Ao longo de 40 anos de carreira, Maria Lisboa editou vários discos, ocupou os primeiros lugares do top, sendo que lhe foi atribuído o disco de Platina. Antes de editar o single de sucesso “Tira a mãozinha daí”, em 1996, durante 25 anos dedicou-se ao fado chegando a cantar com grandes nomes como Amália Rodrigues, Hermínia Silva, Alfredo Marceneiro ou Cidália Moreira. Há dois anos, num registo onde não esconde o seu lado de fé e emocional, editou “Que Deus te Guarde”, um trabalho que dedica ao seu filho que perdeu a vida há cerca de sete anos num acidente de comboio.

O que tem a dizer destas quatro décadas de carreira?
Muita estrada, muita gente. Claro que nem tudo é um mar de rosas, há muitos espinhos, mas também há coisas boas. É extenuante andar na estrada e chegar a casa às seis ou sete da manhã, mas depois acaba por ser compensador pelo carinho do público e é isso que me faz estar aqui.

Depois de tantos anos a cantar fado, o que a fez mudar para a música ligeira?
Naquela altura era extremamente complicado, não havia a facilidade que há hoje de chegar aos meios de comunicação. Tínhamos de palmilhar muito. Não é que eu não tivesse valor, até porque quando terminei a minha carreira no fado e comecei a cantar o “Tira a Mãozinha Daí”, os meus colegas ficaram chocados, pois acham que eu passei ao lado de uma grande carreira, mas naquela altura em termos comerciais era muito complicado. Hoje, o fado está em todo o lado e está na moda.

Os temas atuais transmitem fé e esperança. É isso que pretende?
Sim. Há uma certa altura em que a vida nos prega uma partida e o mundo cai, agarramo-nos à fé e a vida fica com outro sentido, e eu senti que tinha de gravar estes temas.
Em palco faço um espetáculo extremamente animado, mas há uma altura em que a máscara cai, e canto aquelas canções que vão ser eternas.
Eu posso acabar hoje a minha carreira que fico feliz por saber que milhares de mães que perderam os seus filhos, mulheres que sofreram de cancro, ouviram as minhas músicas e eu tenho a certeza que as aliviei um bocadinho.

Como descreve o seu último trabalho?
O disco “Que Deus te Guarde” é dedicado ao meu filho. A canção com o mesmo nome é feita pelo Jorge do Carmo e pela Nikita. A letra e a música não poderiam ser melhores. Está ali tudo explicado. Há muitos artistas que têm a sua estrutura familiar, mas eu não tenho. Tenho Deus e as pessoas que gostam de mim.

Como foi trabalhar com a Nikita e com o Jorge do Carmo?
A Nikita foi a minha convidada no Coliseu de Lisboa. Acho que ela compõe muito bem, mas que ainda não lhe deram o valor que ela merece. Tanto ela como o Jorge do Carmo sabem o que quero, sabem do meu sofrimento e assim torna-se tudo muito mais fácil, acabam por ter uma sensibilidade que outro produtor não teria.

Qual é a mensagem que deixa ao público de Porto de Mós?
Não percam este espetáculo que será de muita alegria. Desde o nosso folclore, às minhas canções. No palco sou uma mulher que se transforma. Mal entro no palco é uma transformação enorme. Toda a gente e até a comunicação social me pergunta como é que consigo. Só é possível pela força, uma força em que acredito.