Demagogia à volta de obras?

10 Setembro 2026

Esta quinzena fica marcada pela inauguração das obras que tiveram lugar no Centro de Saúde de Porto de Mós no sentido de o dotar de melhores condições físicas tanto para quem lá trabalha, como para quem, enquanto utente, procura os seus serviços. E aqui está uma coisa importante de que muitos dos opinadores das redes sociais parecem ter-se esquecido nas últimas semanas: o intuito das obras.

É óbvio que com o problema que Porto de Mós enfrenta, há alguns anos, de uma gritante falta de médicos, ao ser feita esta inauguração haveria sempre, e bem, quem recordasse essa questão. No entanto, uma coisa é não esquecer (e aqui os autarcas locais tinham especiais responsabilidades quer nos seus discursos, quer nas conversas informais com os responsáveis da Saúde que acontecem sempre neste tipo de cerimónias), outra, é esquecer, nalguns casos, propositada e despudoradamente, o que motivou as obras ou a justificação oficial que foi sempre dada para as mesmas.

Confesso que a idade já vai pesando mas não me recordo de alguma vez ter sido dito que com as obras viriam mais médicos. Julgo que não aconteceu.
Obras são obras, médicos são médicos e embora, nalguns casos, o “aparecimento” de uns até possa ser coincidente no tempo com outros, julgo que aqui não era de todo o caso: o  concelho de Porto de Mós tem falta de médicos, é um facto, mas só por muita ingenuidade é que se poderia pensar que a melhoria das instalações levaria à desejada vinda dos respetivos clínicos. Portanto, no meu entender, a indignação de algumas das pessoas que mais se têm manifestado nas redes sociais sobre esta questão, terá algo de genuíno mas não será, decerto, por se sentirem enganadas. Esse sentimento acredito que possa existir em muita gente que, não acompanhando de perto a atualidade do concelho e não seja consumidor assíduo daquilo que a comunicação social vai divulgado, nos seus vários canais, pudesse pensar, até porque sente na pele o problema. Mas só esses. Quanto aos outros desconfio que existam por ali motivações várias e nem sequer, exclusivamente, políticas.

Quanto às obras em si, confesso que ainda só tive a hipótese de “visitar” uma pequeníssima parte do espaço e, sem dúvida, aquele onde a intervenção terá sido menos notória, portanto, não estou em condições de opinar sobre o resultado final… Com uma exceção!
Pelo que vi das fotos, parece ter ficado um espaço muito mais agradável e, talvez, mais funcional, mas também se isso não acontecesse, como dizem os mais velhos, ficaria “a dever à consciência” de alguém, porque por muito caras que as obras estejam, mal seria se depois de um investimento de cerca de 1 milhão de euros nada de novo se notasse.

A exceção a que me refiro é o ar condicionado. Não sei se na altura foi dada alguma justificação ou o que é que se passa com esse equipamento imprescindível em qualquer espaço público fechado sejam unidades de saúde, escolas, repartições públicas, casas mortuárias. Sei, apenas, que na consulta a que fui reparei nesse pormenor e mais tarde soube que não tive azar: até poucos dias antes da saída deste jornal, ao que me disseram, o sistema  não estava em funcionamento não só naquele consultório mas em todo o edifício. Ou seja, mais um equipamento público inaugurado com pompa e circunstância (maior só se viesse cá o primeiro-ministro ou o próprio Presidente da República) mas sem ter a funcionar um equipamento básico seja no verão, seja no inverno.

 Uma última nota e esse é a crítica realista (face ao que eram os objetivos da intervenção) que subscrevo ao que já li e ouvi: É difícil perceber como é que se gastou tanto dinheiro e não se criou ou adaptou um dos espaços para os utentes esperarem no exterior do edifício. E não, não acho que faça sentido as pessoas “madrugarem” à porta do Centro de Saúde mas julgo, sim, que quem chega meia hora mais cedo possa ter um sítio resguardado, pelo menos, do frio, da chuva e do vento, ou que após o tratamento ou a consulta tenha um espaço onde possa esperar o familiar ou amigo que foi buscar o automóvel para mais perto da saída.