Vivemos mais um Abril. Vivemos Abril como quisemos, porque foi isso que Abril nos trouxe: a possibilidade de nos expressarmos no mundo em consonância com o que somos (sempre respeitando os outros, embora isso tenha tendência a falhar). Em Porto de Mós, a Assembleia Municipal decidiu viver Abril celebrando os 50 anos da Constituição da República Portuguesa e, por inerência, os 50 anos do poder autárquico. E muito bem, diz-me a minha consciência.
A classe política não tem conseguido erguer consenso no que ao cumprimento do seu papel diz respeito. “São todos iguais”, “Querem é tacho”, “Não se aproveita nenhum” – estas frases são perigosas, mas estão entranhadas na sociedade como mantras que, posso estar enganada, mas acredito funcionarem como apaziguadoras da impotência que sentimos ou das injustiças a que assistimos (as assimetrias gritantes que existem no nosso país, onde a classe média se esfuma a olhos vistos são forte exemplo). A classe política não se tem ajudado a ela própria: por vezes parece que estamos a assistir a peças de teatro forçadas, onde cada um quer ser o protagonista e onde o bem do povo, esse, fica ali perdido em promessas populistas.
E bem, com tudo o que disse, parecia reforçar todas aquelas frases que ouvimos, à porta do supermercado, entre dois amigos: “Então, como vai a vida?” (diz o Zé)”, “Já sabes, é trabalhar, e o dinheiro, nem vê-lo”, “Pois é, amigo, já sabes como é, enquanto os governos não mudam!”. Mas, se eu acredito que alguma classe política não tem tido a capacidade de celebrar Abril e o que ele nos trouxe, não tem sabido, em certos momentos, honrar a Democracia, aliás, uma parte dela tem comprometido a Democracia e lucrado à conta dela, também reconheço a muitos políticos a coragem e o espírito de missão.
Em Porto de Mós quem se celebrou (e que se continuará a celebrar ao longo do ano) foram todos os presidentes de Junta que passaram por cada uma das freguesias do concelho, bem como todos os presidentes de Câmara, e não há papel de maior proximidade com as pessoas do que este. Somos muito céleres a julgar, a esmiuçar cada decisão e a encontrar defeitos (que atire a primeira pedra quem nunca o fez), mas há uma pergunta que nos coloca tudo isto em perspetiva: teríamos capacidade para estar naquele lugar ou quereríamos sujeitar-nos ao escrutínio popular? No presidente de Câmara, personalizamos tudo o que de mal acontece num concelho. Já o presidente de Junta, na maior parte dos casos, divide-se entre este cargo e outro qualquer emprego e é a primeira pessoa a quem chegam todos os problemas da freguesia. O(a) presidente e a sua equipa, claro.
Com isto não quero defender que se deixe de analisar o trabalho destes autarcas, pelo contrário, defendo que um trabalho como este, pela complexidade e importância que tem, deve ser escrutinado ao máximo. Mas deve sê-lo sem rótulos pré-definidos: com honestidade, caráter, avaliando as situações com acesso a factos, documentos, procurando saber os motivos e as decisões e não compactuando com o discurso preguiçoso do amigo Zé. Todos temos um, ou mais.


