A mensagem que recebemos nos nossos telemóveis, no dia 27 de janeiro, menos de 12 horas da passagem da depressão Kristin, foi a seguinte: “Depressão Kristin: Vento intenso até 140 km/h nas próximas horas na sua região. Fique atento. Siga as recomendações das autoridades”. A vida seguiu, sem que muitos de nós conseguíssemos entender bem o que são afinal 140 km/h de vento a irromper as nossas vidas. A resposta só a encontrámos na manhã do dia seguinte, claramente tardia. O especialista em Alterações Climáticas e copresidente do Volt Portugal, Duarte Costa, tornou-se uma das vozes ativas nos dias que se seguiram, defendendo, por exemplo, que “não é suposto ninguém ter que ir trabalhar e poder morrer a ir trabalhar”. Para o evitar, só uma comunicação mais clara. «Nós precisamos de mudar a forma como os riscos climáticos são comunicados à população, há falhas muito graves de várias entidades, a começar pelo IPMA, mas também da Proteção Civil, e obviamente pelo Governo que é responsável pelos dois», salienta.
Uma mensagem de aviso à população sobre um fenómeno climático tem de ser comunicada «a partir do impacto que ele vai causar». «Ou seja, não devemos apenas dizer que vão estar rajadas de 140 km/h porque isso não significa concretamente um risco para as pessoas, temos de dizer que com essas mesmas rajadas árvores vão cair, postes vão cair, telhados vão levantar voo porque nós sabemos isso, sabemos que, sobretudo com os solos saturados como estão, ventos acima dos 100/120 km/h é isso que fazem», reitera.
Além «desta falha grave», Duarte Costa identifica mais. «Dois dias antes deveríamos ter ativado o Plano Nacional de Emergência e Proteção Civil», frisa. Então, surge a questão: Dois dias era possível antever este cenário? «Eu digo o contrário, é impossível dois dias antes não saber que uma depressão com ventos de 140 km/h está a chegar. Não era possível saber do fenómeno sting jet que causou a maior destruição, mas por si só já se sabia que os ventos iam ser fortes e que iam causar impacto», esclarece o especialista em Alterações Climáticas. Impacto esse que, refere, teria sido muito perigoso «num horário em que as pessoas estão a circular na rua».
Medidas preventivas são essenciais horas antes
Ao invés de apenas uma mensagem, Duarte Costa defende a ativação de um protocolo como os «Estados Unidos» têm quando sabem que um «furacão ou tempestade se aproxima». «Nas 48 horas antes é obrigatório que as entidades como a Proteção Civil e IPMA informem a população, expliquem os riscos e também é obrigatório um conjunto de medidas preventivas no terreno», frisa. Entre as medidas estão a «identificação das áreas e população de risco, montar planos de evacuação, nomeadamente de populações mais vulneráveis, mas se necessário de áreas inteiras, interdição de circulação, e tudo isto não existe em Portugal», diz, preocupado.
Estes fenómenos “vão ser mais frequentes”
«Este episódio mostrou-nos que estamos muito pouco preparados para lidar com este tipo de fenómenos que vão ser cada vez mais frequentes e, sobretudo, mais impactantes, devido às Alterações Climáticas», sublinha Duarte Costa. Para que aquilo que aconteceu na região de Leiria tenha impacto na forma como as entidades responsáveis se vão preparar para o futuro, o especialista acredita que é importante que «os cidadãos nunca mais se esqueçam deste fenómeno e exijam do poder político respostas à altura dos riscos que todos corremos», frisa o também copresidente do partido Volt. «Agora foi o distrito de Leiria, amanhã pode ser o de Lisboa, Setúbal, Aveiro, qualquer um», reforça.
Duarte Costa acredita que se um fenómeno destes tivesse acontecido em Lisboa, o mediatismo social seria maior e trazia uma maior consciência da importância de estarmos preparados. «Como as telecomunicações foram todas abaixo, levou mais tempo ao resto do país saber o que tinha acontecido em Leiria», ressalva, algo que não teria acontecido se esta depressão se tivesse “dado” em Lisboa. E embora «a região de Leiria seja uma região com um tecido empresarial exportador muito importante», que leva Duarte Costa a questionar-se sobre o impacto que os danos em várias empresas terão no futuro da economia, a verdade é que um fenómeno destes «numa região mais populosa e com mais atividade económica» seria maior.
«Todos queremos muito aprender com o que aconteceu em Leiria e todos precisamos disso porque o risco é para todos», volta a sublinhar o especialista. Para isso, diz, «é preciso que as pessoas tragam a agenda das Alterações Climáticas para o centro da mesa». «A Lei de Bases do Clima está por cumprir há quatro anos, nem o Governo PS nem o PSD lhe deram seguimento», salientou, trazendo a frase do recém-eleito Presidente da República, António José Seguro, para “cima da mesa”. «O presidente eleito disse que “precisamos de um país preparado e não de um país surpreendido. É importante que o próximo presidente garanta que a Lei de Bases do Clima é cumprida, tem esse poder e essa responsabilidade, até porque foi eleito num contexto de grande impacto das alterações climáticas no país», reforça. Esta Lei de Bases «não só adapta a nossa indústria e economia para um futuro sustentável e alinhada com a redução de emissões necessária para travar estes eventos, como também tem os instrumentos para proteger os municípios», explica.
Falando de municípios, «metade deles» «não têm um plano de ação climática necessários» para responder a fenómenos como a depressão Kristin. «Portanto, é central que a Lei seja cumprida e que a cidadania exija isto do poder político», mas «todos» devem trabalhar nesse sentido. «Não podemos ficar na expectativa ingénua, ou na esperança, que não volte a acontecer, ou que se voltar a acontecer, não nos aconteça a nós. Nós sabemos que isto é uma ingenuidade que nos custa muito caro e que não serve mais», acentua.
Que o “medo” nos alerte
Há um antes e um depois de Kristin para quem é da região de Leiria. O medo, a cada vento mais forte, tomou conta de nós, mas esse medo pode ser útil para encarar o futuro de uma forma mais preparada. «Somos humanos e é normal ter medo perante tamanha destruição e risco que colocou sobre a vida das pessoas, mas o medo serve para nos proteger, para estarmos alerta e conscientes dos riscos», sublinha Duarte Costa. «Se calhar até aqui estávamos confortáveis e sentiamo-nos seguros, mas o medo aqui tem um papel importante para nos mostrar que aquilo que vivemos é a realidade do nosso futuro por todas as transformações que causámos no nosso planeta. O nosso futuro tem mais riscos e para sabermos responder é preciso sermos individualmente mais preventivos e de nos ativar enquanto cidadãos», reflete.
A depressão Kristin “trocada por miúdos”
A depressão Kristin uniu-nos, região de Leiria, de uma forma difícil de igualar. Uniu-nos nas respostas ativas, na ajuda, na solidariedade, mas também nos uniu no medo e nas perguntas. “Afinal, o que foi a Kristin? Que fenómeno foi este e os que lhe seguiram?”. Procurámos que estas perguntas fossem respondidas por Duarte Costa, e pedimos-lhe que o fizesse de uma forma simples, ao encontro dos que sabem muito e dos que pouco sabem sobre o clima e a sua interpretação. «A depressão Kristin foi uma surpresa, mas que tinha alguma antecipação», começou por referir. Foi «muito destrutiva por ter associado um fenómeno chamado sting jet, ou seja, uma descida abrupta de ventos que normalmente circulam a altitudes mais altas na atmosfera e a descida dos ventos faz com que alcancem velocidades muito altas à superfície», explica.
Apesar de se ter previsto a partir de domingo (25 de janeiro) que a madrugada de 28 de janeiro trazia ventos muito fortes, não tinha ainda sido possível antecipar que aos ventos estaria associado ainda este fenómeno, o sting jet. «Mais ou menos quatro ou cinco horas antes viu-se que este fenómeno se formou ao largo da costa portuguesa, mas ainda não era possível determinar exatamente para onde é que este fenómeno se dirigia», acrescenta o especialista. Inicialmente achou-se que seria em Aveiro, «às 2 horas parecia ir para o distrito de Lisboa e acabou, no final, por ser em Leiria».
«Outro aspeto importante que contribui para estes fenómenos, não só para a Kristin, mas também para todo o “carrossel de depressões” como se tem chamado é a situação muito crítica no vórtice do Ártico, a circulação à volta do Polo Norte está muito descida para sul, o que tem empurrado a circulação atmosférica em geral mais para sul», contextualiza. O que é que isto provoca? «Temos ar polar que chega muito para sul, tivemos 0 graus na ilha de Cuba pela primeira vez na história, temos tempestades de neve como nunca nos Estados Unidos da América, na Rússia, o mar a congelar na Polónia e aqui em Portugal também temos tido mais neve que o normal», pormenoriza.
No dia da depressão, a corrente de jato provocada pela descida do vórtice polar Ártico «estava com muita força, muito deslocada para sul e tinha uma trajetória muito reta, direta à costa portuguesa e, portanto isso gerou ventos muito fortes também e com muita humidade». Duarte Costa sublinha que os ventos fortes já estavam previstos, mas «depois com a força e pressão das correntes de jato encaixadas acabou por criar este fenómeno, como se a depressão se tivesse desconjuntado e uma parte muito alta da depressão desceu à superfície com danos muito avultados», reforça.
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