Foto: Jéssica Moás de Sá

A Associação Distrital de Atletismo de Leiria (ADAL) lançou o desafio e o Grupo Desportivo das Pedreiras (GDP) aceitou. Da Formação ao Alto Rendimento, De atleta a Dirigente e Treinadora foi o tema que deu o mote a uma tarde de partilhas com a presença de quatro atletas: Susana Feitor, João Vieira, Vera Santos e Sérgio Vieira. A primeira parte desta tertúlia foi dedicada a uma apresentação de Susana Feitor, que em breve estará no GDP a realizar o seu estágio de treinadora de atletismo grau 1.

A marchadora, com várias medalhas no seu palmarés, não queimou etapas, nem no seu trajeto, nem nesta formação. Susana Feitor quis transmitir aos jovens e pais presentes que a vida de um atleta é feita de várias fases e circunstâncias. Aos 14 anos teve a sua primeira internacionalização e participou em cinco Jogos Olímpicos, sendo uma das marchadoras com mais participações nesta prova. Confessa que começou por ser «uma menina rápida» que não dominava muito bem a técnica, motivo que a levou a ser desclassificada em várias provas. Percebe, por isso, a importância de, desde tenra idade, ter «atenção à técnica» para que mais tarde não seja necessário pensar «nos movimentos mas apenas em evoluir». Há muitos fatores que são determinantes, salienta, no percurso traçado por cada atleta.

Pessoas-chave

Estar rodeado de família e amigos é, na opinião de Susana Feitor, muito importante para atingir patamares de excelência. A família é «quem ajuda a tomar as melhores decisões e a educação que se recebe» repercute-se no futuro, defende a atleta. «Se não fosse a capacidade de os meus pais perceberem que esta era uma atividade boa para mim, hoje não estaria aqui», recorda a marchadora. Também os amigos são «uma estrutura» fundamental, porque todos têm «necessidade de se sentirem aceites». Com os amigos estabelece-se «uma relação de confiança» para que se possa partilhar o dia-a-dia. É nesta medida que Susana Feitor acredita que as relações pessoais são preponderantes para se «crescer como atleta».
Fundamental é também o treinador que, «a seguir à família», é quem está mais perto dos atletas, sendo «um exemplo». O atleta e o treinador devem «trabalhar como uma equipa» porque dependem um do outro para atingir o sucesso. Se o atleta deixar de confiar no treinador ou se sentir que não quer o melhor para si, Susana Feitor deixa um conselho: «Procurar outro».

Gerir tarefas e emoções

Um atleta começa a sua carreira desportiva quando ainda é estudante. Em «altura de testes e exames» a conciliação com o «ritmo de treinos e estudo» é complicada. Apesar de atualmente já existirem escolas com apoio para os atletas de alto rendimento, «não é fácil», reconhece Susana Feitor, ter «ânimo para estudar e treinar».
No seu caso conseguiu manter «uma boa relação com a escola» até ao 12.º ano, embora as coisas tenham mudado quando foi para a universidade, tendo estado vários anos para terminar o curso. Assim, deixou uma mensagem de incentivo aos atletas para que tenham um “plano B” porque a carreira de um atleta termina cedo. «Quando terminamos a nossa carreira até à idade da reforma ainda vamos ter 35 ou 40 anos de atividade. Convém que saibamos o que vamos fazer e que seja algo que nos dê prazer», frisando que esse plano pode ser conseguido através dos estudos ou de outra via.
A forma como o atleta lida com os aspetos mais negativos da competição, nomeadamente as lesões e as derrotas, foi também um dos temas abordados por Susana Feitor. Serviu-se do seu próprio exemplo para demonstrar como o controlo de algumas emoções pode ser fulcral. Numa das suas últimas participações em Jogos Olímpicos, em 2008, a marchadora sabia que estava «na melhor forma de sempre» e por isso estava confiante de que ficaria «nos primeiros 10 lugares da tabela». Ainda antes de chegar aos 15 quilómetros desmaiou em pista, sem, ainda hoje, saber porquê. Susana Feitor acredita que foi «a ânsia e o monstro que estava dentro dela» de querer ganhar que acabou por lhe provocar uma pressão que o corpo não aguentou. Por isso, aconselha os jovens a ficarem tranquilos, sem pensar em resultados e a «fazerem o melhor a cada momento».