Em Entrevista… Sofia Caetano

by 6 Jun 2019

A entrevistada desta edição d’O Portomosense é a vereadora da Câmara Municipal de Porto de Mós, Sofia Caetano. Eleita pelo movimento independente AJSIM, sendo a terceira da lista, está atualmente no executivo sem pelouros atribuídos.
Sofia Caetano falou-nos da atividade do movimento AJSIM que se mantém vivo e que assim deve continuar durante todo o mandato, sem adiantar se o poderemos ver ou não nas próximas eleições; considerando que a coordenação entre todos os eleitos tem sido satisfatória e que todos agem com a retaguarda do movimento.
A área social, cara à vereadora, merece também lugar de destaque na entrevista com pequenas críticas tecidas a decisões tomadas pelo executivo. Durante a conversa há ainda espaço para debater as tão faladas “festas”.

A primeira questão que lhe coloco é, necessariamente, qual o balanço que faz da governação deste executivo, eleito há pouco mais de um ano e meio?

Este executivo está a implementar os objetivos a que se propôs durante a campanha eleitoral.

Esta é a sua primeira experiência como vereadora. Como é que avalia aquilo que tem sido o seu trabalho e o trabalho do movimento AJSIM?

Como vereadora pela primeira vez, estou interveniente na política acidentalmente porque Albino Januário, uma pessoa que eu admiro bastante, convidou-me a integrar a lista dele e eu, de imediato, aceitei. Como trabalho na área social, que é um trabalho já bastante desgastante, tento ser o mais participativa possível, tento interessar-me pelos assuntos todos, não votando por votar, tento rodear-me de toda a informação para votar em consciência e de acordo com o que é a minha opinião e também tendo em conta sempre o movimento AJSIM, pelo qual fui eleita.

Não ter pelouros dificulta a sua atuação? Ou considera que, na oposição, também se pode fazer alguma coisa pela evolução do concelho?

Por um lado, o facto de não ter pelouros também é bom, estou do “lado de cá”, posso dar sempre algumas sugestões e alguns contributos, claro que mais na minha área, a área social, que é aquela que domino, ao contrário das outras, mas tento sempre dar contributos em qualquer área em que eu me sinta à vontade para o fazer. Conto também com o apoio do movimento AJSIM, preparamos as reuniões de Câmara e as Assembleias Municipais.

Albino Januário abdicou do seu lugar no executivo e Marco Lopes, ainda que não assumidamente, está um pouco desvinculado do movimento, a Sofia é neste momento a única representante do AJSIM no executivo municipal. Isso dá-lhe uma responsabilidade acrescida, ou o facto de ter a retaguarda do movimento tranquiliza-a?

Sinto uma responsabilidade acrescida por estar a representar o movimento AJSIM da forma que estou, mas no fundo tenho retaguarda, sinto algum conforto político porque tenho sempre a retaguarda do movimento AJSIM.

O movimento AJSIM surgiu no último ato eleitoral e conseguiu eleger dois vereadores para a Câmara Municipal, considera que isso contribuiu para manter vivo o movimento no concelho?

Sim, contribuiu e se nós formos a ver a nível nacional, através da Associação Nacional dos Movimentos Autárquicos Independentes (AMAI), existem ainda bastantes Câmaras em que os grupos de cidadãos independentes são já a terceira força política autárquica, tendo eleito 17 presidentes de Câmara e 400 presidentes de Junta. Significa que estes movimentos independentes estão, no fundo, a ganhar algum terreno político, porque não estão a ver os partidos, mas sim as pessoas. E, se calhar, Porto de Mós dividiu um bocadinho os votos entre movimento AJSIM, PS e PSD.

Considera que tem havido uma boa coordenação entre os vários eleitos pelo AJSIM, quer sejam vereadores, deputados da AM ou presidentes de Junta?

Tem havido uma ótima articulação entre todos.

É sabido que o AJSIM continua ativo, podemos esperar uma recandidatura nas próximas eleições?

Para já ainda parece prematuro esse tipo de vontade. O movimento tem que se manter vivo, vai-se manter vivo durante estes quatro anos, porque tem deputados e vereadores eleitos. Depois, a seu tempo, se verá o que vai ser… Neste momento está bastante enraizado, tem os órgãos sociais criados, vamos ver como vai evoluir.

Albino Januário, o líder do AJSIM, inaugurou numa entrevista à nossa rádio a expressão “festas e festarolas”, para denominar eventos promovidos pela Câmara, expressão que foi adotada quer pelo poder, quer pela oposição. Este é um tema que tem estado na discussão pública, sobretudo devido à eventual dimensão dos custos. No entanto, as contas municipais foram apresentadas e mereceram o elogio de todas as bancadas. Nessa perspetiva, a opinião sobre esses eventos alterou? Ou, mantem as críticas e acha que a despesa com os eventos foi atenuada por outros fatores?

Em relação à despesa, não me vou pronunciar muito, em relação às festas, são opções políticas, eles apostam muito nas festas, e na divulgação das mesmas através das redes sociais. É uma forma de atuar, vai ao encontro do que propuseram fazer durante a campanha eleitoral.

É licenciada em Serviço Social e por isso, pressuponho que essa área seja aquela que lhe é mais cara nas suas funções enquanto autarca. Qual é a sua maior preocupação nessa área no concelho? Em que é que considera que o executivo devia atuar?

Eu noto que este executivo está muito virado para as pessoas e para as satisfazer. No meu entender, existem algumas coisas que não estão a fazer da melhor forma, porque a vereadora não é licenciada em Serviço Social, tem outra especialidade que eu não tenho.

Como por exemplo…?

Quando foi a abertura do projeto de regulamento do Banco Local de Produtos de Apoio do Município de Porto de Mós, segundo um documento que nos foi apresentado numa reunião pública na União de Freguesias de Alvados e Alcaria, no dia 14 de fevereiro, [a atribuição destes produtos] está muito dependente da situação económica. Eu, que trabalho na área social, sei que estes produtos devem servir para a melhoria da qualidade de vida de qualquer pessoa e não atribuídos tendo em conta o fator económico, até a própria lei prevê isso. Estes produtos de apoio têm que ser um facilitador para a pessoa se integrar no mercado de trabalho, quando está em idade ativa, quando não está tem que ser para melhorar a qualidade de vida. Aqui, a Câmara pretende implementar um banco de produtos de apoio, mas canalizar para as famílias carenciadas. Eu não vejo isto assim porque a lei da reabilitação é muito clara e os produtos para a área da deficiência têm que estar ao acesso de todos, se bem que a Segurança Social, o Estado, já tem esse tipo de apoio, as verbas poderão, eventualmente, não ser suficientes. Mas tive oportunidade de expor a minha opinião e não concordo que seja só para as pessoas carenciadas, acho que deve ser alargado até porque a deficiência já é tão complicada, quanto mais estar a rotulá-la pela parte socio-económica, custa-me um bocadinho. Houve também outra questão que não me agradou muito, que foi a atribuição de cabaz de recém-nascido aos filhos dos trabalhadores do Município. Achei que esta medida ia diferenciar as crianças, haveria de primeira e de segunda classe, o que eu não achei justo de todo. O presidente fundamentou, uma vez que a taxa de natalidade nos trabalhadores da Câmara era reduzida. “E as outras crianças que nascem?”, foi a minha questão. Entretanto fiquei contente porque na última reunião de Câmara descentralizada já foi aprovada a abertura de procedimento para a elaboração do projeto de apoio à natalidade e à família. Ou seja, já se vai apoiar de forma mais abrangente todas as crianças nascidas no concelho.

É consensual que o concelho está a envelhecer. Não havendo propriamente uma medida que seja a solução ideal para contrariar essa tendência, há no entanto medidas que podem ser tomadas para, por um lado promover a natalidade, e por outro dar as melhores condições possíveis à população idosa. Nesse sentido, o que acha que devia ser feito?

Nesta altura o concelho está com muito emprego contudo, a nível de habitação não há grande resposta e isso faz com que vão viver para fora. Ao nível das nossas aldeias, muitas pessoas não têm condições económicas para se deslocar para o trabalho, para vir e para ir e procuram um lugar mais central, que será [a vila de] Porto de Mós; quem pretende fixar-se procura os meios mais urbanos porque lá tem todas as respostas.
Quanto à população idosa, o concelho está praticamente coberto ao nível de equipamentos que dão resposta a toda a população idosa, à exceção da zona de São Bento, Arrimal e Mendiga e Serro Ventoso porque o CASSAC neste momento só atua no âmbito do apoio domiciliário, não presta esse apoio noutras respostas sociais porque ainda não foram construídas as instalações. Acho que se tenta ao máximo que o idoso permaneça no seu domicílio até o mais tarde possível, ainda existe muita ajuda entre a vizinhança porque é um meio mais rural. Só que depois temos a parte da saúde que, sabemos, não é competência da Câmara, mas a Câmara promove todos os esforços para ajudar a que se fixem cá os médicos de família.

Aparentemente, este executivo está mais próximo das freguesias do que os anteriores, sendo natural da Mendiga, uma das freguesias da serra, que normalmente, por serem as mais distantes são as menos beneficiadas, como vê esta realidade? Ou seja, esta proximidade existe mesmo ou é só aparência?

Esta proximidade, na minha freguesia, já existia. O meu presidente da Junta é o mesmo, tem feito um bom trabalho. Não noto que haja diferença deste executivo para o anterior. O nosso presidente da Junta procura essencialmente o bem-estar dos seus fregueses e que todas as pessoas estejam bem. E mesmo na questão do médico de família, ele tem promovido as medidas que estão ao seu alcance para solucionar este problema, ele age sempre em prol das pessoas.

Acha que essa proximidade traz vantagem para as freguesias?

Este executivo trabalha muito em sintonia com as freguesias e as reuniões descentralizadas vão um pouco ao encontro disso mesmo, de tentar que os fregueses vão e percebam o que se passa numa reunião de Câmara, para ficarem sensíveis a quais os temas tratados e saberem o que se discute ali; e penso que isso também tem feito com que haja mais proximidade.

E participação das pessoas?

Isso não noto muito. Nesta segunda ronda de reuniões de Câmara, o início foi alterado para as 18 horas – antes era às 14h30 –, se calhar como apanhou o período do inverno, houve muito menos público do que havia às 14h30, de uma forma geral. O público tem sido essencialmente as pessoas idosas que estão em casa e que vão lá ver o que se passa, porque quem sai do trabalho, tem os filhos, tem os seus afazeres e acaba por não estar livre ao final do dia.

Do programa eleitoral do AJSIM constava a criação de uma área de localização empresarial (ALE) na União de Freguesias de Arrimal e Mendiga. Tendo em conta que conhece bem a realidade daquela zona e sendo conhecida a sua dinâmica empresarial, qual a importância que atribui a este projeto? Considera que continua a justificar-se?

Sim, porque estamos a falar de uma zona serrana, onde há muita exploração da pedra. Eu acho que tinha sido positivo apostar na criação dessa ALE lá na zona da serra. Justificava-se bastante porque se podiam ganhar mais postos de trabalho, maior fixação de pessoas e aí rentabilizavam-se outros custos.

O turismo é um dos temas amplamente debatido desde a campanha eleitoral, constava do programa de todos os partidos e é também uma prioridade deste executivo. No entanto, na vila de Porto de Mós temos um posto de turismo que partilha o edifício com outros serviços, que tem pouca informação sobre o concelho noutras línguas e próximo de uma loja de recordações que está quase sempre fechada. Serão estas as melhores condições para um concelho que se quer afirmar no turismo?

Eu acho que o Município está a caminhar, claro que não se pode fazer tudo de uma vez. A promoção do turismo, dos doces… Já se tem feito algumas iniciativas nesse sentido.

Está já em construção o Posto de Turismo Avançado de Alvados. Com esta nova valência, faz sentido manter o Posto de Turismo na sede de concelho ou é preferível concentrar esforços apenas num local?

Acho que é de manter, porque é a sede de concelho, se calhar é aqui que as pessoas vêm primeiro. Se bem que agora a internet também facilita muito este tipo de busca…

Tendo em conta o programa do AJSIM e aquilo que são os objetivos do movimento, o que considera que é a prioridade na área do turismo?

Eu acho que este executivo está a ir no caminho que é suposto.

Olhando para o panorama geral do concelho, em que plano acha que se deve agir em primeira instância e a curto prazo?

Este executivo está a ir um pouco ao encontro de todas as áreas. Mas talvez o mais urgente seja a área da saúde; é importante promover a saúde para todos, porque um concelho não é desenvolvido se não tiver a saúde em pleno, mas também não é responsabilidade do Município. A autarquia pode é fazer esforços junto das entidades competentes para que a saúde funcione em pleno no nosso concelho.

Questionando agora a Sofia Caetano munícipe, dissociando-a da vereadora, como vê todas as alterações que o concelho tem sofrido no último ano e meio, se é que considera que as houve?

Enquanto munícipe, considero que estas alterações são positivas. Há mais eventos e a pessoa pode escolher a quais é que quer ir, tendo em conta os seus próprios interesses. Enquanto munícipe tento ir àqueles que estão mais de acordo com os meus interesses pessoais. A Sofia política vai àqueles que acha pertinente ir.

PERFIL

Sofia Caetano, natural da Mendiga, é vereadora da Câmara Municipal de Porto de Mós, eleita pelo AJSIM e sem pelouros atribuídos. Em terceiro lugar na lista do movimento independente, conseguiu um lugar na vereação depois de Albino Januário, candidato à Câmara, ter abdicado do seu mandato.
Sofia Caetano é licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra, com especialização em Justiça e Reinserção. Atualmente, e desde 2017, é diretora técnica na Associação para o Desenvolvimento Social da Loureira (concelho de Leiria).
Do currículo da vereadora consta também o associativismo, tendo estado entre 2004 e 2010 na direção do Centro de Apoio Social Serra D’Aire e Candeeiros (CASSAC), que tem como área de abrangência a União de Freguesias de Arrimal e Mendiga e as freguesias de Serro Ventoso e São Bento.