O vereador da Câmara Municipal de Porto de Mós, Fernando Amado, eleito pelo Partido Socialista (PS), renunciou ao mandato. Em declarações a O Portomosense, o vereador, sem pelouros atribuídos, apontou razões profissionais como estando no cerne desta decisão, no entanto mostrou algum descontentamento com a atitude do PS, facto que terá também pesado na sua escolha.

«Tenho uma vida profissional para tomar conta, para levar para a frente, para me colocar pão na mesa», começou por dizer, acrescentando que «embora as reuniões do executivo sejam de 15 em 15 dias, obviamente que para estar a 100% nisto, teria de prescindir de algum tempo que me é preciso para aquilo que tenho para fazer de futuro». No entanto, «há outras situações que não são de descurar», uma vez que, não sendo o fator principal, foram mais um motivo para que Fernando Amado tomasse a decisão de abandonar o executivo municipal pouco antes do meio do mandato. «Várias vezes alertei pessoas ligadas ao PS, que estão eleitos em órgãos do partido» sobre a importância de haver «uma retaguarda partidária» que permitisse aos eleitos exercer as suas funções «com muito mais rigor, seriedade, tempo disponível, retaguarda e consistência», referiu, apontando que foi eleito «por um partido que não existe».

No passado mês de abril, Fernando Amado deu uma entrevista a O Portomosense (edição 891) e já na altura havia deixado algumas pistas de que «seria uma decisão que a qualquer momento podia surgir», tendo também dito que se sentia «órfão do PS», queixando-se da falta de retaguarda do partido para com os seus eleitos. Agora, refere que «há militantes mas não há ninguém que queira pegar nos órgãos sociais do partido», missão que já abraçou em tempos: «Fui presidente da concelhia durante muitos anos. Para tal, reuni um conjunto de militantes que, na altura, me acompanharam. Reestruturámos o partido, tomámos decisões e avançámos para eleições e depois para eleições autárquicas. A vida de um partido é isto, não é estar debaixo de uma sigla e depois não haver estrutura», afirma. Hoje, não se vê a fazê-lo novamente, e usa uma expressão popular para o dizer: “A água do rio não passa duas vezes pelo mesmo sítio”.

“Não me meto em bicos de pés”

«Não é um balanço muito positivo, não me meto em bicos de pé», diz Fernando Amado sobre a sua prestação no executivo municipal. «Ser oposição sem disponibilidade é uma tarefa extraordinariamente difícil», considera, uma vez que há um trabalho de preparação que nem sempre pode ser feito. No entanto, diz-se de «consciência tranquila», pois considera ter exercido as suas funções «com o enorme respeito pelas divergências que pudessem haver dentro do executivo», e acrescenta que sai «certamente com o respeito de todos os elementos do executivo», com quem manteve «uma relação de grande cordialidade».

Como maior falha, aponta a falta de possibilidade para «interagir muito mais com os presidentes de Junta, que são pessoas que têm um papel de extrema relevância na política autárquica e de ligação com o executivo».

O passo seguinte

Durante a conversa com o nosso jornal, referiu ainda que não há nenhum partido que o «motive» e que por isso «a desfiliação vai ser uma realidade dentro de pouco tempo»: «Das primeiras coisas que pretendo fazer é desvincular-me de um partido no qual não me revejo, neste momento, tal como em qualquer outro do sistema partidário português», apesar de reconhecer que estas estruturas «são peças importantes na democracia».

Vindo de uma família de políticos e estando, desde sempre, ligado à atividade cívica no cwoncelho, Fernando Amado diz que continua a ser «um cidadão de Porto de Mós» e que por isso vai continuar a trabalhar pela sua terra, «nomeadamente na política do apoio às associações», ações «que são tão ou mais importantes que as atividades partidárias».

Rui Neves também abdicou

O deputado à Assembleia Municipal (AM), Rui Neves, resignou ao cargo na última sessão daquele órgão, realizada no passado dia 27 de junho. O deputado que nas últimas eleições encabeçou a lista do PS dá assim fim a 25 anos de vida autárquica. Em causa está uma participação ao Ministério Público de um alegado caso de plágio num assunto aprovado pela AM em 2013, altura em que Rui Neves era o presidente.

O assunto foi já algumas vezes referido em sessões da AM e trata-se de uma proposta para classificar como imóveis de interesse público as pontes do Rio Cavaleiro, da Freixa, de Rio Alcaide e da Laje. O documento em causa terá informação plagiada de uma tese de mestrado de Luís Gil, sem que esta tenha sido citada. O autor denunciou a situação em 2015 numa carta enviada ao então presidente da Câmara, que a terá remetido ao presidente da AM, à época, Rui Neves. Descontente com a falta de resolução do processo, Luís Gil foi, já neste mandato, a uma sessão da AM expor a situação e a atual presidente, Clarisse Louro, remeteu o caso para o Ministério Público.

Na última sessão da AM, Rui Neves anunciou então que ia resignar ao mandato e leu parte de uma declaração a que O Portomosense teve acesso, na íntegra. De acordo com o documento, a participação recai «sobre vários cidadãos», entre os quais consta também Rui Neves que diz não saber «até agora a razão desse facto».

O socialista afirma que «urge o esclarecimento desta situação» e que «num momento tão mediatizado em que se condena uma pessoa num segundo, uma falsa acusação pode ser uma condenação perpétua». Por isso, considera que «a falta de esclarecimento desta situação não é compaginável» com a sua presença na AM, «restando os lugares próprios onde se fazem declarações sob juramento e não declarações políticas».

A terminar, Rui Neves agradece a todos aqueles com quem trabalhou «ao longo desde últimos 25 anos de vida pública», que «ajudaram a engrandecer as instituições» para as quais trabalharam.