Foto: Jéssica Moás de Sá

Amália Rodrigues, de escusadas apresentações, já o cantava: «Povo que lavas no rio». E se em tempos este título de uma canção era natural, hoje, a questão que se impõe é: Povo, ainda continuas a lavar roupa à mão? O Portomosense procurou conhecer qual é a realidade atual e para isso viajou até à localidade do Arrimal, onde, junto à Lagoa Pequena, ainda existe um lavadouro. Para esta viagem teve a ajuda de Manuel Amado Carvalho, ex-presidente de Junta da Freguesia de Arrimal (antes da unificação de freguesias) que acompanhou o desenvolvimento desta infraestrutura. O autarca indicou-nos duas senhoras que ainda hoje mantêm a tradição de lavar a roupa à mão e contou um pouco do contexto em que surgiu este lavadouro.

«Este lavadouro foi criado pelo Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) porque as senhoras lavavam a roupa nas lagoas e tinham poucas condições», conta Manuel Amado Carvalho. No âmbito do Ano Europeu do Ambiente, em 1989, o PNSAC deu início a um processo de renaturalização do núcleo das Lagoas do Arrimal e foi inserido num conjunto de ações em que se enquadrou a obra do lavadouro. Atualmente, com 30 anos, é possível perceber as mudanças que foram ocorrendo na sociedade através da utilização deste espaço. «Antes havia muita gente a lavar roupa à mão, porque também trabalhava quase tudo na agricultura, onde se sujavam os panos da azeitona, as sacas, as botas e aqui lavavam mais à vontade, com mais água», lembra o ex-presidente. Agora, o retrato é outro: «Hoje anda tudo em stress, tudo trabalha e depois quando chegam à noite é nas máquinas que lavam, não vêm para a lagoa ou para os lavadouros». Manuel Amado Carvalho lembrou ainda que antes «não havia outra hipótese» se não lavar nas lagoas, rios e nos lavadouros e por isso todos se juntavam nesta tarefa.

Máquinas de lavar vencem na corrida contra o tempo

Maria Durão, de 83 anos, não precisa de dar mais de 20 passos, desde a sua casa, para chegar ao lavadouro. Esta proximidade é um dos motivos pelos quais ainda continua a lavar a «maior parte da roupa» à mão, mas não só. Cresceu a fazê-lo «com a mãe e as irmãs» e defende que a roupa «se lava melhor assim». Lava com o detergente convencional, mas às vezes ainda usa «o sabão azul e branco» que antes estava presente na casa de todos os portugueses. O facto de a «roupa se sacudir melhor» e a «poupança da água» são também determinantes para que Maria Durão visite com alguma regularidade o lavadouro. «Antes os tanques estavam cheios, agora é raro que se junte aqui alguém, só no verão para lavar os tapetes», conta a arrimalense.

Maria Durão acredita que lavar a roupa à mão era, antigamente «uma forma de convívio»: «Nós conversávamos muito, agora ninguém conversa, a não ser no café». Não acredita que esta tradição se mantenha e quanto ao encontrar jovens no lavadouro, é pronta: «Agora? Não, agora bem a roupa estando estragada, bota-se no lixo e pronto. Não se esfrega como antes».

Lionida de Almeida tem 65 anos e vive há 43 no Arrimal. Vinha já habituada «a lavar a roupa no ribeiro» com a mãe e por isso, na sua nova casa, continuou a rotina. Hoje em dia confessa que já não lava toda a roupa no lavadouro, mas sim as peças maiores, como «os cobertores». «Gosto de lavar a roupa à mão porque a sacudimos melhor e fica mais bem lavada», afirma, acrescentando que esta é ainda uma forma de «poupar água e luz». Partilha a opinião de Maria Durão de que a tradição vai “morrer”, e para isso, tem uma explicação: «O pessoal tem todo máquinas e tem todo falta de tempo, ao lavarem na máquina, colocam a roupa e não precisam de fazer mais nada». Recorda com saudade o tempo em que todas «as senhoras» se encontravam «na lagoa» para lavar toda a roupa que tinham. Nestes momentos conviviam e partilhavam algumas estórias. É caso para dizer: «Povo, que deixaste de lavar no rio».