Nestas férias aproveitei para tomar um banho não de mar mas de cultura, como se costuma dizer. A preferência foi para a visita a museus que por circunstâncias várias ainda não tinha tido oportunidade de visitar mas que me despertavam interesse ou que, por força do destino, acabaram por se cruzar no meu caminho. Falo de espaços de prestígio nacional e internacional mas também de outros bem mais pequenos desenhados à dimensão dos concelhos cujo património guardam.
Cada um dentro do seu género “encheu-me as medidas” e em todos me ocorreu o pensamento que não me larga há anos: Porto de Mós deve ser dos poucos que não têm um museu municipal. Quer dizer, formalmente, até tem, mas se alguém o quiser visitar, terá sérias dificuldades em o encontrar já que deixou de ter morada fixa e agora o seu espólio é servido, desculpem-me a expressão, às talhadas, em exposições temáticas que por muito interessantes que sejam não nos permitem ter uma noção do conjunto.
Há alguns meses, na Assembleia Municipal, o meu amigo Telmo Conceição, um dos portomosenses que mais tem trazido para a praça pública a discussão sobre o estado do concelho, questionou o presidente da Câmara sobre o facto do Museu Municipal «ter sido desmantelado». O autarca não gostou mesmo nada do uso do termo “desmantelar” mas eu que, algumas vezes discordo em absoluto (mais da forma que do conteúdo) de algumas ideias manifestadas pelo empenhado munícipe, e outras “assino-as por baixo”, daquela vez tive que, intimamente, concordar.
Até há uns anos tínhamos um Museu Municipal. Podia ser modesto, acanhado, sem grandes condições e com as peças a precisar de nova catalogação e uma outra dinâmica expositiva. No entanto, era um museu e era nosso. Quando queríamos mostrar a amigos e conhecidos de outras paragens aquilo que somos sabíamos onde ir e o que iríamos encontrar. Agora, temos todo o espólio, supostamente, a ser catalogado e as peças a serem devidamente tratadas para tentar travar a sua natural degradação (o que é de louvar), e uma vez por outra lá temos uma exposição temática com peças do museu que viu a sua casa de sempre ser transformada em outra coisa bem diferente, certamente, muito útil e necessária mas a deixar “sem abrigo” visitável a mostra criada com tanto trabalho e carinho pelo saudoso Francisco Furriel com o apoio imprescindível, claro, dos presidentes de Câmara e vereadores da Cultura do seu tempo.
Esse, aliás, é outro pormenor que não é de somenos. Há uns anos, não muitos, sabíamos onde é que o Museu se encontrava e a casa que passaria a ocupar daí a não muito tempo. Aliás, o “novo” museu era uma das peças fundamentais do projeto que havia sido desenhado para a antiga central termoelétrica. Entretanto, entra nova equipa autárquica, com novas ideias e novos planos (todos perfeitamente legítimos, obviamente) e do museu praticamente nunca mais se falou. A sua aparente exclusão da atual Central das Artes foi opção política? O projeto para ser apoiado por fundos comunitários, afinal, não podia conter um museu? Há outro espaço em vista, melhor, e um data prevista para a sua reabertura? Afinal, o que é que se passou para passar de um dos elementos mais marcantes de um projeto vasto e ambicioso, para quase ilustre desaparecido da vista dos portomosenses? Estas e outras perguntas são minhas mas sei que são partilhadas por muitos outros.
Exposições como aquelas que têm passado pela Real Factory do Juncal são importantes e de grande valor, provam que temos vasto e rico património e que na equipa municipal há gente conhecedora e e muito empenhada e que sabe bem como valorizar as peças aos olhos dos visitantes. Isso é bom mas confesso que me sabe a pouco. Acima de tudo, o que me preocupa é ter deixado de ouvir os nossos autarcas falarem do Museu Municipal, porque uma coisa é estar encerrado por um período longo para restauro, conservação e catalogação das peças, outra é nem sequer ser público se há um prazo previsto para essas tarefas estarem concluídas e qual será a sua nova casa.


