Para grande parte das pessoas, a época natalícia é sinónimo do sossego do seu lar, do aconchego do sofá, de meias farfalhudas e lareira acesa. No entanto, esta tradição que começa na Consoada e se prolonga até ao dia de Natal não é vista assim por toda a gente. Ano após ano tem-se verificado um aumento no número de pessoas que elegem o alvoroço dos restaurantes para celebrar esta quadra. Através de três testemunhos que recolheu, O Portomosense procurou saber quais as motivações de quem opta por festejar o dia de Natal à mesa de um restaurante.

No caso de Rosa Sousa, natural da Ataíja de Cima, no concelho de Alcobaça, foi há mais de 15 anos que tudo começou. Com uma família «muito grande» onde se incluem seis irmãos e 17 netos, as dimensões da casa da sua mãe foram-se tornando pequenas para conseguir albergar tanta gente nesta época. Hoje com uma estrutura familiar composta por 45 pessoas, a alcobacense conta que foi precisamente a «falta de espaço» que despoletou a ideia de começar a ir ao restaurante no dia de Natal.

Com 54 anos, Rosa Sousa desabafa que foi a própria a propor à mãe uma alternativa com o objetivo de contornar essa dificuldade. Uma sugestão que acabaria por ser prontamente aceite, pois além de a casa «deixar de ter condições» também a «idade avançada» dos pais foi tornando a confeção das refeições cada vez mais penosa. «Boa ideia, pago eu! Isto também já é muita confusão para a minha cabeça», respondeu a mãe.

A partir desse momento, a família passou a eleger três restaurantes onde se deslocam de forma rotativa, tendo em vista a celebração do dia de Natal numa ementa que é quase sempre composta por Arroz de Tamboril e Picanha. «Nós estamos muito em família. Conseguimos estar à vontade e encontramos sempre alguém conhecido, o que é bastante engraçado», fazendo referência ao ambiente que lá é vivido.

Do ponto de vista da comunicação, o facto de ser uma família numerosa pode ser visto como um constrangimento. A alcobacence desabafa que o convívio é feito através de «conversas paralelas», pois quando as mesas são compridas quase que perde de vista as pessoas.

Com famílias pequenas, a opção também passa pelo restaurante

Se por um lado há famílias que se vêem a braços com a falta de espaço, o inverso acontece com Lourenço Praxedes, cujo núcleo familiar é composto apenas por quatro pessoas. Natural de Lisboa, faz uma viagem no tempo até 2013, altura em que a ideia de celebrar o almoço de Natal no restaurante passou a ser uma realidade. Esta decisão é justificada não só pelo facto de a família se ter tornado cada vez «mais pequena» devido aos «elementos que partiram» mas também por respeito a uma das pessoas. «Há uns anos que a madrinha da minha mulher que, vive em São Martinho do Porto, tem uma cadela e a partir dessa altura passou a ser complicado separar-se dela, pelo menos durante a noite», conta.

Antes de colocar em prática essa ideia, Lourenço Praxedes desabafa a dificuldade inerente à preparação das refeições. «A Consoada e o dia de Natal eram passados em minha casa. Era cá uma trabalheira para a minha mulher!», sublinha. Hoje vivem tranquilos com a decisão tomada: «Não nos arrependemos. Muito pelo contrário. Todos achamos que foi a opção certa», conclui.
Se anteriormente havia a ideia de que o Natal tradicional implicava que este fosse celebrado em casa junto da família, hoje em dia as opiniões divergem. Na opinião de Lourenço Praxedes, esta mudança de paradigma tem a ver com as características da sociedade atual. «A vida vai absorvendo cada vez mais a nossa energia. E por isso, as pessoas têm cada vez menos tempo e já não têm pachorra para fazer comida em casa. Como os bolinhos, os docinhos e essa treta toda que é habitual numa quadra destas», refere.
As ligações do lisboeta, de 67 anos, à região de Leiria devem-se ao facto de a esposa ser natural do Acipreste, no concelho de Alcobaça. Um contexto que os leva frequentemente a rumarem até ao distrito para visitar a sogra e a madrinha da esposa. Uma dessas idas é precisamente no Natal cuja Consoada é passada na terra da madrinha da esposa. Já o dia de Natal, há seis anos que é passado, religiosamente num restaurante em Porto de Mós.
Na sua opinião, é um espaço «calmo e agradável» onde são sempre «recebidos e atendidos muito bem». Além destes fatores, a qualidade da comida é o outro dos motivos que faz Lourenço Praxedes regressar de forma consecutiva. No dia 25 não dispensa o bacalhau mas é nos queijos que vê a sua grande perdição: «É uma desgraça!», desabafa entre risos.

A ida ao restaurante: uma decisão em prol
do repouso de todos

Foi há cinco anos que Eliane Lourenço e familiares optaram por ir almoçar no dia de Natal fora de casa tendo em vista o descanso de todos. E foi mesmo essa razão que norteou a decisão desta família composta por seis elementos. Na sua ótica, há cada vez mais pessoas a optar por esta via. Uma atitude que pode ser justificada com o facto de «andarem cansadas de trabalharem tanto», ou de preferirem juntar-se todos num restaurante devido à incompatibilidade entre a estrutura familiar e a dimensão das casas.

Natural de Angola, mas a residir há 10 anos em Porto de Mós, Eliane Lourenço confessa que foi a própria que sugeriu a ideia. E justifica a decisão com a vontade de não sobrecarregar a mãe, atualmente, com 79 anos, e que se encontra «muito em baixo». Além disso, desabafa que é uma forma de todos «descansarem» uma vez que nesse dia ninguém trabalha.

Desde essa altura que vão sempre ao mesmo restaurante e sublinha que é como se fosse uma «prendinha» que dão à mãe, pois sabem que ela tem muito gosto em ir, um sentimento que se reflete nas suas atitudes. «É o dia em que ela mais come porque começa a olhar para as coisas e fica com vontade. Nos outros dias come pouquinho mas nesse, quando sai de lá diz que comeu muito», desabafa.
Mas não é só a sua mãe que fica agradada com o espaço, Eliane Lourenço aproveita também para frisar as qualidades do restaurante: «Está tudo sempre muito bem arranjado», conta. Além disso, o ambiente faz com que «se sintam lá bem», pois, como explica, tanto os empregados como os patrões são «super atenciosos». «É como se fosse uma família!» remata.

Na ementa inclui-se o marisco, o bacalhau e o cabrito. No entanto, Eliane Lourenço confessa que é nos doces que vê a sua «perdição» e por isso, faz questão de os «provar todos». E adianta que aproveita a ocasião para degustar um «bocadinho de cada prato» pois há muitas iguarias que «não tem habilidade nem tempo» para fazer em casa.