Há escassas semanas, a Câmara Municipal anunciou um novo reforço das verbas a atribuir às três corporações de bombeiros do concelho, seguindo, assim, uma política iniciada no primeiro ano de mandato. De acordo com nota de imprensa «considerando o apoio financeiro associado às Equipas de Intervenção Permanente (EIP), que passou para 90.000,00€, o montante total do subsídio ascende agora a 220.000,00€».

Perante estes dados, O Portomosense decidiu falar com os três comandantes das corporações do concelho para tentar perceber como vêem este reforço de verbas e, enquanto responsáveis operacionais, onde é que o dinheiro vai ser gasto. Dos três, apenas, Elísio Pereira, de Porto de Mós, aceitou falar. José Silva, do Juncal, e Hélder Gonçalves, de Mira de Aire, remeteram-nos para a direção das respetivas associações porque, embora sejam eles que têm de gerir no terreno os meios materiais e humanos, a gestão financeira não passa por si, argumentaram. Para nossa surpresa, chegados à fala com cada um dos responsáveis, foram unânimes em afirmar que não houve propriamente um reforço das verbas entregues a cada associação, aliás, todos se queixam de que houve até um decréscimo.

Elísio Pereira confirma que, «houve um reforço de verbas para os bombeiros do município mas esse reforço não se fez sentir nos de Porto de Mós que este ano, vão receber cerca de 6 800 euros a menos». O responsável vai ainda mais longe e diz que «os bombeiros de Porto de Mós estão a financiar as outras associações do concelho» e que a “culpa” é, em grande parte, da despesa acrescida que a Câmara tem agora de suportar com a criação de duas novas Equipas de Intervenção Permanente (EIP), uma em Mira de Aire e outra no Juncal, e que se juntam à que já existe há vários anos em Porto de Mós. Como, por protocolo com o Estado, o Município tem de assegurar metade da verba necessária ao funcionamento das EIP, Elísio Pereira diz que o reforço das verbas passou exatamente por aí e que no seu caso houve até uma diminuição do subsídio anual. Ou seja, não nega que houve uma aposta em matéria de proteção civil mas refere que em termos práticos, as associações não vão receber um maior apoio porque as verbas em causa têm aquele fim específico.

Para o responsável, esta situação «além de fazer mossa torna-se uma injustiça de todo o tamanho» e lembra que já aquando da inauguração das obras do seu quartel alertou de que igualdade é muito diferente de equidade. Elísio Pereira não se conforma com o facto de na altura de distribuir apoios as três sejam tratadas de igual forma quando só o seu corpo de bombeiros «tem mais de 60% da população a proteger e assegura 70 a 80% do serviço de socorro que existe no concelho».

Pelo mesmo diapasão afina Carlos Rosário, presidente dos Bombeiros do Juncal. «Reforço não é o termo correto porque a verba corrente não teve reforço, pelo contrário, teve um decréscimo. No ano passado recebemos 45 ou 46 mil euros e agora 34 mil» refere o dirigente explicando que «a introdução de uma EIP não reforça verbas para o quartel, apenas disponibiliza uma equipa permanente. Os cerca de 25 mil euros a mais são exclusivamente para isso e além do mais temos custos adicionais porque tem os consumos normais de uma equipa», diz.

Carlos Rosário assume que foi um dos que protestou «porque uma coisa é a EIP e o dinheiro dado para ela e outra é o subsídio corrente que ajuda a manter a associação e para isso os 34 mil euros anuais são claramente insuficientes. Se dividirmos esse valor pelos voluntários e pelos 365 dias do ano, dá cerca de 30 cêntimos por dia para cada voluntário», frisa.
António Rocha, presidente dos Bombeiros de Mira de Aire, reconhece que a Câmara se empenhou fortemente no sentido de serem criadas mais duas EIP no concelho e que «isso é bastante positivo», no entanto, julga que o reforço de verbas foi para pagar a parte que cabe ao Município e não para apoio direto às associações. Pior que isso, também ele notou uma diminuição no valor do subsídio anual, neste caso, «a rondar os 7 000 euros».

De acordo com o responsável, «é indiscutível que a Câmara está a fazer um esforço acrescido em termos de proteção e segurança mas para a associação em si não é um benefício por aí além. É, porque tenho ali aqueles homens em permanência e estão sempre ocupados, mas implica também alguma despesa. Por exemplo tive de substituir dois elementos (assalariados) que me faziam falta e que foram para a EIP», reforça.

O dirigente associativo defende também uma mudança dos critérios de atribuição do subsídio camarário lembrando que os bombeiros de Mira de Aire, por estarem numa das pontas do concelho têm de andar o dobro (ou mais) dos outros para conseguir chegar às principais unidades de saúde, com tudo o que isso implica em termos de desgaste de viaturas, logo, «uma despesa acrescida que os outros não têm».

Isidro Bento | texto
Catarina Correia Martins