Foi uma apresentação, no mínimo, suis generis. Paulo Lameiro, maestro e musicólogo, esteve no espaço do Turismo do Centro, na Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) a apresentar a candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura 2027, de que é coordenador, e às palavras juntou uma improvisada aula de música tendo como instrumentos musicais, pinhas, pedras e canas. Foram 30 minutos bem animados, em que o orador traçou pontes constantes entre a arte musical e o projeto que abraçou de alma e coração.

«É pela cultura que podemos estar mais juntos e hoje não é a cidade do Lis que tem uma candidatura a Capital Europeia da Cultura, é uma rede de 26 cidades e vilas que se juntaram para transformar esta comunidade, não para fazer grandes espetáculos, nem grandes eventos, mas para celebrar a cultura que fazemos cada dia, cada um de nós», referiu.

Aproveitando os acordes que autarcas e outros decisores regionais estavam a tentar produzir com recurso às pinhas, às pedras e às canas recebidas no início da sessão, Paulo Lameiro traçou o primeiro dos paralelos entre a música e o projeto Leiria Capital da Cultura, explicando que tanto num lado como noutro as pessoas devem «ir juntas e continuar juntas», e neste caso «há 26 vilas e cidades unidas» em torno do mesmo objetivo, e a organização da candidatura está «a reunir com 1500 agentes culturais» de diferentes dimensões e origens.

«Para ir longe é preciso ir devagar», alertou, referindo que na música como na vida, «ir depressa é fácil, ir devagar é que é muito difícil» e por isso havendo três anos para preparar a candidatura apesar de, a alguns, «apetecer correr, e terem mil ideias e o desejo de fazer coisas extraordinárias, é necessário resistir a essa tentação». «Ir mais depressa não é ir mais forte. Às vezes precisamos de ir depressa mas contidos, por isso, contenham-se, não se excitem demasiado», disse para os músicos improvisados, realçando que «também nesta candidatura temos de fazer esse exercício. Não vale a pena ceder às tentações de querer fazer uma coisa extraordinária, temos de ser capazes de saber tocar “piano” e esperar», sublinhou.

A acompanhar o musicólogo esteve o grupo musical Ahkorda o que serviu de mote para mais uma reflexão. «Tal como os Ahkorda fundem a tradição com uma linguagem mais contemporânea em termos musicais, também um dos desafios do projeto Leiria, Capital da Cultura é acolher igualmente a realidade das crianças e dos jovens de hoje», disse.

Para Paulo Lameiro, «o turismo, a economia, a educação e o desporto são importantes mas o maior investimento que hoje a Europa pode fazer para dar coesão ao território é na cultura porque culturalmente podemos juntar maior diversidade religiosa, social e económica» e, no seu entender, o facto dos territórios mais pequenos e isolados terem menos gente e mais dificuldade em apresentar grandes iniciativas culturais não serve de desculpa. Neste projeto, cada um dá o que pode, dentro das suas circunstâncias e limitações, até porque o que é mais simples está cada vez a ser mais valorizado, lembrou.

«Quando alguns autarcas e outros agentes culturais nos dizem que não têm nada, estão a dizer que não têm centros culturais, orquestras sinfónicas e teatros de ópera mas o que nos interessa é redescobrir em nós aquilo que nos torna humanos e únicos. Nós vamos ganhar 2027 mas ganhar é pouco. O que importa verdadeiramente e que estamos a fazer é a co-produção, a itinerância, a partilha intergeracional e é juntar aquilo que nunca se juntou: bandas filarmónicas e galerias de exposições, ranchos folclóricos e bibliotecas… Não podemos ter a malta do folclórico para um lado e os do conservatório para outro, e os concelhos que nos dizem que não têm nada, são quem mais tem», frisou.

Olhando para a sua própria experiência, Paulo Lameiro explicou que projetos como o da ópera na prisão ou o da música para bebés nasceram em Leiria, numa cidade pequena, mas cedo deram nas vistas a nível nacional e internacional, são caso de estudo e estão a ajudar a derrubar barreiras e velhos conceitos, tornando a cultura próxima das pessoas independentemente do seu estatuto sócio-cultural e económico.

No início da sessão, a vice-presidente da CIMRL, Célia Marques, disse que «a região de Leiria tem um conjunto vasto de produtos diferenciadores, o que faz dela uma região com tudo incluído, desde a gastronomia, à natureza e ao património, sem esquecer a cultura» e Paulo Lameiro ao longo da sua intervenção defendeu, precisamente, essa diversidade como um dos trunfos da candidatura, confessando ainda alguma surpresa mas também orgulho por a dada altura ver que havia quatro municípios da região Médio Tejo e todos os que integram a comunidade intermunicipal do Oeste, interessados em se juntar a Leiria e aos municípios que já integravam o projeto. «Foi extraordinário juntar todas essas pessoas num encontro e das ameias do castelo de Leiria abrir os braços a todos» concluiu, antes de desafiar os participantes desta “aula” misto de música com gestão cultural, para em conjunto, e sem desafinar, tocarem o tema proposto sob a sua batuta.

isidro bento | texto e fotos