Gosto de datas, de efemérides, de marcos históricos, mas preferia não ter estes para apontar. Exatamente um mês depois da tragédia que assolou a nossa região, e da qual ainda nos encontrávamos a recuperar, acordámos com uma nova tragédia. Desta vez, bem longe daqui mas, ainda assim, tão perto. Perto nas consequências que nos afetam diretamente e que nos têm obrigado a fazer contas à vida. Perto também na noção de que “afinal” um episódio a milhares de quilómetros de distância pode prejudicar-nos seriamente e impactar o nosso dia a dia como dificilmente julgaríamos possível.
Enquanto muitos de nós ainda tentávamos encontrar a melhor forma de nos reerguer de uma tempestade que nos desorientou a todos, enquanto muitos de nós ainda tentávamos arranjar uma solução precária para problemas complexos, estávamos longe de imaginar que tudo pudesse piorar antes sequer de melhorar. Assim como estávamos longe de imaginar as intenções dos Estados Unidos da América e Israel quando decidiram lançar um ataque contra o Irão. Embora cientes de que a paz mundial já tivesse vivido melhores dias, dificilmente conseguiríamos prever o conflito do passado dia 28 de fevereiro. Mas, de repente, parece que tudo passou a girar em torno deste conflito, sobretudo à volta das suas consequências. Esta guerra tem tido repercussões gigantescas um pouco por todo o mundo, com consequências brutais para a economia mundial. A mais expressiva será, talvez, a escalada do preço dos combustíveis, pois é essa a que mais nos pesa na carteira, a que mais nos afeta.
Perante aquela que é hoje a nossa realidade, a ideia de que “uma fogueira no meu quintal é sempre uma fogueira no planeta” nunca me soou tão atual. Ouvi esta frase, pela primeira vez, há 10 anos, pela voz de um professor da universidade, onde estudei, e nunca mais me esqueci do seu significado. Aliás, mesmo que quisesse, os episódios da história recente travariam qualquer tentativa nesse sentido. A frase, da autoria de Anthony Giddens, que consta da sua obra O Mundo na Era da Globalização, tem-me acompanhado, ao mesmo ritmo que acompanha o curso da história.
Quis o sociólogo mostrar que tudo o que acontece numa parte do mundo terá impacto, certamente, numa outra parte. Por muito distantes que estejamos um do outro, por muitos quilómetros que nos separem. Tem sido assim com a guerra na Ucrânia, é assim com a guerra no Médio Oriente, a que se podiam somar tantos outros exemplos. E ainda há quem ouse pensar que aquilo que acontece do outro lado do mundo, é a esse lado que pertence. Não sendo, por isso, motivo de preocupação, porque “não é cá” que está a acontecer. Mesmo perante as imagens que todos os dias nos entram pela casa adentro, há quem prefira encolher os ombros, como se esse problema não lhe pertencesse. Ou até quem prefira seguir com a sua vida como se nada fosse, como quem nega acontecimentos passados e não tenha aprendido nada com a história.
Depois de um inverno rigoroso, que somou demasiados dias cinzentos, a primavera não trouxe a leveza e tranquilidade que lhe são características. Nem tão pouco trouxe o necessário reflorescimento, de uma comunidade esmorecida por sucessivos desafios. Trouxe sim novas angústias e a renovação de outras tantas. Vivemos tempos difíceis, de uma grande incerteza e instabilidade, e os acontecimentos recentes conseguem minar, por completo, a esperança de que dias melhores hão-de vir. Mas, mesmo assim, ainda há quem acredite que os problemas do outro lado do mundo, é a esse lado que pertencem.


