Em pleno reinado das redes sociais onde o apontar do dedo é o pão nosso de cada dia e onde as soluções mágicas e simplistas fazem as delícias da extrema direita, a comunicação social é um dos alvos fáceis. É claro que tenho de reconhecer que muitas vezes, esta, como se diz em linguagem popular, “se põe a jeito” mas nunca como hoje houve tanta gente encartada sem carta, em jornalismo.
Vem esta reflexão a propósito da ideia muito em voga entre o cidadão comum que fazer jornalismo é fácil, que bastará ter um telemóvel, filmar umas coisas e colocar o vídeo na internet. Felizmente, a coisa é um bocadinho mais difícil, bastante mais difícil, diria eu, pelo menos para quem o quer fazer de forma profissional e responsável e a larguíssima maioria, julgo que o quer.
Escrever, reportar, mostrar, tem um efeito, as palavras não são inócuas, e o jornalismo tem de ter essa noção, não por uma questão de auto-censura mas por saber que aquilo que escreve e que diz gera sempre algum efeito em terceiros, seja positivo ou negativo, e responsabiliza quem escreve ou diz.
Nesta edição, publicamos um extenso trabalho de duas páginas em que tentámos resumir o essencial daquilo que Rute Agulhas, uma psicóloga com quase 30 anos de experiência diária de acompanhamento de casos de abusos sexuais de menores veio dizer a Porto de Mós sobre esta verdadeira tragédia social, isto no âmbito de uma excelente palestra promovida pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Porto de Mós.
Na tal visão simplista e cega do jornalismo que alguns, muitos, insistem em ter, fazer este trabalho seria a coisa mais fácil. Bastaria tomar umas notas ou gravar a sessão e depois resumir o que foi dito. Pois, mas a realidade é um pouco mais complexa. O decidir o que fazer e como fazer e quando fazer durou bem mais do que cinco minutos de reflexão e envolveu não só a pessoa que acompanhou a sessão mas toda a redação. Foi algo que se foi “apurando” ao longo de dias. O assunto é muito complexo, a especialista falou sem rodeios, com um discurso claro, simples, sem “paninhos quentes” mas com exemplos muito crus e duros. Não sei o que as outras pessoas sentiram mas acredito que tal como nos aconteceu a nós, em determinados momentos tenha sido como que um murro no estômago perante aquilo que acabávamos de ouvir.
Ora, como é que se trata isto de uma forma que não seja de voyeurismo puro, sem “fazer sangue” e numa linguagem que corresponda à verdade dos factos? Que choque q.b. (porque a intenção é mesmo de não deixar as pessoas indiferente a um drama terrível), mas sem que o leitor habitual de O Portomosense, se sinta violentado de forma gratuita, ou que não leve alguns a questionarem-se se a intenção não será vender mais uns jornais ou conseguir mais uns “clicks” e uns “gosto” ?
Como é que se pode unir de forma responsável a vontade de partilhar tão interessante “aula” mas com um discurso cru e duro? Esse foi o nosso dilema mas lá encontrámos aquilo que nos pareceu ser a solução de equilíbrio porque como se escreve na primeira peça, há verdades que por mais duras que sejam, têm de ser ditas e O Portomosense além dos princípios básicos do jornalismo tem também muito presente a noção de serviço público. E este trabalho é jornalismo, decerto, mas, perdoem-nos a imodéstia, tentámos que tivesse também muito de serviço público, não por mérito nosso, claro, mas por reproduzir muitos dos alertas e conselhos deixados pela reputada especialista. E cada vez temos de estar mais alerta porque o perigo é real e quando se concretiza traz efeitos devastadores para as suas vítimas.


