Em Entrevista… Olga Silvestre

13 Nov 2019

Nesta edição entrevistamos Olga Silvestre, a social-democrata portomosense que foi recentemente eleita deputada da Assembleia da República pelo Círculo Eleitoral de Leiria. Olga Silvestre concedeu-nos uma entrevista em que falou do seu percurso político, das suas expectativas de futuro no novo órgão que integra, e da sua opinião acerca de alguns assuntos de relevo respeitantes ao distrito e que, por isso, têm também influência no nosso concelho. Olga Silvestre comprometeu-se ainda a manter a sua ligação a Porto de Mós,continuando os cargos que ocupa, nomeadamente o de deputada da Assembleia Municipal.

Um lugar na lista de candidatos à Assembleia da República é algo sempre muito ambicionado, ainda para mais se for em lugar elegível. A que é que atribui o convite para integrar a lista do PSD?
O meu nome foi indicado pela comissão política concelhia e a distrital aceitou-o. Obviamente que o lugar em que fui posicionada era apetecível para mais pessoas, mas, sem falsas modéstias, tenho consciência de que me foi atribuído o quarto lugar pelo meu percurso de vida político há 15 anos a esta parte e por a Câmara de Porto de Mós ser PSD. Também pesou, seguramente, o espírito de missão e a minha dedicação ao partido, o mérito pessoal e a frontalidade e abertura que me caracterizam. Obviamente que havia outras pessoas que podiam ter ido neste lugar, mas acho que foi mesmo a meritocracia que funcionou.

Partiu para a corrida eleitoral com que expectativas? Alguma vez duvidou que viesse a ser eleita?
Não, sou uma mulher de fé, com muita esperança e muito positiva por natureza. Sempre acreditei que iria ser eleita. Aliás quem me acompanhou durante a campanha eleitoral e na pré-eleitoral sabe que eu sempre disse que seguramente iria ser eleita e acreditava também que iríamos pôr cinco deputados no distrito. Foi sempre o meu pensamento e uma esperança muito consistente, que fui reforçando no decorrer da campanha.

Muitos davam como certa uma estrondosa derrota do PSD a nível distrital mas esse cenário não se confirmou, no entanto é cada vez mais curta a distância entre PSD e PS tanto no distrito como no concelho. Este cenário preocupa-a?
O resultado eleitoral deu uma vitória ao PS a nível nacional fruto de muitas políticas que a curto prazo, na minha opinião, irão ser desastrosas para o país, e o distrito e o concelho sofreram esse contágio, no entanto podemos falar de uma grande vitória tanto num lado como no outro. O PS fez uma aposta forte em Raul Castro, o presidente da Câmara de Leiria, e mesmo nesse concelho perdeu.

Ao longo destes 15 anos já participou em muitas campanhas eleitorais. Esta foi de algum modo diferente?
Sim, porque foi muito trabalhosa. Começou muito cedo, em agosto, quando antes começávamos, no máximo, um mês antes das eleições. Percorremos os vários concelhos do distrito e tivemos o apoio determinante da JSD. Depois, a nossa cabeça de lista, apesar de ser uma jovem, mostrou-se uma mulher aguerrida e de convicções e foi, sem dúvida, a grande vencedora dos debates em que participou e isso deu-nos algum elã para virmos a ganhar as eleições.

Sendo certo que um deputado com pouca experiência tem menos hipóteses de intervir no plenário, pensa que pode ser mais eficaz no trabalho de gabinete e nos bastidores políticos? A experiência como advogada poderá revelar-se útil nas novas funções?
O meu propósito é ser uma deputada ativa. Quando digo ativa é fazer o trabalho que terei que fazer nos gabinetes e nas comissões e, quando puder e me for dada essa oportunidade, intervir no plenário. Não depende de mim mas da liderança da bancada e da direção do partido, mas eu tenho como propósito intervir. O facto de ser advogada dá-me um background para poder ser deputada, embora haja outras pessoas que não o são e que também são deputadas, porque tudo na vida se aprende. O ser deputada municipal e ter tido um percurso de 14 anos também me deu alguma experiência e, essencialmente, a resiliência porque ter estado 12 anos na oposição e sendo eu uma deputada que intervinha, isso deu-me algum estofo para o cargo que irei desempenhar.

No período eleitoral uma das promessas mais frequentes é a de voltar com frequência ao distrito onde se foi eleito. Esse contacto com quem a elegeu é um propósito seu?
Quem me conhece sabe que sou uma pessoa que faz política de proximidade, que estou próxima das pessoas, que gosto de as ouvir, e essa minha característica vai manter-se ao longo deste mandato. É meu propósito vir com frequência ao distrito e, obviamente, ao concelho.

Vê alguma possibilidade de, no Parlamento, os eleitos por Leiria virem a estabelecer pontes de entendimento em matérias locais que todos considerem fundamentais para o distrito?
Eu acho que há essa hipótese porque há causas que são transversais às forças partidárias que se apresentaram a eleições e penso que haverá seguramente a possibilidade de estabelecer essas pontes e esses contactos. Designadamente posso aqui falar numa que é tão querida do PSD há muito tempo e que foi uma bandeira do PS, a abertura da base aérea de Monte Real à aviação civil.

Tendo em conta que o primeiro-ministro quando esteve em Leiria se mostrou também favorável a essa abertura, será que é desta que o sonho se concretiza?
Da nossa parte será uma promessa para cumprir. Obviamente que quem governa é que toma essa decisão, mas como o PS tem essa bandeira e foi prometido pelo atual primeiro-ministro e o próprio Raul Castro terá assumido ser essa uma das razões que o levaram a aceitar ser cabeça de lista, acredito que venha a ser cumprida. Se não o for, esse ónus caberá ao PS, será exclusivamente por culpa sua.

Na sua perspetiva, que benefícios podem advir da abertura da base à aviação civil?
Temos que aproveitar a centralidade do distrito de Leiria. Estamos numa região onde o turismo é uma alavanca para economia local e possibilitando que os aviões civis aterrem na base aérea beneficiamos da proximidade a Fátima, a Lisboa e ao Porto. Pode proporcionar um grande incremento económico.

Há depois todas as questões de segurança já que Monte Real tem um papel importantíssimo em termos estratégicos e de defesa do espaço aéreo nacional. Será possível conciliar a “fina flor” da nossa aviação militar com o tráfego civil?
Obviamente que isso é uma questão a ter em conta. Por isso é que é a abertura da base à aviação civil e não a transformação num aeroporto civil. O desafio é haver em simultâneo as duas vertentes. Isso é algo que depois o Governo terá que analisar e ponderar mas é possível como o defendem o PSD e o PS.

Como é que a sua eleição foi recebida em Porto de Mós?
Foi muito bem recebida. Tenho a certeza que os portomosenses ficaram felizes porque, desde aquela noite até hoje, tenho sido “bombardeada”, no bom sentido, com mensagens de parabéns e de encorajamento para o novo cargo. Também fui saudada pelo deputado municipal David Salgueiro, que ia na lista do PS em 11.º lugar e que teve a amabilidade de na noite da eleição me saudar. Houve outras pessoas de outras forças partidárias que também o fizeram, mas mais do PS e do CDS.

O fator bairrismo contou? Será que algumas pessoas que não votam habitualmente PSD, desta vez o fizeram por pensarem que estavam a contribuir para a sua eleição?
Acho que não foi o fator preponderante. A matriz, o ADN de Porto de Mós é social-democrata, o concelho tem-nos habituado sempre a vitórias nas legislativas. No entanto, nalguns locais e perante algumas pessoas, acho que o facto de eu ser de cá contribuiu. O poder voltar a haver uma deputada do concelho na Assembleia da República terá levado algumas pessoas a votar PSD.

Considera que a Câmara e o próprio PSD local beneficiam da sua eleição?
Durante todo o percurso de campanha e de pré-campanha houve uma grande mobilização das pessoas de Porto de Mós em torno da minha candidatura e em alguns momentos determinantes em que era importante mobilizar pessoas, os portomosenses disseram presente e eu a isso só tenho a dizer muito obrigado. O facto da Câmara ser do PSD também faz com que essa mobilização seja mais evidente. Tendo uma deputada do PSD na Assembleia da República e sendo a Câmara também PSD há uma estreita ligação e um afunilar de ideias e valores em que estamos em consonância. Obviamente que se a Câmara não fosse do meu partido eu também estaria disponível para, naquilo que me fosse possível, colaborar com o Município. Sendo os dois do mesmo partido, esse entendimento será mais fácil, muito mais viável e mais enriquecedora a relação e abrirá caminhos de Porto de Mós junto das entidades oficiais no parlamento e em Lisboa.

Embora ainda não esteja instalada e não saiba de que comissões fará parte, decerto terá já dois ou três temas locais que gostava de levar à Assembleia da República. Pode indicar-nos alguns?
Uma grande preocupação neste momento é a requalificação da Escola Secundária de Porto de Mós. É uma aberração o que lá está. Quando andava a estudar, fui uma das pessoas que vieram inaugurar a Escola Secundária e desde essa altura não houve nenhuma intervenção. Nas escolas dos concelhos vizinhos houve grandes intervenções e têm escolas do século XXI e nós, infelizmente, ainda não e sei que da parte da Câmara há até uma grande convergência nesse sentido e um propósito de ajuda e colaboração. Outra situação que também nos é muito querida e muito importante é a requalificação do IC2. O IC2 também já há bastantes anos que não tem qualquer intervenção, portanto é urgente que haja essa requalificação. É uma estrada que trespassa o nosso concelho, assim como os concelhos de Alcobaça e Batalha. Uma outra situação que é querida do Município e que também vinha como proposta no nosso programa eleitoral é a descarbonização da economia. Cada vez mais temos que nos preocupar com o ambiente e promover uma economia circular e as energias renováveis. Isso faz parte do nosso ADN como sociais-democratas e é urgente conseguirmos que o espaço onde vivemos continue para os filhos e para os netos, de um modo sustentável.

Atualmente desempenha cargos políticos, autárquicos e na sociedade civil. Pretende mantê-los?
Daquilo que sei é compatível ser deputada na Assembleia da República e ao mesmo tempo na Assembleia Municipal e por isso vou continuar a ser deputada municipal, uma atividade de que me orgulho e de que tenho muita honra em fazer parte. Os outros cargos, alguns são políticos mas são compatíveis com o exercício do papel de deputada e os outros na sociedade civil também uma vez que trabalho sempre pro bono.

E vai continuar a exercer advocacia?
Nesta fase vou continuar a exercer advocacia porque estou deputada mas a minha profissão é advogada. Não sou deputada de profissão mas sim advogada, e estou como deputada para servir o meu país, o meu distrito e o meu concelho, o melhor que eu souber e puder porque encaro este cargo como um dever de cidadania, uma missão de serviço para o bem comum.

Porto de Mós não teve muitos deputados mas teve alguns que se destacaram na vida parlamentar e política. Esse passado e esse património é uma responsabilidade para si?
Só o facto de ser deputada já é uma grande responsabilidade. O ter antes de mim deputados como João Domingos que foi contemporâneo de Francisco Sá Carneiro, como Licínio Moreira da Silva, como Silva Marques e como Ana Narciso, a responsabilidade ainda é acrescida e tudo vou fazer para honrar o cargo e também servir o melhor que sei e posso e fazer juz à qualidade a que os deputados que citei, nos habituaram.

Além das pessoas que evocou, tivemos dois outros deputados que não tendo sido eleitos por Leiria, são naturais do concelho. Um deles, e uma pessoa muito querida no concelho, Luís Amado, e também Luís Carloto Marques, dos Bouceiros, o que reforça a ideia de que, de facto, é uma herança pesada?
Pois, de facto, foi falha minha, citei apenas os que foram eleitos pelo meu partido. Luís Amado é uma referência não só como deputado mas como ministro que foi. Aliás para mim é uma dupla referência porque foi meu professor no 5.º e 6.º anos, na que é hoje a Escola Dr. Manuel de Oliveira Perpétua, e é uma pessoa que nos habituou a vermos nele um grande senhor. O outro deputado de que falou, não conheço mas já ouvi falar bem dele enquanto tal.

Para terminar, gostava de saber a sua opinião sobre grandes temas a nível distrital e começo por lhe perguntar se defende a transformação do Instituto Politécnico de Leiria em Universidade.
Nós somos a favor da criação da universidade politécnica de Leiria. Pensamos que será uma mais-valia para a região, no sentido em que dá um retorno económico de muitos milhões de euros por ano e possibilita que esta centralidade de Leiria seja também uma referência nacional no ensino. Com a transformação em universidade será ainda uma maior referência no sentido de possibilitar que haja doutoramentos e que venham estudantes de várias partes do mundo e isso seria uma grande alavanca para a economia, quer para Leiria, quer para os concelhos vizinhos. Para Porto de Mós também seria positivo no sentido de possibilitar que estudantes pudessem residir aqui e depois beneficiariam dos efeitos de outra das nossas propostas, a redução ou a isenção das portagens da A19, o que contribuiria para haver um acesso mais fácil a Leiria a partir de Porto de Mós, Batalha ou Alcobaça.

Na área da ferrovia, a necessidade de requalificação da linha do Oeste é outro assunto sempre presente nas campanhas eleitorais. O que pensa sobre isso?
Este Governo fez a requalificação da linha mas parou em Torres Vedras, portanto agora falta fazer a requalificação até, pelo menos, às Caldas da Rainha. É um assunto que é transversal ao PS e ao PSD só que na altura em que o PSD foi Governo houve os constrangimentos da Troika e daí que não houve a possibilidade de fazer esse investimento público. Agora com estes quatro anos do Governo socialista e como a economia começou a florescer havia, na minha opinião, a possibilidade de fazer esse investimento mas ficou outra vez só nos grandes centros urbanos e mais uma vez esqueceram-se do litoral e do interior.

Também já na agenda há mais de 20 anos está a despoluição da bacia hidrográfica do Rio Lis…
Sim, também está no nosso programa e também é uma preocupação. À semelhança dos casos anteriores, é também um assunto já bastante antigo mas pouco ou nada é feito. Cada vez mais temos de apostar na despoluição e no meio ambiente se queremos ter um sítio para viver. A despoluição da bacia hidrográfica do Lis, mais que uma proposta, é uma necessidade.

A terminar gostava de saber a sua opinião sobre uma frase dita há vários anos por um conhecido parlamentar leiriense e que muitos defendem ainda estar atual: «Leiria é um gigante económico mas um anão político».
Uma das bandeiras do nosso programa era Leiria, região competitiva e internacional e, de facto, o nosso distrito é um distrito de gente empreendedora, de pessoas que arregaçam as mangas, e de empresários de referência, que não estão à espera do Estado para fazer mover a economia.

Temos no nosso distrito e no nosso próprio concelho, das melhores empresas a nível nacional e internacional na sua área. Está na hora de criarmos essa marca de Leiria como Leiria região competitiva e internacional. Para isso é importante que o Governo ouça mais Leiria, que veja mais Leiria e que não se esqueça de Leiria como tem acontecido.

 OLGA SILVESTRE | PERFIL

Olga Silvestre nasceu em 1964 e é natural da Cruz da Légua, freguesia das Pedreiras. Advogada de profissão, com escritório na cidade de Alcobaça, foi uma das impulsionadoras da criação do Rotary Club de Porto de Mós e, consequentemente da sua Universidade Senior. A nível político é presidente da Comissão Política concelhia de Porto de Mós do PSD, secretária da mesa da Assembleia Municipal de Porto de Mós, vogal da Comissão Política Distrital alargada do PSD e coordenadora distrital das Mulheres Sociais-Democratas.
Nas últimas eleições legislativas, realizadas a 6 de outubro, fez parte da lista do PSD pelo Círculo Eleitoral de Leiria, tendo sido eleita, pelo que vai ocupar um lugar na Assembleia da República.