A nostalgia da Corredoura

15 Julho 2026

A minha versão de 10 anos não guarda grandes memórias da Escola Básica Dr. Manuel de Oliveira Perpétua. Sim, era uma alegria ir à loja do Ti Pedro comprar os xupas Pali Pica e as Peta Zetas. Umas quantas aulas de matemática ou ciências mudadas para o anfiteatro davam a alegria de termos um mini concerto de piano do Professor Américo. Sim, há professores que ainda hoje recordo com carinho, e recantos misteriosos mas, no geral a minha versão de criança não morria de amores pela escola. Lembro-me de achar que a escola cheirava sempre mal. Seja pelo suor recalcado na casinha das meninas, o constante cheiro do refeitório no corredor dos balneários ou um cheiro a velho mal disfarçado em todo o lado. Com calor torrávamos nas salas, com frio enregelávamos. Justiça seja feita, isso foi um problema que se estendeu até ao final do secundário. 

Mas a minha versão adulta tem uma nostalgia enorme pelos miúdos que não vão ter oportunidade de passar pela escola da Corredoura, no seu conceito de escola básica de segundo ciclo.

Aqueles dois anos eram um patamar intermédio de uma escola maior, mas ainda de miúdos que gostavam de jogar ao mata, ao elástico. Havia uma grande mudança dentro da sala de aula, com tantos professores e disciplinas novas. Mas no recreio, havia uma certa continuidade. A escola da Corredoura era a nossa antecâmara da adolescência.

A minha versão adulta tem também nostalgia pelo belissímo edifício, que o meu sentido estético infantil não me permitiu desfrutar, mas em que a distância temporal me permite apurar-lhe a beleza. Podia não ter as escadas que se mexem sozinhas ou fantasmas a saírem dos quadros, mas à sua maneira, foi a nossa Hogwarts, a escola mágica de muitas gerações.

As nossas crianças vão ter condições extraordinariamente melhores dentro da sala de aula e melhores equipamentos. Ainda bem que assim é e que possam ter melhores bases pedagógicas para avançarem nos seus percursos educativos.

Já do lado de fora da sala de aula, no recreio, serão “obrigados” a crescer mais depressa. As referências de comportamento serão todos os adolescentes mais velhos. Se já é bem patente o efeito da “adultificação” das gerações mais novas, havendo o recinto comum para um tão grande número de alunos de uma ampla variação etária, vamos ter os nossos pré adolescentes de 10 anos a despedirem-se da sua infância mais cedo.

Espero mesmo estar enganada e para muitos pais e educadores esta questão nem sequer é relevante. Mas assim como a globalização teve os seus ganhos e perdas, a nova escola também vai ter as suas consequências. Daqui a uns anos cá estaremos para ouvir as memórias das crianças de hoje.