Em entrevista… Eduardo Amaral

31 Jan 2019

O vice-presidente e vereador da Cultura, Turismo, Ambiente e Desporto da Câmara Municipal de Porto de Mós, Eduardo Amaral, aceitou conceder ao nosso jornal a entrevista que trazemos nesta edição. Numa hora de conversa, passámos pelas suas áreas de trabalho e ouvimos a sua opinião, que é também a do executivo, sobre alguns temas de importância no concelho. Eduardo Amaral não se coibiu de falar e elogiar o associativismo, afirmando que é «um prolongamento das comunidades». O vice-presidente aproveitou para explicar como é que as associações se integram na estratégia do Município e qual o contributo que estas podem dar para o movimento. O vereador que, nos últimos anos, esteve ligado a várias instituições do concelho considera que isso é uma vantagem para o cargo que exerce agora, já que poderá pôr em prática o que defendeu durante toda a vida.

Passou um ano e três meses desde que o executivo tomou posse e, por isso, começo por lhe pedir um balanço sucinto daquilo que tem sido o trabalho até agora.

Foi um ano de muita intensidade. A grande preocupação era pôr em prática o que defendemos na campanha eleitoral e isso obrigou a que todos se empenhassem ao máximo e pudessem dar resposta aos projetos que tinham em mãos. Procurámos a envolvência com a comunidade e as Juntas de Freguesia de forma a criar coesão e orgulho de sermos portomosenses e de pertencermos a um território. Conseguimos reunir uma equipa com múltiplas valências e a grande vantagem foi ter um líder como o presidente Jorge Vala, uma pessoa aglutinadora, com um projeto exequível e uma capacidade de trabalho que mobiliza toda a equipa a ter que corresponder às expectativas criadas para poder dar respostas às solicitações da população. Estamos a implementar um trabalho que acreditamos ser o melhor para o concelho e temos a certeza que, no futuro, Porto de Mós nunca mais será igual.

É vereador do Desporto, da Cultura, do Ambiente e do Turismo, estas áreas já lhe eram familiares ou têm sido um desafio?

A área do Ambiente tem sido a mais desafiante, porque não tem só a ver com o património natural, mas também com a água e o esgoto e um conjunto de procedimentos. Foi a que me obrigou a um esforço adicional, mas todas têm que fazer sentido e estar interligadas, por isso acabou por ser desafiante ver como podíamos interligá-las de forma a construir um produto único e que faça sentido.

Uma pergunta que se impõe é para quando o término das obras do Castelo, que estava previsto para antes do final do ano, o que não aconteceu?

O Castelo foi alvo de dois tipos de intervenção, uma delas por limitações do próprio edificado, tinha algumas pedras que estavam em queda e guardas metálicas que não ofereciam garantias de segurança, ao mesmo tempo, reformulámos toda a parte elétrica. Logo no início do mandato surgiu a oportunidade de fazer uma candidatura para tornar o Castelo inclusivo, que foi aprovada só no final do ano. As obras foram avançando e contamos durante o próximo mês ter o Castelo em condições.

Quando as obras estiverem concluídas, o que é que vamos poder encontrar de novo?

Vamos encontrar, nesta fase, um conjunto de exposições e um projeto educativo focado nas crianças, com visitas temáticas, para conhecerem a História e, ao mesmo tempo, em alguns dias temáticos haverá recriações históricas. A segunda fase, que temos em projeto, será a da multimédia, uma estrutura com audio-guias, de forma a que as pessoas possam visitar e ouvir a história; códigos QR para que quando passam possam perceber o que está a acontecer; sons incorporados, e uma sala de squeeze, onde podem jogar um jogo e vir depois a descobrir o próprio espaço mediante as respostas.

Muito se tem falado das festas que, para alguns, foram em demasia e com demasiados gastos. Enquanto vereador da Cultura, qual é a sua opinião sobre isto?

Eu não sei qual é o preço da Cultura, mas um povo culto, certamente, é um povo que tem massa crítica. O que tentaram foi denegrir a nossa forma de trabalhar e relevaram simplesmente a festa, mas a festa é um ato comemorativo que vem sendo transmitido de geração em geração e toda a gente a quer ter na sua terra. Porto de Mós tem que ter um conjunto de iniciativas que nos projetem para o exterior e crie [a nível interno] o orgulho de sermos portomosenses. As festas, a que nós chamamos projetos, são evolutivos e uma forma de podermos posicionar-nos [na região e no país] porque a concorrência que temos à volta consegue recolher os nossos cidadãos e temos que ter a capacidade de os fixar. A acusação mais fácil é dizerem que andamos a esbanjar dinheiro em festas, quando, se formos a ver as contas, temos menos 400 mil euros gastos que o anterior executivo, com um programa completamente diferente. O que fizemos foi dar visibilidade a muitos eventos que estavam adormecidos e demos vida às nossas associações numa forma de comunicar completamente diferente. E isto foi tão simples quanto fazer uma agenda mensal e uma página de facebook com mais atividade e dinâmica para criar uma forma de as pessoas interagirem mais. A maneira mais fácil seria sempre [ver isto] pela negativa. Não entendemos como é que se afirma que ninguém consegue dizer onde fica Porto de Mós e que temos que dar referências dos concelhos vizinhos, e numa altura em que começamos a ter visibilidade para o exterior, criticam-nos por nos estarmos a expor e a afirmar de uma maneira diferente.

Uma das iniciativas com a intenção de projetar Porto de Mós foi o programa Somos Portugal, da TVI, já tivemos visitantes de fora, motivados pelo programa?

Tivemos logo nessa mesma semana. Houve pessoas que vieram à procura dos nossos produtos porque tivemos oportunidade de lhes dar visibilidade na televisão. É um programa que tem uma grande audiência e consegue comunicar para dentro do país. A preocupação que tivemos foi a de mostrar o concelho num todo, e por isso juntámos as Freguesias para que cada uma pudesse afirmar o seu espaço e mostrar as suas potencialidades e depois mostrar todos os produtos que temos e que podemos vender. Este ano, a TVI fez questão de dizer que gostava muito de poder transmitir a procissão de São Pedro em direto e nós achamos que é um valor a acrescentar às próprias Festas e por isso vamos construí-las em função dessa possibilidade de promoção através da televisão. Entretanto, continuamos a ter pessoas à procura de alguns dos nossos produtos, mas como nem todos estão disponíveis para compra tem que haver algum cuidado na forma como se promovem os produtos locais.

Um dos eventos que pretendia aglutinar várias entidades e públicos é o Natal Encantado. Este ano, parece ter tido menos público e menos comerciantes. É uma iniciativa a repensar?

Não, eu acho que até houve um acréscimo de pessoas. A ideia foi segmentar e criar temas para os vários fins de semana e a partir daí poder lançar um conjunto de produtos. A dificuldade que temos é que grande parte dos nossos comerciantes não está disponivel para sair da zona de conforto que é a sua loja, e poder vender naquele espaço, mas começamos a ter solicitações de fora. O que nos está a faltar é um conjunto de animações para que possamos trazer mais gente, mas temos que ter em atenção que o Natal é comemorado por todos os concelhos à volta e cada um gera os seus [visitantes]. Mas eu penso que o maior projeto que aqui temos continua a ser a Semana Santa…

Porquê?

Acho que é dos eventos mais marcantes que temos no concelho. Então o que fizemos foi tentar recuperá-la, dar-lhe alguma visibilidade, com os tapetes floridos na ponte, a entrada do Domingo de Ramos, com a tradição de as crianças poderem levar o ramo ao padrinho e depois fazer a Via Sacra em termos de encenação, com todos os grupos e a comunidade e o que gostávamos mesmo era que a própria comunidade naquele dia pudesse vestir à época para termos um momento marcante em termos de simbolismo religioso mas também para a comunidade. O que vai acontecer este ano, fruto desta dinâmica da comunidade, é aparecer conjuntamente o Festival do Folar, que já se fazia, e potenciarmos também o cabrito e o borrego, já que o cabrito das Serras de Aire e Candeeiros era o mais procurado e tem vindo a desaparecer.

“Agora toda a gente governa muito bem pelas redes sociais e aproveita este espaço, que é uma forma escondida de poder dizer mal”

O turismo é também uma forte aposta deste executivo e um dos vossos projetos é o Posto de Turismo Avançado, em Alvados. O que é um Posto de Turismo Avançado?

É um espaço onde as pessoas podem chegar e partir à descoberta do território conforme o que procuram. É um espaço físico, mas o que estamos a fazer é construir um produto, que passa por uma rede de percursos de BTT, de pedestrianismo e de trail com ligações, que achamos prioritárias, com a Pia do Urso, que tem um centro de BTT, e com Alcanena, que tem um centro de BTT e de pedestrianismo. Temos que ter a capacidade de fixar as pessoas e para tal ter portas de entrada onde as pessoas encontrem documentação em suporte de papel e numa plataforma digital, que lhes permitam delinear os percursos e a estadia no concelho.

Alvados é o sítio certo para funcionar como porta de entrada?

No imediato, é o espaço que tem mais oferta em termos de dormidas – tem cerca de 250 camas –, tem restauração… O Posto de Turismo Avançado será o local onde as pessoas encontrarão uma infraestrutura com a parte turística para os percursos, para poder tomar banho, um pequeno bar para servir refeições, uma oficina de bicicletas, um posto médico, um centro de exposições. O projeto de Desporto de Natureza passa também por criar uma rede de percursos equestres, a que se junta a parte da escalada, do parapente, tudo o que são desportos de ar livre, e até mesmo a espeleologia com um projeto de criação de um algar inclusivo, para que as pessoas que têm limitações físicas possam vir a descer também e ter essa experiência, e um algar-escola, em São Bento, para se poder dar cursos e formação. Estamos a construir um produto, Alvados é uma porta, Pedreiras terá que ser outra e a tudo isto juntam-se os Caminhos de Fátima. Já conseguimos reformular o percurso que nos chega às Pedreiras para que possa passar dentro da vila, em vez de atravessar unicamente a serra, e chegar a Alvados, e um outro que vem de Casal Vale Ventos para que possa vir ao Parque de Campismo do Arrimal, seguir para a Mendiga e depois descer a Alvados. A este produto, junta-se a parte do caravanismo, estamos com dois pontos atualmente que são Porto de Mós e Mira de Aire e estamos a alargar a mais dois, São Bento e Arrimal.

Relativamente ao projeto em Alvados, qual é o ponto da situação?

Os percursos já estão desenhados, estão em fase de análise pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, o Posto de Turismo vai entrar em obras entretanto e contamos ter o espaço físico durante este ano. Juntamente com este produto iremos ter uma ecovia a ligar Porto de Mós, Batalha, Leiria, Marinha Grande até à Vieira de Leiria, projeto que se insere num programa de redução de CO2 e de mobilidade. Será um projeto aglutinador e uma forma de poder trazer as pessoas da zona da praia, nomeadamente da Rota do Atlântico, que é onde está a passar o maior fluxo de pessoas no BTT, para os territórios do interior e de natureza. Juntando a tudo isto estamos com a edição de uma brochura de fauna e flora do concelho, porque o birdwatching é uma das atividades que começa a ter uma grande popularidade e Porto de Mós tem uma série de espécies que são únicas e sabemos que há pessoas que vêm especificamente para ver determinada espécie e não se importam de ficar durante o tempo que for necessário.

Quando é que poderemos usufruir desse projeto?

O projeto da Ecovia está na fase do levantamento, pensamos que no início do próximo ano comece a execução, como é um projeto em rede vai depender da dinâmica de cada município, mas contamos que durante o ano de 2020 possamos ter [o projeto concluído]. Ainda na área do turismo, mas ao mesmo tempo na área do ambiente, estamos com um projeto de requalificação das nascentes do Lena. O que nós assistimos muitas vezes nas redes sociais – agora toda a gente governa muito bem pelas redes sociais e aproveita este espaço, que é uma forma escondida de poder dizer mal porque as pessoas já não têm a capacidade de se juntar, olhos nos olhos, e dizerem o que pensam – são pessoas que querem o rio sem ervas e sem plantas e se formos ver noutros países, toda a gente está a devolver as plantas para os leitos do rio. É isso que queremos também fazer com o nosso porque quanto mais plantas existirem dentro do rio, menor será a força da água, e consequentemente oferece menos resistência e menor possibilidade de surgirem grandes fluxos e grandes inundações.
No Desporto, há muitos eventos ao longo do ano em partes distintas do concelho. Nesta área ainda há muito a fazer ou o essencial está feito e o que é preciso é manter e com qualidade?
Há sempre muito a fazer, depende da capacidade que tenhamos para nos reinventar e, mais uma vez, do associativismo e do que este quer fazer. O que gostávamos era de poder ter eventos internacionais, devíamos ter um ou dois por ano, três eventos de âmbito nacional, e depois todos os outros a nível regional e local. Nunca encarámos a Cultura, o Turismo ou Desporto como despesa. Para nós são investimento e é o próprio Município a dizer a toda a comunidade que está a investir em determinada área e quem trabalha nela pode ver qual é a sua oportunidade de negócio.

Na área do Ambiente, qual é a grande aposta do Município?

É nas redes de saneamento e de águas que queremos ampliar e recuperar. A nível da água, este ano, queríamos ficar com 97% do concelho com o abastecimento completo e isso passa também pela abertura de duas novas captações. Estamos a fazer substituição de condutas, vamos substituir contadores e entrar num processo de fazer um sistema de telegestão da própria água de maneira a evitar os desperdícios que existam e a substituição de condutas que estão, grande parte delas, ainda em fibrocimento e que fazem roturas enormes onde se perde água. Para os esgotos o que vamos fazer é alargar a rede e a ideia é pelo menos nos grandes círculos urbanos poder fechar a malha. Na área da Cumeira [de Cima] e Cruz da Légua, a zona com mais pressão urbanística e maior quantidade de pessoas, vamos fazer no imediato. Nesta área, o que vimos foi que havia zonas onde passava o saneamento e não houve a preocupação de obrigar as pessoas a ligarem-se à rede quando isso decorre da própria legislação. Tem havido um esforço do Município, uma sensibilização e o criar condições para que isso aconteça.

A terminar, uma pergunta ao Eduardo Amaral, cidadão que nos últimos anos fez parte de várias associações e IPSS. Como é, agora, estar do outro lado e se gere a imparcialidade necessária a um vice-presidente e a um vereador que tem pelouros com influência nas áreas em que foi trabalhando?

A imparcialidade gere-se na altura da votação, ausento-me sempre na votação para não defender causas próprias e isso tem sido um preceito que todos os vereadores têm seguido, temos outros vereadores em iguais circunstâncias. O outro lado, para mim, não é o outro lado porque eu sempre achei que era um prolongamento. Agora o Eduardo Amaral, vice-presidente da Câmara, tem a oportunidade de pôr em prática aquilo que sempre defendeu ao longo da sua vida. Se chegar ao fim e não o conseguir fazer, para mim será um fracasso enorme, porque não consegui corresponder às minhas expectativas e àquilo que sempre defendi. O facto de ter estado presente nesta diversidade de associações dá-me uma visão das coisas, se calhar, facilitadora porque sei as dificuldades que têm as associações em gerir as suas casas.