Conhece algum luthier – o nome dado a um construtor de violinos? Os habitantes de Casal Duro, uma aldeia na freguesia do Alqueidão da Serra, têm um como vizinho. Thibaut Dumas é francês e em 2007 escolheu Portugal para morar. Chegou ao país pela mão de Christian Bayon, também francês, radicado em Portugal há três décadas, e foi na sua oficina, em Lisboa, que trabalhou durante três anos. Nesse tempo, descobriu «as entidades importantes da música, como a Fundação Calouste Gulbenkian, o Teatro São Carlos, as várias orquestras de Lisboa e arredores», lembra. Hoje, Thibaut, tem a sua própria oficina, no centro do Bairro Alto, e quando lhe pedimos que explique o que faz, responde que tenta «resolver todas as situações à volta do violino, seja construir de raiz ou restaurar». Além disso fornece instrumentos de estudo para as crianças que precisam de instrumentos de vários tamanhos que acompanhem o seu crescimento; como fazer esses instrumentos à mão ia custar «uma fortuna», Thibaut compra material na China e faz depois a sua montagem para que fique «a um custo muito reduzido».

O luthier explica que fazer um violino de raiz pode levar entre 200 e 250 horas de trabalho, «só a parte do trabalho “em branco”», já que a esse tempo, há que acrescentar todo o necessário para envernizar o instrumento, e deixar que seque entre as várias camadas. O produto final é vendido a cerca de quatro mil euros: «Nas matérias primas gastamos à volta de 600 euros. As madeiras têm que ter um envelhecimento de 20 anos, entretanto podem estragar-se, podem não servir porque empenaram, então guardar as madeiras também tem um custo. Além disso, estamos a falar de um instrumento feito à mão, é um trabalho específico», justifica. Em contrapartida, quem encomenda um violino num luthier «tem a vantagem de poder escolher os modelos, as cores e, em termos de som, [o instrumento] pode aproximar-se do que a pessoa gosta mais», argumenta.

Chegados a este ponto da estória, onde entra afinal Porto de Mós? Depois de algum tempo em Portugal, Thibaut quis comprar uma casa, «em Lisboa era impossível porque era tudo muito caro e tinha que fazer um empréstimo», também ponderou ir para o Alentejo mas, um dia numa deslocação a Torres Novas, viu várias placas que indicavam a existência de grutas e decidiu explorar. «A zona de onde eu venho, Provence, no sul de França, tem grutas, é calcária, as casas também são em pedra, as vegetações são as mesmas», refere. Esta familiaridade deu-lhe o impulso de que precisava para ficar na região, ou mais especificamente no concelho de Porto de Mós.

Aos fins de semana começou a explorar a zona e acabou por descobrir Casal Duro. Quando chegou, achou que «a aldeia era um sítio um bocadinho escuro, sombrio, mas os vizinhos disseram logo bem» e o artesão sentiu-se inspirado. Além disso, há a questão prática que rapidamente enumera: «Não fica longe de Lisboa, é uma hora. E estamos no centro, se precisar de ir ao Porto, por exemplo, não me custa tanto como se estivesse lá “em baixo”. Por isso, para mim, é um sítio realmente bem localizado», diz.

Grande parte dos habitantes da aldeia «tiveram experiências em França» e esse facto talvez tenha contribuído para a boa receção que Thibaut sentiu. «As pessoas foram sempre muito gentis, acolhedoras, educadas, não tenho queixas nenhumas em relação à vizinhança», afirma, acrescentando, no entanto, que a aldeia está «muito vazia» e que não há grandes oportunidades e pontos de encontro: «Há um dia em que é a festa da aldeia, mas de resto, o café fechou, a antiga loja fechou e a escola também, por isso já não se passa muita coisa aqui».
Sobre o concelho, admite que não conhece muito, já que passa a maior parte da semana em Lisboa, mas considera que, «em termos económicos, há maneira de desenvolver projetos turísticos» e acha que a zona serrana «tem um potencial fantástico». Todavia, sublinha, é necessário «proteger o que temos aqui, […] temos que manter tudo limpo, às vezes é assustador [o estado das coisas]», e a propósito dessa consideração, conta que há uns dias, por causa de um acidente, teve de se desviar a sua rota e ir para casa usando um caminho de terra no meio da serra e constatou que «há sempre alguém que depositou ali entulho, sempre… Uma sanita, um lavatório, é impressionante», indigna-se.

Uma casa, vários projetos

Em Casal Duro comprou uma casa que tem reconstruido e recuperado praticamente sozinho. Inicialmente, «o conforto da casa era muito básico, o duche era um balde, por exemplo», foi necessário algum tempo para ter o mínimo de condições. «Estou contente de estar aqui, mas agora que tenho um pouco de conforto, já não estou tão motivado [para continuar as obras]», diz, porém, o seu maior obstáculo é o dinheiro – «trabalho por conta própria, [a situação financeira] não é muito confortável». Além disso há obras que não pode fazer por não ter os conhecimentos necessários, como reparar o telhado ou toda a instalação elétrica. «Uma pessoa que está habituada a fazer aquilo vai fazer num instante, eu vou demorar semanas», remata.

Quanto a projetos para aquela casa e para a sua estadia na aldeia, diz que anda «sempre muito inspirado» e que há dias em que pensa em «muitas coisas». Além do edifício principal, tem «a casa do burro, com um forno de lenha, uma horta e uma eira» e é nessa eira que vê potencial para criar um palco, «para danças ou outras atividades». Uma das ideias «a longo prazo, é fazer residências artísticas com músicos que viessem trabalhar num grupo pequeno, teriam uma sala de ensaios, um sítio onde podiam atuar, um atelier para afinar instrumentos ou para os emprestar» e ficariam alojados na casa. «Eu gosto de cozinhar, então acho que havia qualquer coisa de bonito para partilhar», diz. Outra das ideias de Thibaut Dumas passa por organizar estágios para a construção de instrumentos: «Eu organizava o atelier e uma pessoa ou duas podiam vir cá e construir o seu próprio instrumento, não de uma vez mas em algumas semanas». Como as ideias não se esgotam, gostava também de «fazer um percurso de artesãos»: «Tenho uns amigos em Alcaria que são oleiros, um outro que é escultor» e o objetivo era traçar um roteiro «para uma família, que ia de um sítio ao outro, iam descobrindo a serra e as pessoas que estão aqui a trabalhar», explica.

Se este é o seu projeto de vida, não sabe dizer, pois apesar de gostar muito de Portugal, «há coisas muito difíceis». Entre elas está o elevado custo de ter um atelier em Lisboa, que o faz pensar em alternativas como ter uma “carrinha-oficina” com que pudesse andar por todo o país ou então construir os seus instrumentos em Casal Duro e vendê-los em França – «há um vizinho aqui que faz cozinhas e vende tudo em França e eu acho que é uma boa visão», conta. O outro ponto que o faz duvidar do “para sempre” é o facto de toda a sua família estar em França: «Enquanto está tudo bem, o meu pai diz para fazermos a nossa vida, mas ia custar-me continuar aqui se soubesse que ele não estava bem».

«Se eu fico cá para sempre, não sei dizer», refere, mas enquanto estiver vai fazendo o seu «cantinho»: «Sei que posso ficar e que tenho aqui o meu sítio».