A imponente procissão do enterro (Foto: João Carlos Pereira)

Nos dias 30 e 31 de março, as ruas da vila de Porto de Mós voltaram a receber a tradicional e secular procissão do Senhor dos Passos. Na noite de sábado, foi celebrada missa vespertina na Igreja de São Pedro, seguida de procissão com a imagem de Nossa Senhora da Agonia, para a Igreja de São João, num percurso acompanhado por muitos fiéis nos quais se incluiram os escuteiros do agrupamento de Porto de Mós e jovens da catequese, levando na mão tochas acesas.

No dia seguinte, a cerimónia teve início na Igreja de São Pedro, com o Sermão do Pretório, proferido pelo padre Vítor Mira, pároco de Alqueidão da Serra e Alcaria, o pregador convidado. Concluído o sermão, iniciou-se a procissão em direção à Praça da República onde foi pregado o sermão do Encontro e se deu o encontro sempre comovente da imagem de Nossa Senhora da Agonia com a do Senhor dos Passos.

Com guarda de honra prestada pelos bombeiros de Porto de Mós e o acompanhamento musical da Banda Recreativa Portomosense, a procissão seguiu pela zona histórica evocando os últimos passos de Jesus Cristo, terminando na Igreja de São João com o sermão do Calvário. Aqui, um momento cénico de grande impacto: o desvendar por trás do pano negro, dos pequenos “anjos” personificando figuras bíblicas.

Momento, igualmente, emotivo, foi a procissão do Enterro em direção à Igreja de São Pedro, cuja carga simbólica foi realçada por dezenas de archotes acesos ladeando todo o percurso. Além das instituições já referidas, as cerimónias contaram com a participação de grupos de voluntários, o grupo coral da Igreja e autarcas, tendo a GNR assegurado a gestão do trânsito.

Sermões elogiados

Os três sermões proferidos pelo padre Vítor Mira foram um dos pontos altos destas cerimónias recebendo os elogios de muitos fiéis pela atualidade da mensagem.

Assim, no Sermão do Pretório o sacerdote evocou «Jesus que se viu julgado e condenado de forma inocente, assumindo a nossa situação humana em que tantas vezes somos vítimas de injustiças e tremendas violências». Depois lembrou que os sacerdotes que «embora religiosos e oficialmente crentes em Deus não aceitaram a novidade de Jesus e por isso ficaram agarrados à tradição e defenderam a sua morte»; Pilatos que «podia e tinha poder para isso mas que por interesses políticos preferiu lavar as mãos do assunto», um pouco à semelhança dos que atualmente protestam em relação a determinadas matérias mas depois acham que a responsabilidade pela sua resolução é dos outros. Por fim, evocou o gesto do povo que antes tinha aclamado Jesus e depois pediu a sua condenação, «numa atitude de falta de convicção e firmeza, indo atrás da conveniência, do mais fácil, do politicamente correto».

No Sermão do Encontro, Maria foi apresentada como inspiradora para tantas mães que veem os seus filhos sofrer e morrer e olhando para os tempos atuais, o pregador disse que «sem desvalorizar a realização profissional das mães, é importante que elas percebam aquilo que lhes é específico e único: acolher, gerar, criar, educar para a vida. Nesta missão as mulheres são insubstituíveis, esse é o seu grande contributo para a sociedade e pode ser a sua grande realização. O resto deveria vir depois», sublinhou.

Finalmente, no Sermão do Calvário, a mensagem teve um cunho religioso mais acentuado, referindo Vítor Mira, que a morte de Jesus no Calvário «é a máxima afirmação e expressão da sua identificação com a humanidade até às últimas consequências» e que «Jesus veio dizer-nos que a vida é muito mais do que nós vemos e palpamos com os nossos sentidos».