Em entrevista… Marco Lopes

28 Mar 2019

Marco Lopes, vereador da Câmara Municipal de Porto de Mós, eleito pelo movimento independente AJSIM, é o convidado desta edição d’O Portomosense. Numa conversa sem filtros, o vereador falou da avaliação que faz do trabalho do executivo até aqui, dos seus pelouros e dos projetos que tem em mãos, não fugindo a questões que poderiam causar alguma controvérsia. Afirma que ser presidente de Junta do Juncal foi o cargo mais desafiante que teve, no entanto não exclui a hipótese de, no final deste mandato, esse lugar ser tomado pelo seu trabalho enquanto vereador, acreditando que «se forem concretizados até ao final do mandato todos os projetos» que lidera, então será um mandato positivo.

Passou cerca de um ano e meio desde a tomada de posse, qual o balanço deste tempo de trabalho?

Só há cerca de um ano é que assumi os pelouros que me foram atribuídos e podemos dizer que se tratou de um período de aprendizagem, de conhecimento da realidade e de assimilação dos procedimentos. Devo evidenciar o esforço que este executivo tem feito na dinamização do concelho e algumas medidas que tem tomado como as reuniões de Câmara descentralizadas, que são um contributo para a maior proximidade com a população e em que ouvimos as necessidades e as opiniões de cada munícipe. Temos também reuniões de chefia, todas as segundas feiras, onde são discutidos vários problemas e entre todos tentamos arranjar soluções. Iniciámos no pricípio deste ano, reuniões mensais com os presidentes de Junta, para ouvir os seus problemas e tentarmos encontrar soluções e fazer um planeamento de apoio. Temos estado sempre os quatro [Jorge Vala, Eduardo Amaral, Telma Cruz e Marco Lopes] envolvidos em todas as áreas e penso que isso é uma mais-valia.

O que é mudou desde que este novo executivo tomou posse?

O que mudou e que se pode ver foi a dinamização do concelho. Temos mais eventos e através deles a população está mais envolvida no que acontece nas freguesias. Este executivo aposta muito no turismo, na divulgação do concelho e é essa a grande mudança. Este executivo está a apostar bastante para divulgar o nome de Porto de Mós a nível nacional e até além fronteiras.

Na sua atividade cívica é, entre outros, escuteiro. Como é que os valores e os princípios que traz do escutismo, o ajudam a desempenhar a sua função de vereador?

O que posso trazer dos “escutas” é a parte da transparência, “o escuta é leal”. Acho que é isso que posso trazer para a política e penso que é isso que está a acontecer, transparência e lealdade.

Para os seus elementos continua a ser o chefe Marco ou já é o vereador Marco?

Sou o chefe Marco! Tenho estado um bocado mais ausente, é normal, mas quando estou, sou o chefe Marco.

Os pelouros em que está a trabalhar são áreas que já conhecia e em que se sente à vontade?

Eu sou engenheiro informático e engenheiro de produção industrial, por isso são áreas conhecidas, já há muito tempo que abraço a área da tecnologia. Na parte da inovação, tenho algumas pós-graduações viradas para as tecnologias, portanto estou dentro do assunto. Na área da modernização administrativa, estamos sempre a aprender, mas eu penso que tudo isto se conjuga, as tecnologias, a desmaterialização do papel, tudo isso se faz através de software, de equipamentos tecnológicos…

Qual tem sido a parte mais desafiante?

Neste momento, é mesmo a construção da Fab Lab. É um projeto inovador na região, somos pioneiros e tem sido, para mim, um desafio para conseguir que seja uma boa aposta para o nosso concelho.

Pode explicar-nos sucintamente o que é a Fab Lab e o que vai ser, em particular a de Porto de Mós?

A Fab Lab é um laboratório de prototipagem, de fabricação digital. É composto tipicamente por um conjunto de ferramentas, como máquinas de CNC, fresadoras, scanners 3D para a engenharia inversa, plotters de corte, máquinas de corte laser e de corte vinil, impressoras 3D, bancadas de eletrónica e multiusos para o uso da robótica, da automação, computadores com ferramentas de programação viradas para o 3D, entre outros softwares. O que se pretende fazer numa Fab Lab é criar projetos e produtos inovadores, podendo assim criar uma start up a partir desses produtos, ou então apoiar as empresas já existentes no concelho.

Quando vamos poder usufruir da Fab Lab? Qual acha que vai ser, efetivamente, a adesão?

Penso que vamos poder usufruir da Fab Lab brevemente. Não quero estar a apontar uma data porque posso falhar, temos de testar ainda alguns equipamentos. Falta também criar um ambiente de Fab Lab, que ainda não temos, vamos ter que, com os equipamentos, criar produtos para ter um ambiente Fab Lab no espaço. A apontar, diria que será em abril, mas sem compromisso. Queria abrir como deve ser, com tudo preparado e já apetrechada, de maneira a poder responder a pedidos. Penso que vai haver bastantes pessoas interessadas em perceber o que é uma Fab Lab e ver as máquinas a trabalhar. Julgo que como é um projeto novo vamos ter bastante adesão, mas é imprevisível.

A Fab Lab vai ser instalada no Espaço Jovem, que alberga também o Posto de Turismo e a Universidade Aberta (UAb). Em termos de ruído, quais vão ser os constrangimentos e que medidas foram tomadas para os evitar?

O que faz mais ruído é a fresadora CNC, que foi colocada num espaço com vidro duplo. É claro que haverá sempre algum ruído que não conseguimos eliminar, mas esta máquina não vai estar sempre a trabalhar. Em época de exames da UAb por exemplo, a fresadora não pode trabalhar. Para que a Fab Lab pudesse entrar em funcionamento agora, tinha que ser colocada naquele espaço, mais tarde teremos que optar ou por um novo espaço ou então criar outras condições para a UAb e para o [Posto de] Turismo, já que o Espaço Jovem se integra facilmente numa Fab Lab.

Foi o vereador responsável pelo Orçamento Participativo que se realizou pela primeira vez em Porto de Mós no ano passado. Acha que este foi um passo importante para os munícipes?

Penso que sim, o Orçamento Participativo é um modelo de gestão que é partilhado com a população e que envolve a comunidade num novo ciclo de desenvolvimento e futuro do concelho. A população é que propõe e que escolhe. É um projeto que não é nosso [da Câmara] e eu penso que isso é uma mais-valia.

Neste momento estamos na fase de apresentação de propostas de uma segunda edição, o que significa que a primeira, na opinião do Município, foi bem conseguida…

Sim. Tivemos 33 propostas, se não me engano, muito bom para uma primeira edição. Também tivemos muita gente a votar, mais votos em papel do que online. Foram 18 propostas a votação, as que não conseguiram chegar a essa fase, podem agora ser reformuladas e candidatar-se novamente este ano, assim como aquelas que foram a votação mas não ganharam.

Ouviram-se críticas, nomeadamente, quanto à apresentação de propostas por partidos ou por elementos de juntas, que, por norma, têm uma via de comunicação mais facilitada com a Câmara e portanto não precisariam destas iniciativas para fazer propostas. No entanto, nada disto foi tido em conta nas alterações ao regulamento. Não tinham razão de ser?

Todas as propostas chegaram em nome individual, ainda que as pessoas possam pertencer a juntas de freguesia, e foi dessa forma que as avaliámos. Este ano haverá assembleias de freguesia para fazer a votação, em vez de haver um período em que as pessoas podem ir fazer o seu voto em papel. Agora isso será feito num dia específico (que ainda não está definido), em que haverá uma assembleia de voto nas Juntas e na Câmara. É a única mudança, mas estamos abertos a mudar o regulamento só que não pensámos em fazê-lo este ano porque íamos perder novamente alguns meses porque tem que ir à reunião de Câmara, depois à Assembleia [Municipal]. Durante este ano vamos rever o regulamento e, se acharmos bem, poderão ser mudados alguns pontos para pôr em prática no próximo ano.

Um dos seus pelouros é a Modernização Administrativa, tema que é uma bandeira do próprio Governo Central, este esforço de diminuição da burocracia tem sido também acompanhado a nível local?

A modernização administrativa é um processo longo. A desmaterialização dos processos, do papel, não é fácil e temos que falar com os funcionários, explicar-lhes que o que está em papel, também pode estar no computador. No Município temos feito algum investimento na aquisição de software, equipamentos, digitalizadoras para os livros e documentos mais antigos, para apoiar no arquivo. Os gabinetes foram todos reestruturados, fizemos uma renovação completa por dentro do edifício dos Paços do Concelho. Nesta remodelação, uma das medidas foi ter o mínimo possível de armários para começar a sensibilizar os funcionários para só imprimirem aquilo que é mesmo necessário, esse processo é moroso.

Relativamente à gestão e manutenção dos edifícios, já foi dito, até pelo presidente da Câmara, que este executivo herdou alguns edifícios em mau estado. O que já foi feito para contrariar esta tendência?

Temos alguns edifícios, para não dizer quase todos, bastante degradados, como são os casos da Câmara, dos Gorjões, o Cineteatro, o Mercado… Temos feito um diagnóstico e um planeamento para a intervenção, tendo a preocupação das acessibilidades também. Iniciámos pelo edifício principal dos Paços do Concelho, fizemos a renovação por dentro que tinha uma necessidade enorme, foi tudo remodelado, chão, paredes, alvenarias, iluminação, e agora vamos ter de fazer por fora. O telhado precisa de ser reparado por causa das infiltrações, o edifício de ser pintado e o espaço envolvente precisa de uma melhoria. O edifício dos Gorjões será o próximo passo, temos uma candidatura de eficiência energética e vamos aproveitar para remodelar o edifício. Já remodelámos a biblioteca, respeitando os planos de acessibilidade, substituímos o telhado das oficinas também, que ainda estava com cobertura em fibrocimento. Temos feito um investimento muito grande nos nossos edifícios, se passarmos mais um mandato com eles assim danificados, corremos o risco de começarem a cair. Não podemos fazer tudo de uma vez, temos que ir pouco a pouco fazendo o que achamos mais útil e prioritário.

Em termos prioritários, o primeiro será os dos Gorjões…

Sim, vamos ver se conseguimos avançar este ano com esse edifício que também precisa de uma remodelação enorme, interior e ao nível do telhado. Temos outros projetos como a Casa Calado, no Juncal, é um projeto com o qual queremos avançar. Será um edifício com várias valências, estamos a pensar colocar um restaurante, um espaço de eventos e workshops, um salão nobre, uma biblioteca, recriar a Real Fábrica que existiu naquele espaço há muitos anos, teremos ateliers de artesanato, será feita uma ligação pedonal ao Parque Verde. Ligadas à Fab Lab e à inovação, teremos residências artísticas, onde os artistas terão ateliers integrados em projetos de âmbito regional e europeu, ligados ao programa Creative Europa. Já iniciámos o projeto, muito brevemente iremos apresentá-lo.

A formação profissional é um tema que tem sido também amplamente discutido no concelho, sobretudo devido à falta de mão de obra. Considera que a formação profissional é mesmo uma lacuna no nosso concelho?

Sim, no nosso concelho e nos outros. Temos que formar jovens aptos para as nossas indústrias e neste momento as empresas têm uma dificuldade enorme em conseguir pessoas qualificadas. Temos agora no Instituto Educativo do Juncal (IEJ), ligados à indústria 4.0, cursos como Produção e Montagem de Moldes. Há muita falta de técnicos na indústria de moldes e é uma profissão muito bem paga. Um técnico de produção e montagem de moldes, com experiência, tem um ordenado muito, muito bom e não precisa de tirar um curso superior, ainda que eu ache que mesmo tirando estes cursos, o aluno deve frequentar o ensino superior, até para adquirir outras competências. Temos o curso de Maquinação e Programação de CNC, que é também ligado aos moldes, mas não só, e o curso de técnico de Mecatrónica Industrial, que abrange um pouco de tudo. São profissões com futuro. A componente prática nas empresas que estes cursos têm é uma das grandes vantagens.

Já foi dito pelo IEJ, até em forma de agradecimento, que a Câmara ajudou muito na criação destes cursos, sobretudo na procura de parcerias com as empresas, e que com isto o futuro da instituição ficou salvaguardado. Faz sentido que a Câmara se empenhe em soluções para uma instituição privada? As propostas que foram feitas ao IEJ não poderiam ser feitas igualmente ao Agrupamento de Escolas?

A Câmara tinha em projeto criar uma escola profissional. Quando fui convidado a assumir pelouros, o presidente disse-me que esse era um dos objetivos, e é uma ideia com que eu concordo. O IEJ tinha alguns problemas com a falta de alunos, deixou de ter o 10.º ano regular, e a única hipótese que havia para reduzir esse problema era criar cursos profissionais. Achámos que a aposta que tínhamos no ensino profissional relacionado com a indústria 4.0, podia ser integrada no IEJ, que seria uma forma de resolver a falta de alunos e tínhamos na mesma uma escola profissional no concelho. Ao nível do Agrupamento de Escolas, eu penso que não quiseram estes cursos, têm outros, mas estamos abertos ao apoio nesta área ou noutros cursos.

Considera então que o facto de a Câmara apoiar estes cursos no IEJ foi como que “matar dois coelhos de uma cajadada só”…

Sim, apoiámos o IEJ e temos a formação profissional na vertente que queríamos. Apesar de ser uma instituição privada, também merece algum apoio, não demos qualquer ajuda financeira. Aquela instituição é uma mais-valia para todo o concelho, e esta foi também uma forma de fixarmos cá os nossos alunos.

Foi eleito pelo movimento AJSIM e é o único vereador da oposição a assumir pelouros, vota quase sempre ao lado do PSD e surge com frequência nas cerimónias públicas junto do presidente da Câmara. No entanto, Albino Januário, o presidente do AJSIM, na entrevista que deu ao nosso jornal disse que o vereador Marco Lopes está no executivo em defesa dos interesses do movimento. Afinal de que lado é que está?

Pensei muito antes de aceitar o convite do presidente Jorge Vala, mas não o aceitei pela política, eu não sou político e quem me conhece sabe que não gosto de política. Aceitei por Porto de Mós, considerei que ia ser uma mais-valia para o concelho. Tudo o que sei, o que posso aprender e tudo o que gosto de fazer, pode ser dado ao concelho, foi dessa forma que abracei este convite. Fui eleito, claro, pelo movimento independente, até 2021, mas eu tenho que trabalhar para o concelho. Mesmo que estivesse no PSD ou PS, ia sempre trabalhar para o concelho e não para a política. Continuarei a apoiar Porto de Mós, a fazer o que melhor sei e, se for preciso, aprender mais para fazer melhor.

Até aqui, o que é que tem sido mais desafiante: ser presidente de Junta no Juncal ou vereador?

É muito cedo para fazer essa comparação. Como disse, não sou político, mas gosto disto, de fazer coisas para o meu concelho, gosto de inovar, de fazer melhorias, é por isso que cá estou. Antes de ser presidente do Juncal, passava o meu dia todo na Nazaré e depois tinha uma empresa de assistência informática, praticamente ninguém me via. Depois de ganhar as eleições, abracei o projeto Juncal, deixei de dar aulas, praticamente coloquei a minha empresa de lado e dediquei-me por completo à Junta de Freguesia, penso que fiz o meu melhor. Como vereador, vou tentar fazer o mesmo. Se forem concretizados até ao final do mandato todos os projetos que lidero, poderei dizer que fizemos um bom trabalho.