Joana Carreira Kaier: “O Natal é a única altura em que choro com saudades”

Joana Carreira Kaier vive em Londres, Inglaterra, para onde emigrou para aproveitar uma oportunidade de trabalho. É natural de Porto de Mós, onde viveu toda a sua infância e adolescência. Terminou o curso de enfermagem em 2010 e depois de alguns meses de muito enviar currículos e não conseguir respostas, começou a equacionar emigrar. Falava «várias línguas» mas acabou por escolher «o Reino Unido porque em termos de acreditação do curso [de enfermagem] era fácil o registo na Ordem». Depois de duas entrevistas feitas em Portugal, Joana Carreira Kaier tinha “o pé” já em Londres. Foi bem sucedida em ambas as candidaturas acabando por escolher o «serviço de urgência», o que sempre quis. Desde 24 de março de 2011 que a portomosense está em Inglaterra.
«O primeiro ano foi complicado», admite Joana. Por fazer turnos de 12 horas conseguia folgar vários dias seguidos e isso permitiu que conseguisse “voltar a casa” com frequência. No entanto, não deixou de ser difícil: «Por um lado estava a adorar a cidade, o trabalho, a vida corria bem, estava a ganhar mais dinheiro do que alguma vez pensei, mas, por outro lado, estava longe da família. Nós somos muito próximos». Apesar das saudades serem constantes, no Natal, tudo se complica. Este ano é um dos que Joana não consegue vir a casa, devido ao trabalho.

Para a enfermeira, Natal significa «ter a família junta», não dando valor ao «significado religioso ou materialista». À mesa, no dia 24, juntam-se vários familiares: «Estamos todos juntos, com boa comida, lareira acesa, comida portuguesa, é um daqueles jantares que dura três horas». A refeição foge ao tradicional, conta a portomosense, sendo habitualmente «um leitão e uma travessa de bacalhau com natas». Os presentes são impreterivelmente abertos à «meia noite», desde que é pequena. No dia 25 volta tudo a casa, porque «há sempre muita comida do dia anterior» e fazem um «almoço tardio» para compensar o sono perdido na noite anterior. A tarde é, normalmente, passada em casa, onde a família vê «filmes de Natal». Apesar de feliz em Londres, Joana admite que os meios tecnológicos não conseguem diluir as saudades de casa, principalmente nesta época.

Nadia Baburova: “É muito mais difícil estar longe dos filhos nesta altura”

Há 19 anos que Nadia Baburova escolheu Portugal como a sua casa, e hoje é em Mira de Aire que trabalha e vive. Nasceu na Ucrânia, onde se viu a braços com uma situação económica complicada. «Depois de me divorciar, fiquei sozinha com três filhos. Eu era enfermeira e no meu país paga-se muito mal aos enfermeiros, por isso, precisava de arranjar um trabalho onde se pagasse melhor para conseguir criar os meus filhos», conta. Depois, Nadia voltou a casar e foi o seu atual marido quem veio primeiro para Portugal e que lhe arranjou um trabalho para, nove meses depois, se juntar a ele. Esteve nove meses a trabalhar em Óbidos, na apanha da fruta e depois estabeleceu-se em Mira de Aire.

Diz ter-se adaptado «muito bem» a Portugal por ser um país «muito sossegado», diferente da agitação a que estava habituada na Ucrânia. Mas um dia quer «voltar», sobretudo porque a saudade que tem dos filhos, que estão na Ucrânia, é muita. E é principalmente nas datas especiais, como o Natal, que sente essa distância de forma mais intensa. Nadia Baburova segue a Igreja Ortodoxa e parte da sua família é evangelista, por isso, hoje em dia, celebra dois Natais: um a 25 de dezembro e outro a 7 de janeiro.

Em ambos é através «da internet» que tenta minimizar as saudades da família. Chegou a passar o Natal cá com alguns amigos ucranianos que entretanto regressaram ao seu país. Hoje, senta-se apenas com o marido à mesa, mas garante que não é por isso que «a festa não é feita». No dia 25 faz uma «receita muito boa de bacalhau no forno», dada por «uma portuguesa», acolhendo a tradição gastronómica do país, o que para Nadia não é difícil: «Gosto muito da comida portuguesa, os colegas de trabalho davam-me muitas receitas e eu faço muitas vezes».

Mesmo tentando manter o espírito desta época, a ucraniana admite que é «muito mais difícil estar longe da família nestas datas». «Às vezes choro muito, o meu marido diz que não vale a pena, porque é dia de festa», confessa Nadia, que se sente de «alma vazia»

Carina Costa: “Nem que esteja do outro lado do mundo, tenho que estar com a família”

Carina Passos vive em São Jorge, concelho de Porto de Mós, mas não é aqui que tem as suas raízes. Nasceu em França, mas muito cedo foi viver, com a família, para Monção, distrito de Viana de Castelo. «O meu marido é de cá, nós conhecemo-nos na minha terra, porque ele estava lá a trabalhar e depois quando casei vim cá para baixo», conta. Optaram por vir, também, porque aqui, eram mais as «oportunidades de emprego». Toda a sua família, «mãe, pai, irmãs e sobrinhos» permanecem em Monção, mas nas épocas festivas, incluindo o Natal, Carina Passos não deixa que os 350 quilómetros que a separam dos familiares a demovam de estar com eles.

«O Natal é mesmo uma época em que tenho que fazer de tudo para estar junto da minha família», frisa. Desde pequena que Carina Passos dá mais valor «à união familiar» do que às «prendas». A imagem do pai a chegar a casa, no Natal, é algo que não esquece. Quando veio de França para Portugal com a família, o pai manteve-se em França. Por isso, o seu regresso, nesta quadra natalícia, era muito especial. O Natal tem «um significado mágico porque une a família fisicamente», reconhece.

A consoada concentra à mesa «à volta de 20 pessoas», hoje em dia, já com duas mesas, porque há «uma só para as crianças». Para o norte viaja com o marido e a mãe dele, tendo assim a “sorte” de «poder passar o Natal» com a família de ambos. «A família dele é pequena, é filho único, o pai já faleceu e por isso levamos a mãe dele connosco», conta. Das tradições à mesa fazem sempre parte «o bacalhau e o polvo». A mãe de Carina faz o jantar, mas são as filhas que tratam da doçaria. «Eu tenho que fazer sempre o bolo de chocolate que não é típico do Natal mas as crianças adoram, uma das minhas irmãs faz um doce de bolacha e a outra faz o tronco de Natal», explica. É no cozinhar, todas juntas, que está «a alegria», uma tradição que considera «bonita». Carina admite que é feliz a «morar cá» mas que é sempre especial voltar a casa e reencontrar a família e os amigos. Aproveita sempre para tirar alguns dias para desfrutar do tempo e o cansaço de três horas e meia de viagem é menor quando comparado com a «felicidade» de estar em família.