Em entrevista… Elisabete Jacinto

by | 25 Jun 2019

Elisabete Jacinto formou-se em Geografia, mas foi no todo-o-terreno que encontrou a sua verdadeira paixão. Com 24 anos aventurou-se pela primeira vez no mundo de duas rodas e tornou-se a primeira portuguesa a enfrentar o Paris-Dakar. Mais tarde, decidiu abandonar as motas e abraçar um novo desafio: os camiões. A piloto entrou para o circuito muito reduzido de mulheres a conseguir concluir o Paris-Dakar ao volante de um camião. Este ano foi particularmente especial, para Elisabete Jacinto e para a equipa Bio-Ritmo, porque venceram pela primeira vez a Africa Eco Race. A piloto portuguesa tornou-se a primeira mulher a vencer esta prova.

Como é que surgiu o interesse para o desporto motorizado?
A minha entrada no desporto motorizado aparece bastante tarde e muito por acaso. Lembro-me de estar num quiosque com o meu marido, ele pegar numa revista de motas e dizer: “Isto das motas é muito giro, não é?”. Eu respondi que também achava muita graça e ele perguntou-me: “Então porque é que não tiramos a cara de mota?”. Tirámos, comprámos uma mota para os dois e inscrevemo-nos no clube de todo-o-terreno e um dia decidimos ir fazer um passeio. Eu não tinha qualquer técnica de condução, nunca tinha andado na terra, caí, o radiador da mota abriu e tive que parar. O Jorge [marido] fez o passeio todo sozinho, mas com muita dificuldade porque a mota era muito grande e pesada. No final, olhámos um para o outro e dissemos: “Isto é o hobbie das nossas vidas, o problema é que as motas não prestam”. Decidimos juntar dinheiro para comprar motas próprias para o todo-o-terreno. Houve um dia que o Jorge decidiu fazer uma prova do campeonato. Eu achei que não tinha condições para ir, mas todos me disseram: “Tu és capaz”. O voto de confiança funcionou muito bem, lembro-me que ao final de 100 quilómetros já tinha tantas dores no corpo mas cerrava os dentes e pensava: “Tenho que continuar”.

O que era apenas um hobbie passou para competições e internacionalizações. Como foram os primeiros passos neste mundo mais a sério?
A partir do momento em que fiz a primeira prova, comecei a levar tudo muito a sério, até porque não tinha dinheiro para correr e necessitava de patrocínios. Se quisermos falar de internacionalização, houve um dia que dei comigo a pensar que estava na altura de abandonar a competição, mas com muita pena, sobretudo de não experimentar uma prova em África. Lembro-me de me imaginar no todo-o-terreno, com um “motão” enorme pelo deserto. Aquela imagem disse-me tanto que nunca mais me saiu da cabeça. Pouco depois dei comigo a ver o Dakar na televisão e a pensar: “Eu sou capaz de fazer uma prova como esta e de conduzir uma mota grande e pesada como as do rali”. A partir daí foi como se crescesse dois ou três centímetros, aquela ideia do Dakar tornou-se uma obsessão.

Para participar precisou de contrair um empréstimo e pedir dinheiro a alguns amigos, como é que encara essa fase de luta?
Acima de tudo recordo todo o trabalho, todos os momentos de ansiedade. O desafio foi uma coisa que mexeu comigo, foi extremamente difícil a tal ponto que quando terminei o Dakar fiquei com a sensação de que faria, na vida, tudo o que eu quisesse. Foi das coisas mais difíceis que fiz, mas quando olho para trás penso com muito prazer nessa época. Lamento não ter tido a visão de que podia ter feito uma carreira desportiva de uma forma mais séria.

Depois vieram os camiões… Como é conduzir um camião?
É como conduzir um automóvel, mas com um grau de dificuldade acrescido: é maior, mais alto, mais largo, mais comprido, a caixa de velocidades tem mais mudanças, a direção é mais pesada, temos que ter muita autonomia para conseguir superar problemas. O camião é um desafio muito grande, sobretudo emocional.

Conta já com várias conquistas na carreira. Este ano foi especial porque foi a primeira mulher a conquistar a Africa Eco Race. Qual foi a sensação?
Para mim não é tanto o gozo de ser a primeira mulher, é o de ter conseguido. A certa altura percebi que tinha o descrédito das pessoas de uma maneira geral e lidei sempre com muito poucas condições. A minha luta foi extremamente difícil. Sempre ambicionei chegar ao topo da classificação geral, ser reconhecida como um bom piloto e as pessoas não dizerem “a Elisabete dá nas vistas porque é mulher num desporto de homens, mas porque é de facto um bom piloto”. Eu tinha certeza disso, faltava-me provar.

Sentiu que não foi valorizada?
Sem dúvida. As pessoas, de uma maneira geral, duvidavam que eu conseguisse fazer um bom resultado. Imagine que tinha ficado em 10.º na geral, as pessoas diziam-me logo que não havia equipas boas. O facto de terem coragem de me dizer isto na cara mostra o que pensam todas aquelas que não o diziam. Hoje já se fala muito de igualdade de género, mas está ainda muito enraizado este estereótipo que a mulher só faz coisas simples.

Esse preconceito vem só dos homens?
Não vem só dos homens, mas vem acima de tudo dos homens. Há muitas mulheres que também olham com alguma desconfiança. No entanto, partilham um sentimento que é dizer: “A Elisabete é um exemplo, ela conseguiu fazer uma coisa que eu se calhar não conseguia fazer” e isso acaba por constituir um incentivo a todas as mulheres que vacilam e que podem encontrar no meu exemplo uma inspiração para continuar.

Quais são as principais dificuldades em provas como a Africa Eco Race?
As condições de vida no rali são as piores, falo de dormir no chão, ao frio, com barulho, não ter condições para tomar banho, não comer quando se tem fome. O contacto constante com as condições climatéricas, o calor excessivo, as tempestades de areia, toda aquela poeira, todo o ambiente é um desafio enorme. O que dita a diferença nos resultados é a capacidade de lidar com isto. As pessoas mais resilientes são as que conseguem chegar ao fim.

Em que é que ser formada em Geografia a ajuda na competição?
Ajuda a entender o meio para o qual nos deslocamos. Quando vou ao deserto percebo perfeitamente como é que se formou, quais as suas características e a partir daí quais os cuidados que tenho que ter. Por exemplo, quando eu vou pelo deserto e de repente vejo um carreirinho de arbustos muito pequenos em fila, já sei que ali passou uma linha de água, que há ali uma vala e que tenho que ter cuidado a passá-la. Quando chego às dunas, sei que há um lado em que areia é mais dura e compactada e é esse lado que eu devo escolher para subir. Há sempre uma quantidade de pequenos truques que resultam dessa formação.

Quais são os planos para o futuro a nível competitivo?
Estou à procura de financiamento para continuar a fazer provas. Também estou a recuperar de uma cirurgia ao ombro. Mas estou a tentar criar condições para fazer o Africa Race no final do ano, não é fácil mas estou a tentar.