Em entrevista… Fernando Amado

24 Abr 2019

O vereador da Câmara Municipal de Porto de Mós, Fernando Amado, é o entrevistado desta edição d’O Portomosense. O vereador sem pelouros atribuídos, eleito pelo Partido Socialista, fez um balanço do trabalho do executivo até aqui, mostrando-se concordante com algumas das medidas tomadas e dizendo mesmo que não é por estar em oposição que vai criticar decisões com as quais está de acordo.
Fernando Amado avalia ainda o próprio trabalho e o do seu partido, falando um pouco da sua (não) mudança de atitude depois da saída de Rui Marto.
Nestas três páginas, há lugar ainda a rever o passado e a tecer considerações sobre o presente e futuro do concelho de Porto de Mós.

Depois de 12 anos em que foi o PS o timoneiro da Câmara Municipal, está agora um executivo de maioria PSD a governar. Qual o balanço que faz deste ano e meio de mandato?

Há sempre um tempo para arrumar a casa, ter conhecimento de coisas essenciais para que a governação se faça sem qualquer sobressalto e este executivo fê-lo com alguma elegância, tentando não espartilhar muito e não desfazer aquilo que é essencial para uma boa governação que é ter as pessoas minimamente motivadas. Tem feito um bom trabalho e quem esperava encontrar no Fernando Amado uma oposição radical não pode contar comigo, porque a forma de o fazer não tem de ser essa. O balanço que faço [do trabalho] deste executivo é muito positivo. Tem conseguido paulatinamente tomar medidas e desenvolver iniciativas que vão ao encontro daquilo que muitas vezes defendi e não é por estar na oposição que vou discordar. Têm contado com a minha colaboração quando é necessário e com o voto contra naquilo que entendo que não está muito correto.

É a sua primeira vez como vereador, qual é o balanço que faz do seu trabalho e do do partido, enquanto oposição?

Sendo vereador sem pelouros e com um trabalho que me ocupa muito tempo, é muito difícil, num concelho tão grande e numa realidade tão dispersa, estar inteirado dos assuntos. O papel de um vereador da oposição torna-se ainda mais complicado quando não existe estrutura partidária no concelho. O Fernando Amado foi eleito pelo PS, mas tem exercido o seu mandato sem estrutura partidária e isto condiciona muito a ação, porque a ausência de uma retaguarda, para quem não tem tempo para auscultar as freguesias, para acompanhar os seus presidentes, torna muito difícil o trabalho. Não estou a queixar-me, faço aquilo que, dentro destas possibilidades, me é permitido fazer e tenho tentado corresponder às mais-valias que posso acrescentar ao executivo.

Foi durante vários anos deputado municipal, como avalia essa experiência?

Gostei muito de ter estado na Assembleia Municipal (AM), sobretudo por aquilo que entendo que deve ser o papel dos deputados municipais e da AM, que é um órgão fiscalizador mas também de debate político. É um órgão que se funcionasse dentro desta linha de pensamento, seria vital. Foi um trabalho que me deu muito prazer fazer, tive sempre o cuidado de o fazer com elevação, com respeito pelos adversários. Não há inimigos políticos, há adversários políticos, há ideias diferentes entre pessoas que, não tenho dúvidas nenhumas, seja em que partido for, têm um interesse comum que é gostar de Porto de Mós e querer desenvolver o concelho.

Por tudo aquilo que disse até agora depreende-se que considera que teve um papel mais importante como deputado municipal do que agora como vereador…

Foi um papel mais consistente porque a minha liberdade era outra, a minha disponibilidade também, assim como a idade, e ainda que esteja a gostar de desempenhar o papel de vereador, o de deputado municipal, num órgão efervescente como muitas vezes são aquelas sessões, muito longas, onde o debate é constante, algumas vezes sem elevação, confesso. Eu próprio, algumas vezes, excedi um pouco aquilo que é a minha linha de pensamento que é o respeito pelos adversários. Fi-lo inadvertidamente, na paixão pelo debate e não por pensar exatamente naquilo que ia dizer, mas a idade também nos dá, obviamente, esta possibilidade de nos emendarmos, de nos corrigirmos, de nos tornarmos mais maduros e mais pacientes, com aquilo que são as divergências e neste momento sou uma pessoa muito mais calma, portanto também exerço o papel de vereador de outra forma que não exercia quando era deputado municipal.

Qual é, para si, dos dois, o papel mais desafiante?

Ambos. São papéis diferentes, tempos diferentes em termos de duração das próprias sessões mas diria que se a AM fizesse aquilo que deve ser feito – a promoção de debate constante, ter uma agenda diferente naquilo que é o debate político – para mim seria muito mais aliciante o papel de deputado municipal. Pode haver uma melhoria substancial se a AM se deixar de quezílias e debates estéreis e se se centrar na discussão de ideias. Tem pessoas capazes em todas as bancadas, resta perceberem que mais vale construir, do que usar palavras que podem ser condicionadoras daquilo que são as necessidades da nossa terra, mas para aí chegar ainda há um caminho a percorrer.

A política é algo de que gosta e que se imaginou a fazer ou simplesmente aconteceu?

Faço parte de uma geração que cresceu num tempo muito interessante. Em casa ouvia o meu pai e os meus irmãos a falar sobre aquilo que se passava. Era novo, não percebia muitas das coisas, mas ouvia falar muito de política. Depois do 25 de abril foi apaixonante frequentar os cafés, ouvir as opiniões dos adultos e depois, crescer em democracia e assistir a um período de muita intensidade, entre as várias correntes políticas. Nascer numa casa onde era prática falar à mesa sobre o partido A ou B, sobre o que ia acontecendo, promoveu em mim muita paixão pela política, mas não apenas pela partidária. Nunca me demiti de participar civicamente nalgumas instituições do concelho, isso sempre fez parte do meu ADN, só não colaboro se não puder e custa-me verificar que pessoas com muitas condições e tempo disponível, nunca dedicaram um minuto, uma hora, um dia da sua vida para participar ativamente na política, social e das instituições do concelho. A minha paixão pela política vem de há muito tempo mas sempre vista numa perspetiva de construir algo para as pessoas ou para uma instituição.

Depois de alguns anos de interregno, voltou à política. Não sente que este hiato pode ter afetado a sua perceção da realidade concelhia de hoje?

Não. Desde há muitos anos que participo na vida política partidária do concelho e a minha perceção sobre aquilo que são as necessidades e qual deve ser o plano estratégico de desenvolvimento do concelho, estão muito enraizados em mim e estão atuais, não se alteraram por ter estado de 2010 até 2016 em Moçambique. Os problemas são os mesmos, a grande questão é que o tempo hoje em dia corre mais depressa, as coisas acontecem mais rapidamente, as necessidades são mais prementes, porque ficamos desatualizados rapidamente. Dantes a desatualização era muito mais difícil de acontecer e acontecia muito mais tarde; neste momento, se estivermos atrás durante algum tempo, para o recuperar vai ser muito mais difícil, portanto as medidas de atuação e as medidas a implementar têm de ser obviamente muito mais bem pensadas, muito mais ágeis, muito mais percecionadas e penso que este executivo está muito dentro desta linha, que eu acho que é essencial. Se se conseguir implementar medidas com coesão social, é muito melhor do que tomar-se medidas com algum afastamento da população. E eu julgo que este executivo, com algumas medidas, e sobretudo com uma coisa que na minha ótica estão a fazer muito bem, com uma belíssima forma de comunicação, está a conseguir promover alguma coesão social que é essencial e de que este concelho precisa. A desatualização não é um problema para mim porque aquilo que eu pensava do concelho há 10 anos está atual.

Entrou no executivo como número dois PS, a seguir a Rui Marto que, entretanto, suspendeu o mandato. A sua atuação muda, de alguma forma, com esta saída ainda que temporária do antigo candidato à Câmara? Sente-se com mais responsabilidade?

Não me sinto absolutamente com mais nenhuma responsabilidade do que sentia quando estava com o Rui Marto. Sentia-me, de certa forma, desde o início mas mais no último ano, órfão do Partido Socialista e de certa forma o Rui [Marto] devia ter esta perceção também. A minha responsabilidade não aumentou porque estou como vereador, eleito pelo Partido Socialista, que neste momento não tem órgãos no concelho. Ninguém pode dizer, dos votos que o PS obteve, quantos é que foram no PS, quantos é que foram por ser o Rui Marto, quantos é que foram por ser o Fernando Amado, a Anabela Martins ou a Teresa Jordão, não se sabe. Eu vou exercer o meu papel de vereador enquanto cidadão Fernando Amado, eleito pelo Partido Socialista, mas que neste momento não tem o partido por trás e portanto vou exercer esta função com a independência necessária, coisa que faria também se tivesse uma estrutura partidária por trás, porque sempre tive esta enorme capacidade de ser independente e de não estar preso a nada nem a ninguém. Não sei se cumprirei o mandato até ao fim, nunca o farei sabendo que não estou a acrescentar nenhum valor ao exercício das funções, mas obviamente que a responsabilidade que tenho é exatamente a mesma que tinha no início: o cidadão Fernando Amado, eleito pelo Partido Socialista, com respeito por quem o elegeu e o ajudou a eleger, mas desempenhando as funções com a sua linha de pensamento, que não é de agora.

Fernando Amado (foto: Catarina Correia Martins)

O que é que o poderá fazer abdicar do lugar que tem na Câmara?

Se eu não conseguir, por razões de tempo, por questões profissionais mas, sobretudo, por achar que não posso acrescentar algum valor àquilo às discussões do executivo… Se sentir que o meu valor é nulo e não acrescenta nada àquilo que o executivo está a fazer, a minha motivação desaparece. Não estou no exercício destas funções por causa da imagem ou por ter alguma aspiração política daqui a algum tempo, nunca tive taticismo político, não estou amarrado a nada, não estou agarrado nem dependo de um partido, estou apenas a exercer as minhas funções para acrescentar valor. Se este valor puder ser agarrado e percebido pelo executivo, muito bem; se eu perceber que isto não é percetível e que não é uma realidade, obviamente terei muito mais tentações em colocar o meu lugar à disposição. E ninguém me levará a mal, enquanto cidadão que faz parte da política ativa deste concelho há muito tempo, que deu muito de si em prol do debate político sempre com elevação e que tem algumas ideias, que eu tenha alguma auto-estima e a perceção de que ainda consigo acrescentar algo de útil que pode ser eventualmente feito em Porto de Mós e enquanto isto assim for, não porei o lugar à disposição, se o contrário acontecer, fá-lo-ei sem qualquer tipo de problema.

Uma das bandeiras deste executivo é o turismo e há um projeto em curso que vai ao encontro do programa eleitoral do PS, que é a requalificação do Centro de Desportos ao Ar Livre de Alvados. Ainda que o que este executivo está a fazer não seja exatamente o que o PS tinha em plano, parece-lhe satisfatória a solução encontrada para aquele espaço?

Julgo que a solução encontrada é boa, a união de Freguesias de Alvados e Alcaria é uma zona absolutamente fantástica que, neste momento, se não me falha a memória, têm cerca de 80% das camas e da oferta turística do concelho em termos de dormidas, portanto é uma zona que tem ainda muito por fazer, este executivo está a fazê-lo, está a tomar algumas medidas e vai fazer algumas obras que vão ao encontro desses anseios de fomentar o turismo em Porto de Mós. Há outras formas de o fomentar, há muita coisa por fazer… Há obras que foram feitas em Porto de Mós que só seriam resolvidas com um processo de implosão e portanto o que está a ser feito neste momento, está a ser no sentido de não comprometer gerações futuras, decisões futuras, obras futuras e tudo o que vá neste sentido, obviamente, só pode ter da minha parte uma reação positiva e uma concordância. Há muita coisa para fazer, temas para os quais já alertei no sítio próprio mas a linha de orientação que está a ser seguida está a ser correta e apraz-me registar que também para Alvados e para o Centro de Atividades ao Ar Livre a solução que está a ser preconizada vai no sentido de melhorar aquilo que é uma vertente essencial para o concelho que é o desenvolvimento do turismo, onde obviamente outras freguesias também podem ser enquadradas e melhoradas.

No seu programa eleitoral o PS defendeu a criação de um plano cultural anual para alguns espaços de cultura municipais. Considera que a aposta que o executivo tem feito nalgumas iniciativas culturais é suficiente ou continua a defender a criação de uma agenda regular de eventos para espaços como o Cineteatro ou a Casa da Cultura?

Diz-se muito que [os eventos organizados pela Câmara] são festas e festinhas e que se embandeirou em arco relativamente à cultura, e as opiniões divergem. Somos uma sociedade muito habituada aos treinadores de bancada, se a participação cívica no concelho fosse medida pelos debates que se fazem no café, estávamos no rumo certo. As pessoas que estão em órgãos de decisão, têm que decidir dentro de uma linha estratégica de desenvolvimento e a área da cultura obviamente não foge à regra. Podemos dizer que o estilo podia variar, assim como a ordem de prioridades, podiam ser feitas coisas diferentes se fosse o Partido Socialista a estar à frente dos destinos, mas é preferível o que está a ser feito do que nada. O executivo está à procura de um rumo e eu percebo, de certa forma, que o processo de aculturação de uma população de um concelho não se faz da noite para o dia, é um processo que tem que ter um início. Na minha ótica, o início não está a ser atabalhoado, está a ser feito com algum critério, devo confessar, também, com alguma qualidade. Temos, neste momento, alguns pontos que são negativos, como o cineteatro, que tem que ser dimensionado, projetado para acolher outras iniciativas que não acolhe agora por não ter dimensão, escala e qualidade para isso. Por outro lado, estão a ser aproveitados outros pontos que estão a ser bem explorados e bem fomentados e aos quais a população está a aderir mais do que no ano passado. O próprio castelo de Porto de Mós está mais acessível, mais inclusivo, mais bonito, mais presente na vida dos portomosenses, que olham e vêem ali algo a acontecer. São necessários mais espetáculos no castelo, tem que ser mais frequentado, mais utilizado… Mas julgo que a linha de atuação nas vertentes culturais por parte do executivo está no bom caminho. Não tem ainda espaços que lhe permitam voar mais alto, daqui a uns anos vamos ter felizmente esses espaços e poderemos falar de cultura dentro de outra linha.

Certamente que no concelho há muito que fazer, o que acha mais prioritário, em que acha que o executivo se deve empenhar em primeiro lugar?

Há um conjunto de influências de que, muitas vezes, as pessoas não se apercebem e que condicionam as decisões do executivo. O concelho é muito grande, com necessidades muito diferentes entre freguesias, com zonas em que são necessárias infraestruturas básicas que nos tempos que correm são urgentes fazer, estamos a falar nomeadamente do saneamento básico, algo que as pessoas não aceitam que não esteja feita, mas que é uma coisa que tem custos e depois temos algumas rubricas dentro da gestão financeira do Município que condicionam muito a verba a empregar noutras, portanto isto é uma “pescadinha com rabo na boca”. Este executivo, tal como os anteriores, tem estado na linha de desenvolvimento do saneamento básico em zonas onde ainda não estão criadas estas condições.

Além disso, acho que se deve olhar muito para aquilo que está na agenda das preocupações das populações, hoje em dia. Questões ambientais têm que estar sempre no horizonte das linhas de pensamento de quem está no executivo. Quando se pensam parques de lazer e de bem estar para as populações, temos que pensar em bosques, em árvores, em floresta, em plantar, porque tudo isto atenua problemas que estão na ordem do dia. Hoje em dia, temos turistas completamente diferentes do que tínhamos há 30 ou há 40 anos, temos que ter essa sensibilidade, nada do que fizermos pode chocar com aquilo que procuram as pessoas que vêm para descansar e ver coisas diferentes, temos que diversificar, temos que empreender, temos que inovar, temos que atrair pela inovação, também naquilo que construimos. O executivo tem que estar na linha da frente e ter ideias novas para o concelho. Algumas coisas estão a ser feitas, nomeadamente na área da cultura e do turismo, o executivo está na linha da frente, mas eu quero estar cá para também dar algumas dicas, algumas indicações, algo de construtivo que nos permita ir dentro desta linha.

Há algo que é importante dizer: se este executivo teve algum conforto no início do seu mandato e naquilo que está a fazer também advém muito da saúde financeira que o anterior executivo deixou e isto eu tenho de deixar bem vincado. Mas também tem mérito na linha de orientação que está a desenvolver para o desenvolvimento do concelho. Estamos em consonância e eu espero é que, daqui a 10 anos, me façam novamente uma entrevista onde muitas coisas já possam ter sido resolvidas e ainda estejamos num melhor rumo do que estamos hoje.

PERFIL

Fernando Manuel Marques Amado é atualmente vereador da Câmara Municipal de Porto de Mós, sem pelouros atribuídos, eleito pelo Partido Socialista, depois de concorrer em segundo na lista encabeçada por Rui Marto. Natural e residente na vila de Porto de Mós, ao longo da sua vida já assumiu vários cargos políticos como elemento da assembleia de freguesia de São João [entretanto extinta, dando origem à freguesia de Porto de Mós, depois de se unir com a de São Pedro], presidente da concelhia do PS e deputado municipal, papel que exerceu durante um mais longo período de tempo e no qual teve o seu maior destaque.
Além disso, é elemento ativo em diversas instituições do concelho, com lugar nos seus órgãos sociais, sendo atualmente vogal da Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia de Porto de Mós.
Durante quase três décadas, Fernando Amado foi bancário e está agora a montar a sua própria empresa.