A história do padre Abílio da Silva Mendes é tudo menos, algo, fácil. E não deixa de ser curioso que, quem visite o Barreiro, mesmo ao cruzar a praça de Santa Cruz no centro histórico, veja ali uma estátua em sua homenagem. Vejamos os porquês. O mirense Abílio Mendes nasceu a 12 de março de 1886 e teve uma vida atribulada em todos os sentidos. O fim dos estudos no seminário de Santarém coincidiu com a queda da monarquia, e desde cedo sofreu vários episódios de violência física anticlerical que o marcariam para sempre. Primeiro em Alcanena, quando fora nomeado para sacerdote da terra, e uma vez aí, teve de enfrentar um clima de perseguição constante. Não satisfeito, e ao perceber que a sua família também corria perigo, decidiu então rumar ao Brasil com todos os familiares em 1912. Instala-se primeiro em Aracajú e gere duas paróquias. Depois seria transferido para o estado do Rio de Janeiro, e contando 34 anos de idade, estabelecera-se na periférica cidade de Niterói.
A permanência por terras do Rio de Janeiro permitiu-lhe participar in loco numa das melhores fases da expansão escutista brasileira. Aproveitando o momento, o padre Abílio fundou o Grupo 11-Niterói dos Escoteiros Fluminenses, no qual se manteve até 1929. Talvez pudesse ter permanecido mais tempo, não fosse o facto de se ter enfrentado ao arcebispo carioca por divergências quanto às vendas de umas propriedades. Certo é que acabou castigado, e foi remetido para a cidade de Juiz de Fora, bem longe da família que, entretanto, se tinha instalado na “cidade maravilhosa”. Não obstante, e já com alguma fama que o precedia, em Juiz de Fora também não conseguiu cumprir os votos da obediência. Desta vez, contra a política ditatorial de Getúlio Vargas, a qual criticou no jornal local, e assim recebeu mais um castigo e uma nova ordem de expulsão… para Portugal.
Pela mão do Cardeal Cerejeira chegou a Lisboa em 1931, e no ano seguinte seria nomeado pároco na Igreja Matriz de Santa Cruz, no Barreiro, uma terra bastante diferente do que até então experienciara. Ao início manteve uma postura bastante pragmática, sem conflitos, e pautada por várias tentativas de fundar associações de leigos na paróquia. A oportunidade para instaurar o Corpo Nacional de Escutas no município surgiria em janeiro de 1935 quando vários grupos de Lisboa decidiram visitar o Barreiro e acampar nas imediações, por ocasião de uma procissão. Este pequeno contato permitiu conhecer o C.N.E. de perto e encetar os primeiros esforços para fundar um grupo. Afinal o Padre Abílio Mendes também era chefe! E a experiência brasileira valeu-lhe a ousadia de querer ir mais longe. Primeiro começou por abrir duas unidades em 1936. Logo depois avançou com a criação de um grupo marítimo, pensando ele ser o primeiro a nível nacional, mas os escuteiros da Póvoa de Varzim já se tinham antecipado nessa modalidade. No fim, conseguiu fundar nada menos que nove grupos em terras barreirenses. Os apoios para empreender todas estas unidades chegaram-lhe de várias partes, e na região de Setúbal contou sempre com a amizade do chefe e padre Manuel Caetano, sacerdote na Congregação dos Claretianos. Ambos escuteiros, ambos da mesma idade, e ambos de Mira de Aire.
Músico e jornalista nas horas vagas, os pequenos artigos de opinião do padre Abílio Mendes compõem a história da imprensa barreirense e a persistência com que manifestava os seus argumentos nem sempre agradou aos representantes do Estado Novo. E quando rebentou a Segunda Guerra Mundial, não hesitou em criticar numa homília o expansionismo da Alemanha Nazi, o que lhe valeu ser detido pela polícia política à saída da igreja.
Homem interventivo, apenas o seu débil estado de saúde o fazia acalmar. Bastante marcado pelas varizes, passaria os dez últimos anos da sua vida em idas e vindas constantes ao hospital na capital, mas sem que condicionasse o seu labor em trabalhar por um mundo melhor. Acabaria por falecer a 23 de fevereiro de 1953 no Hospital dos Franceses, no Bairro Alto. E talvez seja por isso que a sua estátua no Barreiro tenha um epitáfio bastante elucidativo: «Ao homem simples, ao padre humilde, ao grande barreirense do coração».
Texto | Gonçalo Brito Graça, Historiador
Foto | DR



