porque não é fácil gerir pessoas e manter sempre no mesmo nível um grupo coral, mas tem subsistido e está muito bem entregue. Todos os maestros deram sempre um grande incentivo aos coralistas. É uma pena que não haja mais vozes jovens mas todos são importantes. Só pelos momentos de convívio e de divertimento que proporciona aos seus elementos, já valeu a pena.

Além de coralista, foi também presidente do grupo. Como é que foi essa experiência? Porto de Mós é uma terra com alguma sensibilidade para a Cultura?

Porto de Mós tem vindo, cada vez mais, a abrir-se à cultura. Como em tudo, o motor são as verbas de que as associações dispõem e estas nunca são aquelas que gostaríamos que fossem. A minha vigência como presidente do Vila Forte teve as suas dificuldades, porque é preciso pagar a um professor, fazer viagens, comprar vestimentas e outras despesas. Como era necessário dinheiro e não o tínhamos decidimos promover atividades paralelas, como a Mostra de Doces e Licores e participar nas Festas de São Pedro e noutros eventos onde podíamos arranjar algum dinheiro, vendendo produtos confecionados por nós.

Presidiu também à Junta de Alcaria e, mais tarde, a União de Freguesias de Alvados e Alcaria e no desempenho dessas funções procurou sempre ir além da gestão corrente. Como é que foi essa experiência?

A minha preocupação não era ter mais estradas. Os autarcas têm de pensar também em criar condições para que se viva o mais feliz possível. Como Alcaria tinha apenas as verbas transferidas da administração central, não podíamos fazer grandes obras. Além de termos de arranjar verba extra para, por exemplo, fazer a manutenção dos edifícios públicos, bem como dos caminhos, tínhamos de encontrar uma maneira das pessoas se sentirem bem e gostarem de viver na sua terra. Foi por isso que decidimos promover iniciativas que projetaram o nome de Alcaria.

A festa Sabores da Caça foi uma das atividades que se tornaram num êxito…

Naquela altura havia muito a preocupação de cada concelho e de cada freguesia ter um evento anual que chamasse mais a atenção. Nós apostámos num festival de caça, porque não havia qualquer evento do género na zona e ia envolver os clubes de caçadores. Foi uma iniciativa que trouxe muita gente a Alcaria e levou o nome da freguesia e do concelho bastante longe. Em cada edição tivemos o cuidado de trazer nomes sonantes para atrair mais gente. Recordo, por exemplo, o chef Silva, a Filipa Vacodeus e dois atores da série Morangos com Açúcar. Pode ser que a Câmara lhe pegue, mesmo que noutros moldes, uma vez que fazia parte do programa eleitoral

Lamenta que projetos como a festa Sabores da Caça ou a Mostra de Doces e Licores tenham terminado?

Há sempre um bocadinho de nostalgia e gostava que tivessem continuado. Quanto aos doces e licores convém recordar que a iniciativa foi do Vila Forte, no qual estive envolvida por fazer parte da direção. Qualquer destes eventos não se faz só com uma pessoa e eu estive sempre muito bem apoiada.

Há quem diga que aconteciam «porque estava lá a Benvinda», que era a alma destes projetos…

Não era assim. Tive sempre apoio de muita gente. Eu talvez fosse, apenas, a parte mais visível. Já enquanto presidente de Junta, tinha essa visibilidade por força do cargo. O sucesso dos projetos aconteceu por terem valor, serem nalguns casos, uma novidade e conseguirem agregar pessoas.

Estamos a poucos dias do Dia Internacional da Mulher e uma vez que estamos a falar de poder autárquico, acha que há uma forma feminina de estar no poder?

Talvez! Não estou a ver, por exemplo, um presidente [homem] de Junta promover algumas iniciativas como aquelas que foram desenvolvidas em Alcaria e Alvados. Não é que não possam ter essas ideias, mas a parte feminina tem sempre alguma influência. Desde as Bibliopausas, o Quintal Comunitário, ao embelezamento dos fontenários e ao Florir Portugal [iniciativa nacional adotada a nível local], é capaz de haver aí um toque feminino.

A Fórnea, cuja principal zona de acesso é Alcaria, constitui uma das maiores riquezas naturais do concelho. Enquanto filha da terra, antiga autarca e hoteleira, como é que acha que se pode proteger aquele património e, ao mesmo tempo, continuar a acolher muitos visitantes?

Eu nunca tive grande medo de estragos que os estrangeiros pudessem fazer porque têm uma outra cultura e não viajam em grandes grupos. Já os portugueses é um bocadinho mais complicado, até porque vêm várias vezes durante o ano. A Fôrnea é bonita e é para toda a gente ver. Até acho que há lá sítios que as pessoas não conhecem e que deviam conhecer, mas os portugueses estragam um bocado. Durante a campanha eleitoral a questão dos passadiços foi muito polémica. Pessoalmente, considero que fazem falta. Se tivermos um grupo de 50 pessoas e cada uma a passar por qualquer lado ou subirem todas à cascalheira, vai destruindo. Os passadiços não precisam ser um monstro, podem até aproveitar os resquícios de um percurso pedestre, mas são importantes para regular a circulação pedonal, que nesta altura é intensa (chegam a vir pessoas de Lisboa de propósito). Há, ainda, a questão da limpeza. Dou os parabéns à Câmara pelo projeto que apresentou para a Fôrnea. Sempre me bati pela colocação de um painel informativo à entrada, divulgando o que se pode ver e o que se pode ou não fazer.

Alvados e Alcaria têm a maior oferta do concelho a nível de camas e há novos projetos em perspectiva. Ainda há espaço para mais unidades de alojamento ou corre-se o risco de uma massificação prejudicial?

Talvez não seja um sítio que possa continuadamente absorver mais unidades, mas as que há convivem perfeitamente. Não há sobrecarga, nem ninguém se atropela, porque há várias modalidades, para todos os gostos e para todas as bolsas.

A instalação de novas unidades não poderá descaracterizar as duas aldeias e matar a sua “galinha dos ovos de ouro”, a beleza ímpar da paisagem e o ambiente rural?

Sim, mas isso depende da Câmara, que é quem aprova os projetos. Não vejo que haja, para já, o risco da descaracterização. As pessoas estão a recuperar casas em que, pelo menos, a traça exterior, tem de ser mantida. Têm, contudo, aparecido algumas casas com outro tipo de janelas, de telhado, linhas mais direitas e mais modernas. Devia continuar-se a apoiar os alpendrezinhos de Alcaria, que são muito bonitos e é uma coisa que a caracteriza.

Ao longo do seu percurso como dirigente associativa e autarca desenvolveu vários projetos diferenciadores no concelho e, nalguns casos, na região. Sente que foi sempre bem compreendida a esse nível?

Acho que sim, embora haja sempre pessoas que possam discordar e estão no seu legítimo direito. Quem não tem dinheiro, tem de gerir o seu território com coisas que sejam baratas. Nas seis Bibliopausas espalhadas por Alcaria, Alvados e Barrenta, só gastámos dinheiro na madeira para fazer as caixas, porque os livros vieram e vêm da biblioteca instalada na antiga escola de Alcaria. O Quintal Comunitário também não foi dispendioso. O dono cedeu-nos o terreno gratuitamente e sem limite de tempo. Foi uma das iniciativas que projetou Alcaria. Não sendo uma obra de fundo deu para muita gente vir conhecer Alcaria. Neste momento, há um problema com o sistema de abastecimento de água ao local. Esperamos que a Junta consiga encontrar uma solução porque sem água não pode haver Quintal Comunitário.

A ida do GIPS da GNR para Alcaria não foi, obviamente, mérito da Junta mas é consensual que os sucessivos executivos da freguesia têm procurado colaborar com a Guarda e os seus militares em tudo quanto podem…

Nem outra coisa seria de esperar. Tínhamos de os apoiar. Já se temeu que saíssem dali, mas [em termos de freguesia e do concelho] temos agarrado o GIPS com unhas e dentes, porque, como diz a população, são os nossos anjos da guarda. Têm sido inexcedíveis, devemos-lhe muito e, por isso. já há laços de amizade muito fortes. Agora penso que já estão de pedra e cal. Resta conseguir para lá um helicóptero a tempo inteiro mas ainda são necessárias mais obras.

Era uma pessoa mais ou menos consensual e a sua não recandidatura causou alguma surpresa. Houve algum motivo especial para isso?

Houve vários. Primeiro, as pessoas precisam de novidade. Entendi que era altura de dar lugar aos mais novos, que têm outras maneiras de ver as coisas. Depois, não estou propriamente uma jovem. Tenho também outra atividade paralela [uma unidade de turismo rural] que me iria ocupar bastante tempo. Para não fazer as coisas bem feitas, o melhor é largar algumas. Deixei a função consciente do que estava a fazer, assim como quando entrei estava consciente do que ia fazer. Sempre me pautei por fazer atividades que engrandecessem a freguesia e o bem-estar das pessoas, e não estou arrependida.

Ainda vamos ter Benvinda Januário noutras funções autárquicas?

Não tenciono voltar às lides políticas. Não fui para a política por ideologia partidária. Nunca fui filiada em nenhum partido. Estive na política para proporcionar à comunidade onde vivia melhores condições e por acreditar que era capaz de fazer alguma coisa nesse sentido, portanto, só por espírito comunitário. Esse capítulo encerrou.

Isidro Bento | texto
Beatriz Sousa | foto