Quarenta anos. A Rádio Dom Fuas atinge, este ano, esta marca, que se celebrou no passado dia 26 de junho, com a “1.ª Grande Festa de Verão”. Com a banda Com Licença, Manuel João Vieira e por fim o DJ Pires, o Campo de Futebol de Pedreiras, precisamente na localidade de onde a rádio emitiu pela primeira vez, foi o palco da celebração.
Que importância tem assinalar estas quatro décadas? «Significa que estamos cá, que ultrapassámos barreiras e estamos na luta», assim expressa o presidente do conselho de administração da CINCUP, detentora da Rádio Dom Fuas, Pedro Vazão. O responsável lamenta que as rádios locais tenham sido sempre encaradas como «o parente pobre» dos meios de comunicação, e que nunca « tenham sido valorizadas pelos Governos». Ainda assim, acredita, que isso «tem evoluído nos últimos anos» e sobretudo «nos últimos meses». «Depois da tempestade que nos assolou, sem a rádio local como forma de contar e explicar o que estava a acontecer (por não ter luz e gerador), percebeu-se a importância que a rádio teria naquele momento, ou seja, no dia que faltámos, perceberam», frisa Pedro Vazão.
E isso reflete-se, exemplifica, em pequenos passos dados: «Nós não iríamos emitir os tempos de antena, à exceção das eleições autárquicas, entretanto já saiu uma lei para emitir todas as eleições, o que nos dá um encaixe financeiro, que embora não seja significativo, todas as migalhas são importantes para fazer este tipo de rádio que não tem subsídio nenhum, depende apenas da publicidade e imaginação de quem a produz e orienta», sublinha.
Evolução “tremenda”
Pedro Vazão nem sempre esteve na direção, está há cerca de 20 anos nas direções (com alguns interregnos), mas desde 1986 que está ligado à Rádio Dom Fuas. «A rádio foi idealizada pelo Luís Oliveira [que foi homenageado na Festa de 26 de junho], que era um brincalhão nas coisas das rádios amadoras, aliás, tudo começou num estúdio que era a garagem dele», conta Pedro Vazão. Era nesses estúdios improvisados que se juntava com grupos sempre grandes de curiosos, jovens, que queriam fazer parte. «Nós andávamos quase à disputa uns com os outros para ver quem era o próximo a entrar», recorda, entre risos. Foi uma época «muito feliz» e Pedro Vazão acredita que agora, a geração de 18/20 anos não «teria capacidade para fazer uma coisa destas». «Não é menosprezar o valor das pessoas, mas as realidades são outras», diz.

Começaram «com discos e cassetes» e hoje é tudo feito com «programas de automação» onde é possível preparar as coisas sem estar presencialmente num estúdio. «Uma evolução tremenda», assim descreve, mas onde, também reconhece, se perdeu «o contacto entre pessoas». «Fizemos umas palestras onde convidámos as pessoas a virem à sua rádio, mas aparecem muito poucas pessoas», lamenta.
Já o futuro, esse será «aquele que os sócios quiserem». «De quatro em quatro anos é eleita uma direção, eu sou presidente já vai para 10 anos e supostamente poderei ser eleito para mais um mandato, mas eu já disse nas assembleias gerais que a rádio não pode estar dependente de uma, duas ou três pessoas, senão não há futuro», antecipa. Está neste cargo por sua «carolice e dos colegas», cada um na sua área, mas as pessoas «cansam-se e estar há 20 anos nestas equipas, «praticamente sem interregno», é «normal que leve a que deixem de ter ideias e força». A continuidade da rádio, salienta ainda, terá de passar «por três pilares muito importantes, uma boa gestão, um bom produto para ser vendido e bons profissionais». «Neste momento acho que temos isso tudo, mas as coisas acontecem, um dia estamos em guerra, num dia as coisas sobem de preço, noutro há fenómenos imprevistos e são cada vez mais, e estas coisas mexem muito connosco», frisa, evidenciado a importância de ter uma estrutura sólida e um olhar atento da comunidade e de Governo e autarcas.
Rádio terá de olhar para IA como aliada
Quem também já tem uma ligação à Rádio Dom Fuas de mais de 20 anos (entrou em 2002 e esteve até 2009 e regressou depois em 2016, encontrando-se atualmente na “casa”) é Luís Carvalho, locutor e programador musical. Apesar de considerar que a «essência da rádio e da sua estrutura na programação mantêm-se basicamente a mesma continuando a provar que é uma aposta segura», têm havido «naturalmente mudanças às quais a Rádio Dom Fuas sempre esteve atenta». Entre elas, «a maior diferença e desafio» prende-se com a evolução tecnológica.
«A adaptação e integração a novas tecnologias online, constantemente em mutação, foi, e é, o maior desafio: tentar não vê-las como uma concorrência mas sim como uma mais-valia para fortalecer o meio rádio, a Dom Fuas em particular», frisa Luís Carvalho. Esta adaptação ganhou uma dimensão maior com a «maior revolução em várias gerações, a Inteligência Artificial (IA)», considera o locutor. Com «a maior das certezas», Luís Carvalho não tem dúvida que a IA deixará «muitas rádios para trás, principalmente aquelas que se mostrarem mais teimosamente saudosistas».
«Mais do que olhar para a história da rádio, é imperioso encarar de frente o próximo desafio, a IA, que será seguramente o maior de sempre. Mas cá estaremos, não sei em que moldes, para provar que a rádio continua a ser, entre todos os meios, o mais resiliente», defende. A IA, acrescenta, irá, na sua opinião, mudar tudo, numa volta de «180 graus»: «Os meios, a tecnologia, as equipas, os métodos de financiamento… tudo mudará».
Luís Carvalho releva ainda o impacto das rádios locais na comunidade onde estão inseridas, assumindo um papel preponderante, no entanto, afirma, há ainda uma «larga margem de manobra para se tornarem mais relevantes». «Acho que a comunidade não tem a noção que tem o privilégio de ter uma rádio ao seu serviço na região. Nem todas as cidades as têm, muito menos vilas», dado o exemplo de Leiria, sede de distrito.
Fotos | Rafael Duque




