A portomosense Aida Moreira da Silva está a liderar, juntamente com Maria João Barroca, um grupo de investigadores da Universidade de Coimbra, num projeto intitulado IDEAS4life (Novos Ingredientes Alimentares de Plantas Marítimas) que pretende estudar as propriedades das camarinhas. Essas pequenas bagas brancas translúcidas que nascem em arbustos na zona costeira e que estão na memória de alguns, são agora objeto de estudo juntamente com a salicórnia, com o objetivo de “valorizar estes recursos endógenos” de forma a torná-los “uma mais-valia para a população no futuro”, explica a O Portomosense a responsável.

“A ideia do projeto teve origem numa conversa com um colega na Finlândia, em que ele me apresentou uma baga muito parecida com mirtilo. Fui ver qual era o género e de repente sai-me uma fotografia da minha conhecida camarinha. Lembrou-me a infância e essa nostalgia fez desencadear uma série de processos. No fundo, isto é um projeto de memórias boas que nos levam para a infância”, explica a investigadora, que acrescenta que o seu “grupo de investigação já tinha na ideia estudar plantas halófitas, que são as plantas que gostam de sal”.

Tendo sido aprovado em abril e arrancado em julho, o projeto está, neste momento na fase inicial. “Estamos a colher, em ambientes naturais, plantas marítimas”, entre elas a camarinha e a salicórnia, “trazemo-las para o laboratório, tratamo-las, usamo-las em fresco e desidratadas”, refere. Serão estudados os constituintes químicos para a possibilidade de utilização na alimentação, assim como para a indústria farmacêutica.

Na ótica de Aida Moreira da Silva, as perspetivas “são boas”, havendo já “algumas provas de conceito” – a terminologia usada quando são produzidos alguns alimentos que usam estes produtos. No caso da salicórnia, há uma parceria com uma empresa pasteleira de renome, para a elaboração de bolachas, “e estudos de uma aluna de mestrado revelaram que têm uma grande aceitação do público”. Já quanto às camarinhas, há o “interesse de chefs da parte gourmet de usar a camarinha por si só ou como era usada antigamente, como geleia”.

Além desta utilização, o grupo está ainda a estudar “estes extratos de plantas em linhas celulares de cancro”, nomeadamente em cancro do cólon humano, em que “a camarinha revelou resultados muito interessantes, tendo conseguido ser anti-proliferativa [controlar a propagação]” deste tipo de cancro, adianta a investigadora. Vão ainda ser estudados os efeitos noutras células cancerígenas, cedidas pelo Instituto Português de Oncologia.
A equipa de investigação é multidisciplinar sendo constituída por uma equipa da Unidade de Química e Física da Universidade de Coimbra; uma equipa da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, “que está filiada ao REQUIMTE (Rede de Química e Tecnologia), um grande grupo de investigação”; e um grupo do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, “que vai elaborar os alimentos à escala laboratorial”.

O projeto, que está a ser desenvolvido nos laboratórios da Universidade de Coimbra e na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra, vai manter-se em fase de estudos nos próximos três anos.

Camarinhas fora do habitat natural

Há atividades que, apesar de não estarem diretamente previstas no projeto, “faz todo o sentido executar”. É o caso de uma tese de mestrado em que foram feitos ensaios “in vitro” e “ex vitro” para verificar o crescimento da planta fora do habitat natural e em que foi registado “algum sucesso, apesar de os especialistas dizerem que, à partida, seria difícil”. A investigadora revela que poderá ser cedido à equipa um terreno privado perto do Palheirão (em Mira), com cerca de dois hectares de pinhal, “que foi totalmente devastado pelos incêndios e em que, surpreendentemente, as camarinhas foram as plantas que mais regeneraram”. Além disso foi também pedido um outro terreno à Câmara Municipal de Mira “para fazer alguns ensaios”. “Queremos domesticar a planta”, afirma a portomosense que acredita que “daqui a 20 anos possa haver agricultores que consigam ter a sua independência financeira com este tipo de cultura”.

“Ter crescido em Porto de Mós é estruturante”

Aida Moreira da Silva nasceu em Coimbra, embora esteja registada como sendo natural de Vilarinho do Bairro, Anadia, mas foi em Porto de Mós que passou a viver poucos dias após o seu nascimento. Filha de Licínio Moreira da Silva, um dos mais prestigiados advogados do concelho e da região, tendo assumido lugares de destaque ao nível da política local e nacional, e de Maria Alice Moreira da Silva, professora e diretora da antiga Escola Preparatória, atual E. B. 2 Dr. Manuel de Oliveira Perpétua, tem um irmão (também advogado) 14 meses mais novo. Hoje é mãe de duas raparigas, Ana e Inês de 25 e 17 anos, respetivamente.

Nunca frequentou o infantário “porque não existia”. Depois de completar o ensino primário, seguiu para o ciclo, um período que caracteriza como não tendo sido fácil, uma vez que sendo a sua mãe a diretora, “sentia sempre todos os olhos em cima” de si. Foi na escola secundária, na altura recentemente criada, que completou o 9.º ano, tendo feito parte das primeiras turmas que viveram o ensino unificado e a primeira vez que foi atribuída a escala de notas de 1 a 5.
Quando terminou o terceiro ciclo, uma dúvida assaltou-lhe os pensamentos: o que seria o seu futuro? Na mira estavam arquitetura, história de arte e ciência, não estando o direito completamente posto de parte. Uma nota mais fraca no exame de desenho excluiu arquitetura e o facto de não existir, no ano letivo seguinte, a área de cientifico-naturais em Porto de Mós, ditou o resto. Foi o Liceu Nacional de Leiria que acolheu Aida Moreira da Silva para o seu ensino secundário. “Foi difícil, ia de autocarro, levantava-me às seis da manhã, o meu pai preparava-me o pequeno almoço todos os dias para às sete eu estar a apanhar o autocarro em frente à Igreja de São Pedro”, recorda.
Foi no 12.º ano que decidiu que queria estudar Bioquímica. Percebeu que gostava de ser professora porque o seu método de estudo era ensinar as colegas.

Foi em Coimbra que se licenciou, tendo depois feito mestrado em Biotecnologia, no Instituto Superior Técnico em Lisboa. “Nessa altura houve a possibilidade de ser orientada por um professor de Coimbra e fui para os laboratórios do atual Museu da Ciência”, conta. Também nessa altura, no ano letivo de 1988/89, começou a lecionar, como assistente, na Escola Superior Agrária de Coimbra, na área da Ciência Alimentar, onde se mantém até hoje. “Sempre encarei tudo isto como provisório, ainda hoje. Acho que me liberta pensar que não tenho um emprego para a vida. Continuo com a sensação de que podia ter sido muitas outras coisas”, diz. Obteve o grau de Doutor pelo Instituto Superior Técnico tendo realizado os estudos em Coimbra, Lisboa e na Universidade Livre de Berlim.

Hoje, a sua ligação a Porto de Mós é familiar e emocional – “é onde me sinto em casa, é onde regresso quase todos os fins de semana e onde tenho os amigos de infância”, afirma. “Quando chego, desço a curva [do Manjoulo] e vejo o Castelo… é uma energia inexplicável”, conta.

Para resumir, Aida Moreira da Silva diz: “Pertenço a vários sítios mas tenho uma grande referência que é Porto de Mós, o Castelo e a família. Para mim, ter crescido em Porto de Mós é estruturante.”.