Dias de muita chuva trouxeram inundações a vários pontos do concelho

26 Fevereiro 2026

Isidro Bento

Depois da tempestade vem a bonança. O ditado é antigo mas nem sempre corresponde à realidade. Depois da depressão Kristin ter deixado um rasto de destruição no concelho e na região, ansiava-se, por dias de bonança mas esta só agora chegou. Pelo meio, a chuva que cai inclemente levou a algumas situações de cheia embora sem consequências de maior. Os locais onde isso aconteceu foram, tirando um caso ou outro, os já habituais. Quanto a estragos e prejuízos, não terão sido de grande monta porque houve tempo para proteger bens e animais.

Pela vila de Porto de Mós, o Rio Lena apresentou-se revolto mas, mesmo assim, algumas das zonas que, cronicamente, ficam inundadas, desta vez foram poupadas. O facto do rio estar a ser alvo de uma intervenção de limpeza e de “reabilitação” decerto terá ajudado a que isso acontecesse. Porém, desde a Anaia à Ribeira de Baixo encontravam-se vários terrenos inundados. Parte do jardim municipal também ficou com alguns centímetros de altura de água.

Nas Pedreiras, desde a Estrada Real D. Maria até à zona da Catraia houve espaços inundados, de um lado e do outro. A situação sendo habitual em anos de cheias, foi, contudo, desta vez, diferente. Várias pessoas com quem falámos e que ali residem há décadas confessam que nunca viram tantas zonas atingidas e tanta água concentrada nas áreas já habituais. «Da EN1 para o lado da serra há ali uma regueira que vem da chamada Ribeira das Pedreiras e que inunda quando há muita chuva. Depois encontra vários algares e quando chega à zona da Catraia, que é onde há um algar maior é onde a água mais se concentra, mas nunca me lembro de um ano como este», explicou-nos um morador. «Os caminhos e as estradas subiram e há muito mais impermeabilização dos terrenos e portanto inundou muito mais», reforça.

Para o presidente da Junta das Pedreiras não há dúvidas: «Esta foi a enchente do século». «Os mais velhos dizem que foi a maior de sempre e não me custa a acreditar mas tendo a freguesia 100 anos, não sou eu que o posso garantir mas não tenho dúvidas que, para já, é a maior deste século», frisou.

Dois dias depois da fase crítica, o responsável autárquico explicou à Rádio Dom Fuas que todas as vias se encontravam desimpedidas embora houvesse um caso ou outro em que o trânsito se fazia de forma condicionada. Pedro Pragosa deu conta também de várias casas inundadas, nomeadamente a parte das caves, mas sem pessoas desalojadas, tendo, ainda, havido tempo para retirar bens e acautelar animais. «Na zona baixa da freguesia houve uma habitação com três famílias que ficou isolada, no entanto, a Junta criou um acesso alternativo num terreno particular para que as pessoas pudessem aceder à moradia em segurança», contou expressando o seu agradecimento a quem autorizou a abertura desse acesso na sua propriedade.

Por Alvados, o Rio Cabrão, voltou a sair das suas margens. A água inundou uma extensão de alguns metros na Rua Dr. Francisco Sá Carneiro, e também uma casa particular.  Terrenos alagados houve vários mas nas áreas já habituais em anos de chuva, particularmente, abundante.

Finalmente, em Mira de Aire, o polje inundou tornando-se naquilo que alguns denominam como o mar de Mira-Minde. Chamar “mar” àquela enorme massa de água é, decerto, um exagero mas a verdade é que por ali vamos encontrando pessoas com os seus caiaques, barco a remos, canoas e prancha.

 Manuel Matos é um dos que conhece melhor este lago imenso que em anos de muita chuva «e especialmente em anos em que há cheias no Ribatejo» cobre parcial ou totalmente a Mata. O funcionário do setor das águas no Município de Porto de Mós é presença habitual com as suas embarcações e atesta que este ano é ano de cheia grande. «A água está a 35 centímetros de atingir o nível das cheias de 1996 e a cerca de 97 centímetros, da maior cheia de todas, a de 2001», diz perentório.

Outra prova que desta vez é“a sério” é que enquanto em 2016 só dava para entrar na água, com o barco, a meio de Mira de Aire, agora a partir do Olho já havia água suficiente para entrar logo aí. Para o polje afluem «o Rio do Olho, o Rio Negro, o Regatinho e Contenda, a que se junta a água da chuva e aquela que corre serra abaixo» e é tudo isto que ajuda a formar o tal “mar” que, nalguns locais, tem uma profundidade de mais de 12 metros.

«Isto é um espetáculo, vem malta de todo o lado. Alguns dizem que viram nas redes sociais e ficam encantados quando cá chegam com as suas canoas», diz Manuel Matos. E não é perigoso andar de barco numa zona que por baixo tem árvores, vegetação e outros obstáculos? «É claro que se tem de ter atenção, não estamos em mar aberto, mas com a altura a que a água chega não costuma haver problemas», frisa.

O que é espetacular para uns é motivo de preocupação para outros. Várias pessoas que tinham vacas e ovelhas na Mata foram obrigadas a retirá-las para outros locais. Por seu turno, a água voltou a invadir a estrada entre Minde e a Serra de Santo António. Numa primeira fase, o trânsito esteve cortado e numa segunda foi retomado mas de forma condicionada. «Que eu conheça, só há em Minde uma casa inundada mas se o nível da água subisse mais 40 centímetros decerto que meia dúzia delas tanto de Mira de Aire como de Minde seriam atingidas», conclui Manuel Matos.

As Grutas de Mira de Aire «alimentam duas nascentes, a da Pena e a da Contenda, e é certo e sabido quando o polje se apresenta com muita água, a gruta está parcialmente inundada. A precipitação muito intensa fez com que a água subisse cerca de um metro relativamente ao passadiço, impedido as visitas durante dois dias», disse ao nosso jornal, o presidente do conselho de administração, Carlos Alberto Jorge.

Cheias Jessica Moas de Sa | Jornal O Portomosense

«Quase todos os anos, o passadiço fica inundado em 10, 20 ou 30 centímetros, o que nos tem obrigado a recorrer a uma solução algo rudimentar para tentarmos fazer as visitas. Tendo em conta isso e o facto dos especialistas avisarem que os fenómenos metereologicos vão ser cada vez mais frequentes, decidimos construir um outro», adianta Carlos Alberto. «O novo passadiço está sobreelevado dois metros em relação ao primeiro o que permite fazer as visitas e em total segurança. Já passaram por lá mais de 1 600 pessoas», acrescenta. A menos que volte a chover tanto como em janeiro de 2025, quando «uma tromba de água atingiu a região e deixou os elevadores inundados até meio», o problema fica, então, resolvido.

Fotos | Jéssica Moás de Sá, Grutas de Mira de Aire, Isidro Bento e DR

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