O mês de setembro será um mês de mudança para o Rancho Folclórico de Mira de Aire: uma nova sede. Esta mudança adivinhava-se há algum tempo. Em dezembro de 2024, em entrevista em direto à Rádio Dom Fuas, o presidente desta associação, Norberto Rodrigues, advertia: «Temos uma sede alugada, com um contrato verbal com o proprietário, no dia em que ele a vender, nós temos que sair. É uma sede muito grande onde temos muito material e se tivermos de sair não sei para onde poderemos ir e espero ajuda por parte do Município para encontrar o espaço ideal». O dia chegou, o proprietário decidiu vender o espaço, venda que aconteceu «no final do ano passado». Felizmente, o «novo proprietário» deu ao rancho até ao final de 2026 para encontrar uma nova sede, algo que aconteceu agora, explicou, a O Portomosense, Norberto Rodrigues.
No entanto, esta transição, levou a uma publicação e a muitos comentários que, não correspondendo totalmente à verdade, «a direção do Rancho considerou importante» esclarecer, desmarcando-se de qualquer ligação à referida publicação. «O Rancho encontrava-se instalado num espaço que estava à venda. Atempadamente foi transmitido à Câmara Municipal o interesse em adquirir aquele imóvel não apenas para o Rancho, mas para várias associações», podia ler-se. A compra, por parte do Município acabou por não acontecer «mesmo depois de alertada para a gravidade da situação e para o risco real de o Rancho ficar sem instalações». «A proposta apresentada pela Câmara para a aquisição do imóvel foi anedótica, quando já existia uma proposta superior ao dobro do valor oferecido pelo Município», referia a mesma publicação.
«Foi num momento de verdadeira aflição que pedimos ajuda ao vereador do PS, Fernando Quaresma Gomes que fez aquilo que esperávamos de quem tem responsabilidades públicas: não virou a cara, não arranjou desculpas e procurou uma solução. Sabendo ele que iria sair prejudicado, mas mesmo assim disponibilizou o seu próprio espaço», acrescenta.
O Portomosense questionou o presidente do Rancho, Norberto Rodrigues, sobre a sua versão. «Essa publicação não é nossa, é política e a associação não se mistura com política. A sede para onde vamos agora não é emprestada, é arrendada», esclareceu. Ainda assim, o dirigente ressalva que até agora nada foi feito pelo Município para encontrar uma sede, confirmando que aquando da venda, no final de 2025, «a Câmara foi comunicada do que ia acontecer».
Para já, o responsável não quer «adiantar mais» sobre este processo, até por não saber a postura «que o Município» terá daqui para a frente. No entanto, na publicação feita pela direção do Rancho na sua página, confessa alguma mágoa: «Sentimos que devemos dizer, com respeito e sem intenção de criar qualquer conflito, que não podemos esconder a nossa tristeza com todo este processo. Durante cerca de 10 anos ouvimos falar da possibilidade de aquisição da nossa antiga sede para o Rancho e para outras coletividades da nossa terra. Foram anos de espera, de expectativa e de esperança de que essa solução pudesse finalmente concretizar-se. Infelizmente, tal não aconteceu e acabámos por perder o espaço que foi a nossa casa durante tantos anos».
A direção garante, ainda que continuará, como sempre «fez» a assumir a «renda e todas as despesas necessárias para manter a atividade». «O que não podemos deixar de lamentar é que, depois de tantos anos, tenhamos chegado novamente ao ponto de ter de procurar e assegurar, por nós próprios, um espaço para continuar a existir», lamentam.
Município tentou “desde a primeira hora” encontrar solução” e suportará parte da renda
«O Município reconhece e valoriza profundamente o papel que o Rancho tem desempenhado na preservação da nossa cultura, das nossas tradições e na dinamização da vida associativa local», começou por referir o vice-presidente, Eduardo Amaral, em resposta a O Portomosense. O vereador da Cultura explicou que, comunicada a venda do imóvel no final de 2025, «o Município procurou, desde o primeiro momento, encontrar uma solução que permitisse garantir a continuidade da atividade da associação. Assim, foi apresentada ao Rancho a possibilidade de aquisição do imóvel, por parte do proprietário, cujo valor rondaria cerca de 95 mil euros, tendo o Município manifestado disponibilidade imediata para comparticipar essa aquisição em 60 mil euros, existindo ainda abertura e disponibilidade do proprietário para encontrar condições facilitadoras de prazos de pagamento».
Apesar «desta solução», o Rancho «entendeu que a aquisição implicaria encargos que não estaria em condições de assumir. Perante este cenário, o Município disponibilizou as instalações da Casa da Cultura como alternativa». Esta não se apresentou como uma hipótese viável «uma vez que foi manifestada a dificuldade em assegurar naquele espaço o armazenamento de todo o material da associação».
«Quanto às declarações de que o Rancho terá sido “salvo” pela disponibilização deste novo espaço que agora surge como solução, importa esclarecer os factos: o espaço em causa não constitui uma cedência gratuita à associação, como nos foi relatado em reunião de trabalho, trata-se de um imóvel que, segundo o presidente do Rancho, será arrendado com um custo de 500 euros mensais», refere Eduardo Amaral. O Município suportará parte desta renda: «O Rancho anteriormente suportava uma renda de 200 euros, o Município disponibilizou-se a assumir os 300 euros adicionais, numa proposta válida até ao final do ano», adiantou ainda.
O executivo, salienta, saúda «todas as iniciativas que possam contribuir para encontrar respostas para as associações», mas não lhe parece «correto apresentar como uma solução exclusivamente privada aquilo que, na realidade, será também suportado pelo Município».
Esta perspetiva tem «um objetivo muito claro: dar tempo e estabilidade ao Rancho para que possa continuar a desenvolver a sua atividade, enquanto se procura, conjuntamente, uma solução estrutural e sustentável para o futuro». O vereador da Cultura garante que o Município mantém «total disponibilidade, como sempre, para apoiar financeiramente uma eventual solução de aquisição de sede» para o Rancho ou «para encontrar uma resposta que possa também servir outras associações que enfrentam problemas semelhantes».
Esta é, no entender de Eduardo Amaral, «uma oportunidade para pensar não apenas numa solução imediata, mas numa estratégia para o associativismo». «É importante distinguir, por isso, entre a disponibilidade do Município para apoiar e a decisão da associação relativamente ao caminho que pretende seguir. O Município pode e deve criar condições, apoiar e procurar soluções; cabe depois aos dirigentes associativos avaliar qual o modelo que melhor serve a sua associação a médio e longo prazo. Mas entendemos também que, perante os recursos públicos envolvidos e os desafios que várias associações enfrentam, é importante que as decisões sejam enquadradas numa visão de futuro, sustentável, equilibrada e justa para com todos», conclui o autarca.
Fernando Quaresma Gomes: “O Rancho informou a Câmara em tempo útil para ter uma atitude proativa”
«O Rancho informou a Câmara em tempo útil para que tivesse uma atitude proativa em prol do associativismo», considera Fernando Quaresma Gomes, vereador do PS, visado na publicação e que é agora o novo rendeiro do Rancho. O vereador considera que «o mais importante hoje em dia no país é o associativismo, é o que une as pessoas, e isto é abolir isso mesmo». «E isto, por uma questão de 20 ou 30 mil euros, desperdiçamos [o Município] milhares de euros em tanta coisa, com derrapagens orçamentais loucas, e por causa de 20 ou 30 mil euros não comprámos aquele prédio que dava para acolher três associações», salienta.
«Como vereador, quando me pediram ajuda, o mínimo que pude fazer foi arranjar uma solução que fosse ao encontro das necessidades, era preciso um espaço amplo e eu tinha aquele espaço no centro de Mira de Aire», explica.
«Sabendo ele que iria sair prejudicado, mas mesmo assim disponibilizou o seu próprio espaço, o antigo Regional, para acolher o Rancho Folclórico de Mira de Aire e permitir que esta associação continue a trabalhar, a ensaiar, a preservar as nossas tradições e, acima de tudo, a existir», podia ler-se também na publicação que levou ao esclarecimento da direção do Rancho. Questionado pel’O Portomosense de que forma saía “prejudicado”, o vereador refere que tinha intenção de arrendar aquele espaço por um «valor três vezes maior», mas sabendo que o Rancho não tem «capacidade de ter esse tipo de despesa mensal» abdicou disso mesmo.
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