Foto: Jéssica Moás de Sá

Manuel Fino tem 68 anos e é natural da Moitalina, onde sempre viveu. No seu jardim construiu um mundo exclusivo, peça por peça, em que a sua própria imaginação foi o combustível e as mãos o seu principal utensílio. Há pouca coisa que uma aldeia tenha, que falte na «aldeia» em ponto pequeno que Manuel Fino montou no seu jardim. Os elementos base são o ferro, a pedra e o tijolo. Esta «aldeia» é influenciada pela Moitalina onde cresceu, e por isso é marcada pelas «fábricas de tijolo com chaminés compridas» bem típicas na região. Não faltam também os camiões para o transporte de cargas e os postes de eletricidade. Os serviços básicos também estão assegurados: os bombeiros, a junta de freguesia, o hospital ou a igreja são alguns dos casos. Para os adeptos, há também o estádio de futebol.

No jardim de Manuel Fino há ainda alusões à história, com um carro de combate com a data na qual embarcou para Moçambique e com o foguetão Apollo 11, do primeiro voo espacial à lua em 1969. A réplica do castelo de Porto de Mós, apesar de estar à parte em redor da casa, é uma das peças com «uma marca» especial para o artesão, tendo sido uma «das que demorou mais tempo a fazer».
O início do desenvolvimento deste talento, nos anos 80 e ainda em casa dos pais, foi um processo individual, uma vez que «na família nunca tinha tido contacto com alguém que fizesse o mesmo», conta Manuel Fino. Trabalhava na área da cerâmica, setor que na altura tinha forte expansão na região, e foi, no local de trabalho que a ideia para a primeira peça apareceu. «Na brincadeira, às vezes furávamos os tijolos quando saiam das máquinas, um dia ao olhar para um lembrei-me de fazer um castelo», explica o artesão. Foi também na fábrica onde estava empregado que começou por fazer as peças.

Encontrar na arte um refúgio

O castelo foi o primeiro exemplar, mas a partir daí, Manuel Fino tomou-lhe «o gosto». Já na sua própria casa, depois de casar, este «era um escape» aos problemas que enfrentava no trabalho. «Para vir para casa e não me chatear com a mulher, refugiava-me nisto», explica entre risos, confessando ainda que depois «era a mulher que ralhava» com ele «porque gastava muito cimento».
Manuel Fino teve também que investir em algumas máquinas para trabalhar os materiais, mas apesar disso «nunca quis vender» para ter algum retorno económico. O artesão explica que apesar de ter tido «muitas pessoas interessadas» no seu espólio, «o dinheiro que ofereciam não pagava uma quarta parte» do trabalho e do investimento que fazia. O criador destas peças que surpreendem muitos dos que se deparam com esta “aldeia” invulgar bem junto à estrada nacional nº 8, está agora reformado e admite «ter deixado um pouco de parte» esta atividade devido aos problemas de saúde, inclusive na «vista que foi muito prejudicada a soldar o ferro».

Apesar de «ainda não ter pensado a quem vai deixar» todo este trabalho, Manuel Fino confessa que já pensou «em pedir à Câmara para o expor no jardim» da vila, mas nunca o fez por achar que «ninguém se interessa» por esta arte. O artesão assegura que se um dia pudesse ter uma exposição sua, «não seria nada do que tem no jardim», porque tem «ainda muitas coisas guardadas e mais interessantes» por revelar. Por agora, Manuel Fino, quer contrariar «a doença» que tem deixado para segundo plano o objetivo de «terminar um lagar de azeite».