Ainda há quem acredite no Pai Natal…

2 Janeiro 2026

Numa das edições de Natal, a Jéssica Moás de Sá foi a uma escola perguntar a crianças do 1º Ciclo a partir de quando e como é que deixaram de acreditar no Pai Natal e, claro, trouxe de lá matéria para aquilo que se tornou num excelente trabalho pela riqueza, na simplicidade e até na candura, dos depoimentos que recolheu. 

Recordo hoje o trabalho não por este em si mas porque me apetece cada vez mais sair à rua e perguntar a alguns adultos por que raio é que com 40, 50, 60 e mais anos, ainda acreditam no Pai Natal. Sim, porque acreditar na “banha da cobra” que a extrema direita nos quer vender, só mesmo de quem, como se costuma dizer, ainda acredita no Pai Natal.

Será que é tão difícil perceber que vivemos num mundo complexo e que se houvesse soluções simples para alguns dos nossos principais problemas, alguém já as teria tentado aplicar? Será que é tão dificil perceber que quem nos arranja soluções fáceis e baratas está apenas a dizer-nos aquilo que queremos ouvir?

Ou acreditam de facto no Pai Natal ou, então, acham que os sérios, os inteligentes e os patriotas só surgiram nesta geração. Entre uns e outros, venha o Diabo e escolha porque acreditar no Pai Natal só mesmo as crianças e tal como se viu, até essas deixam de acreditar bem cedo. Então, por que não acontece o mesmo com muitos adultos? Como é que se deixam levar assim? Não aprenderam nada na escola nem na vida?

Segundo alguns, «andamos há 50 anos a ser roubados pelos políticos», mas só agora, por milagre, surgiu uma nova casta de políticos exemplares, que não querem beneficiar das benesses do Estado, que à boa maneira portuguesa não contornam a lei nem se aproveitam dos “buracos” desta para praticarem atos, no mínimo, moralmente condenáveis. Não, nada disso…

Diabolizam-se os imigrantes, «esses oportunistas que vêm para viver à custa de subsídios», mas ignora-se que com subsídios ou sem subsídios (naturalmente, sem…) são eles que fazem todos aqueles trabalhos que os portugueses já não querem fazer mas que são vitais à economia. E sim, são mesmo imprescindíveis tal como o percebeu em escassos meses o governo de extrema-direita italiano que em vez de os “mandar para a sua terra”, como seria seu desejo, está a fazer campanhas para os atrair àquele país.

Como é que se pode dizer que se defende a lei e a Justiça e depois o iluminado-mor é obrigado pelo tribunal a retirar cartazes que foram considerados ofensivos para com os ciganos e num xico-espertismo bem “tuga”, em vez de cumprir a ordem do tribunal resolve simplesmente tapar as palavras mais polémicas e colar em cima outras mais suaves mas que, no fundo dizem o mesmo? E como é que isto é feito à vista de toda a gente e os tais defensores da moral e dos bons costumes ainda vêm aplaudir os vídeos e as fotos onde, sem vergonha, isso é divulgado?

A quantas centenas de aulas de catequese terão faltado todos aqueles que se dizem católicos e depois assumem um discurso de ódio para com os imigrantes e as etnias? Não percebem que, tal como ainda no nosso último número disse o bispo de Leiria-Fátima na entrevista que nos concedeu, que de católicas (e cristãs) essas ideias não têm nada? Ou que como afirmou o mesmo D. José Ornelas, há pouco tempo em Fátima, que a mãe de Jesus, foi também ela refugiada? 

Que ódio é este para quem, como milhões de portugueses o fizeram antes, apenas procura no estrangeiro condições para ter uma vida digna e em segurança? Que falta de memória e que insensibilidade são estas que levam alguns emigrantes a esquecer que o que agora rejeitam foi nada mais, nada menos que aquilo que eles próprios fizeram e viveram?

Ah, claro, os portugueses eram e são diferentes porque eram todos honestos e trabalhadores… Pois, talvez seja por isso que tivemos há poucos dias um envolvido em chocantes homicídios nos Estados Unidos, e por lá, também, um outro português, ilegal há quase 20 anos, baleado ao tentar fugir à polícia. Sim, de facto, os bons são sempre «os nossos», não se coloca a hipótese de haver entre eles, menos bons e até maus. E é certo e sabido que os feios, os porcos e os maus são os outros, os que vêm de fora, claro.  

Pois, voltamos a acreditar no Pai Natal mas já não temos nem a idade nem o desenvolvimento intelectual de uma criança. Ou será que muitos de nós ficámos presos à infância?…