Em Entrevista… Maria Calado

by 24 Jul 2019

O que é o Centro Nacional da Cultura (CNC)?
O CNC é uma associação cultural, uma organização governamental, que foi fundada em 1945 com o objetivo de criar uma organização cultural que tivesse dimensão internacional. Felizmente, ainda temos um dos sócios fundadores vivos, que é presidente da mesa da Assembleia Geral, o arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles. Esta associação, sediada no Chiado, no coração de Lisboa, modéstia à parte, tem de facto um papel importante e, sobretudo nos anos 50 e 60, foi caracteristicamente uma organização dos católicos de oposição ao regime. Foi também um espaço a que vieram muitas figuras da cultura internacional, sempre numa perspetiva do papel que a cultura podia ter na participação da sociedade civil, na construção de um mundo melhor. Depois do 25 de abril [de 1974], com novos contextos na sociedade e na organização política do nosso país, vocacionou-se sobretudo para a matriz inicial de ser um espaço de encontro, que continua a ser todos os dias. Somos uma grande associação, com 1200 sócios, temos várias iniciativas próprias e também desenvolvemos vários programas públicos, temos acordos com os Ministérios da Cultura e dos Negócios Estrangeiros, com o Instituto Português da Juventude e do Desporto, com Câmaras Municipais…

Um dos projetos que têm relaciona-se com os Caminhos de Fátima. Em que consiste este projeto?
Os Caminhos de Fátima começaram com Gonçalo Ribeiro Telles que em determinada altura disse: “É incrível, há tantos peregrinos para Fátima e vão pelas estradas nacionais e é muito perigoso”. Pensou então que devíamos trabalhar em itinerários culturais, identificar caminhos que sejam agradáveis, que possam ser usados por quem peregrina, mas também por quem quer simplesmente andar na natureza. Começámos com o primeiro caminho que foi o do Tejo, que vai de Lisboa a Fátima, estabelecendo percursos, quilometragem adequada para cada dia consoante as condições do percurso, e publicando guias. Depois foram surgindo outros caminhos: o da Nazaré, que é o que nos envolve; o do Norte, que vem de Valença e vai sobrepor-se muito ao Caminho de Santiago; e o do Mar; e outros caminhos estão a ser identificados, nas Beiras e até com ligação internacional. Durante muito tempo fizemo-lo apenas por iniciativa própria e, felizmente, quando o Papa veio a Portugal, começou a haver algum interesse dos organismos públicos. No site do Turismo de Portugal, os Caminhos de Fátima já estão disponíveis, mas no CNC estamos a preparar um novo site com alguma autonomia e que estará concluído no dia 15 de julho, em www.caminhosdefatima.org.

Pode falar-nos mais em pormenor do Caminho da Nazaré, que é o que passa pelo concelho de Porto de Mós?
Pareceu-nos em determinada altura que ligar os dois grandes santuários marianos era importante, porque o da Nazaré era o grande santuário até 1917. Além disso é um caminho que vai passando por pequenos santuários e pequenas igrejas marianas e conventos, e que tem uma paisagem extraordinária. É um percurso muito pequeno, tem cerca de 50 quilómetros. A primeira jornada que parte do Sítio da Nazaré, passa no Valado [dos Frades], Coz, Cumeira e termina nas Pedreiras. O segundo dia será por aqui [Porto de Mós], entrando progressivamente no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC), seguindo por Alcaria. É um roteiro em português, inglês e espanhol e a maneira como está abordado o concelho de Porto de Mós é interessante, porque em determinada altura se diz que “por aqui todos os caminhos vão dar a Fátima e, como tem muitos percursos por que pode caminhar, siga este mas não deixe de ver tudo o resto”.

Apesar de a sua vida ter passado muito por Lisboa, é natural de Alvados…
Com todo o gosto…

Foto: Catarina Correia Martins

Qual é a ligação que tem com o concelho de Porto de Mós? Quais as memórias que tem do tempo em que por cá vivia?
Eu nasci em Alvados em 1948, era um ambiente muito diferente do que conhecemos hoje. Fiz a escola primária em Alvados, tenho as melhores recordações, era um ambiente em que todos viviam em família. Lembro-me da primeira vez que vim a Porto de Mós, não sei que idade teria, muito miúda, e isto parecia-me tudo enorme, o castelo era enorme… Lembro-me que vínhamos fazer o exame da 4.ª classe a Porto de Mós, na escola que é hoje a Biblioteca. Era um acontecimento vir fazer o exame e mostrar que estávamos preparados para terminar o ensino primário. Tenho excelentes memórias de toda a minha família, dos meus avós, dos meus pais, dos meus vizinhos, muitos já se foram, mas tenho excelentes memórias de um tempo que era muito diferente, muito parado, muito estagnado, acho que hoje qualquer pessoa que esteja aqui pode ter as mesmas oportunidades [que quem vive em cidades grandes], o que não acontecia há uns anos atrás. Aos 11 anos saí de Porto de Mós, fiz o que se chamava então o 5.º ano no Colégio do Coração de Maria, em Fátima, e depois fiz o 6.º e o 7.º, equivalente agora ao secundário, no Liceu em Leiria, fui estrear o Liceu Rodrigues Lobo. Fui depois para a Universidade, em Lisboa. O isolamento era uma coisa que talvez não se sentisse tanto quando se era criança, mas aos 17 ou 18 anos as pessoas saíam. Eu sou dessa geração e, por exemplo, em Alvados, que é uma terra muito pequena, há várias pessoas que tiveram o mesmo percurso do que eu, e hoje, se não permanentemente, ocasionalmente encontro-os lá a todos, o que é muito bom. Tenho estado nos últimos anos cada vez mais [em Alvados], até porque tenho lá a minha casa, felizmente a minha família – a minha filha, as minhas netas e o meu genro – gosta muito disto, vem às vezes até mais do que eu.

Ainda que o salto não tenha sido direto de Alvados para Lisboa, como foi deixar de ser uma menina da serra para passar a ser uma mulher na capital?
Foi tudo muito natural. De cada vez que conhecia uma realidade nova, achava que era maior, melhor e mais interessante. Não senti nenhum trauma, sentia sempre um grande entusiasmo. Viajei muito por razões da minha vida familiar, e depois de me casar por razões da profissão do meu marido, conheci o mundo todo, foi uma experiência feita de descoberta permanente e não há dúvida que me senti sempre parte daquilo que estava a acontecer. Lembro-me que uma das recomendações, sobretudo da minha mãe que era mais faladora e mais dinâmica do que o meu pai – eu era filha única, custava-lhes muito –, era: “Tu podes fazer tudo, pergunta tudo, não deixes de perguntar. Deves fazê-lo com boa educação, com respeito, no tempo certo…”. Acho que segui bastante o exemplo dela, que era uma pessoa cheia de iniciativa e decidida, e quem a conhecia sabe isso.

Com o passar do tempo, o concelho mudou muito, qual a alteração que considera mais assinalável?
Acho que a grande mudança, que tem a ver com o concelho e com o país, é o acesso à educação. Se nos lembrarmos do 25 de abril de 1974, a maior parte da população portuguesa era analfabeta. Por muito que critiquemos ou que achemos que estamos ainda mal, houve uma mudança extraordinária na educação. Nos anos em que vivi aqui, as pessoas viviam da agricultura, era muito interessante, mas era uma vida dura, e mesmo a sede do concelho que tinha os serviços, o tribunal, vinha-se à Câmara, vinha-se à feira, mas era um ambiente muito pequeno e muito reduzido. Acho que mudaram as atividades e há aqui uma grande diferença que é entrada da atividade turística no concelho, que é muito importante. O concelho tem hoje muitas oportunidades, tem uma localização extraordinária porque está entre o litoral e o interior, faz parte de um património natural e ambiental notável que é o PNSAC, com as suas particularidades geológicas, aldeias, espécies protegidas, aves, vegetação, há aqui condições extraordinárias… Tem uma memória histórica muito importante. Vive-se uma vida de conforto e de acesso às comunicações, mas que tem o vínculo à terra e isso acho muito importante, este vínculo ao local onde pertencemos e que é distinto de outros é muito significativo, não nos lembramos muitas vezes disso, mas isto tem uma identidade própria e o turismo vem mostrá-lo e penso que irá fazê-lo dentro de uma escala equilibrada. A cultura dos sabores faz também parte do próprio património e da história. Delicio-me com a morcela de arroz, que é uma das especialidades, ou com os doces, as filhoses, as rocas, os folares…

A União de Freguesias de Alvados e Alcaria é a que, no concelho, tem mais camas para receber turistas. Tem algum receio que a sua aldeia possa ficar descaracterizada com a chegada das pessoas ou sente que os turistas deste lugar são diferentes?
São turistas diferentes, só vem para aqui quem quer, de facto, gozar a natureza e estar em relação com ela. No verão há mais visitantes, mas acho que é até agradável que haja pessoas porque as aldeias mortas não sobrevivem e aqui penso que não haverá esse perigo. Há não só os turistas que vêm, que ficam nos alojamentos nestas duas aldeias, mas também muitos caminhantes, que vão para trilhos, há imensa gente de bicicleta também e são pessoas que convivem, que interagem com os locais. O património não vive sem as pessoas, nesta visão de património que é a natureza, que são as tradições, que são os lugares belos do mundo, ele é para as pessoas. Temos uma escala muito controlada e parece-me muito adequada.

Ouça aqui a entrevista na integra: