Viver ou sobreviver?

22 Outubro 2026

Quando os jovens atingem uma certa idade, tenta-se que comecem a olhar um bocadinho para lá do horizonte, que comecem a imaginar o futuro, que tenham objetivos. A certa altura, há alguém que, num tom sério, decide ter a conversa cujo o discurso começa quase sempre da mesma forma: “Estuda muito e aplica-te o máximo que conseguires na escola, para que depois consigas escolher uma boa profissão e ter uma casa”. 

Até há uns anos, a fórmula era esta e quase sempre o resultado era o prometido. A premissa parecia simples e o objetivo relativamente fácil de atingir, mas os tempos mudaram. E o que antes parecia depender apenas da vontade do próprio, agora quase que se assemelha a uma utopia. E agora? O que é suposto dizer-se aos jovens que cumprem todos os pressupostos, que seguem à risca exatamente esse conselho, fazem tudo o que é suposto, aos olhos da sociedade, e mesmo assim o dinheiro não chega para pagar a renda da casa, quanto mais pensar em comprar uma? E quando a solução que resta está num quarto, sem janela, e com uns míseros sete metros quadrados? E como se isso não bastasse, ainda têm de aprender a conseguir esticar o ordenado para lá do dia 17 de cada mês, naquele que quase se assemelha ao exercício de resolver as Equações de Navier-Stokes. 

Para uns, a solução passa por se irem esfolando a trabalhar, sair de casa quando o sol ainda não nasceu e regressar quando este já se pôs. Outros, vão acumulando empregos para conseguir pagar as contas e impedir que a conta bancária não se reduza a um dígito. Vidas reais de pessoas reais com dificuldades demasiado pesadas e, por vezes, difíceis de suportar e que é a realidade de muitos (jovens) portugueses. 

A vida está cara, está difícil e a cada dia que passa parece que vai colocando cada vez mais à prova a nossa resistência e capacidade de sobrevivência, o que me leva à seguinte reflexão: Estaremos nós hoje a viver ou a sobreviver? Nos últimos dias houve quem dissesse “Basta!” ao estado atual da conjuntura económica em Portugal e decidisse ir para a rua. Talvez movidos por alguns ventos de revolta oriundos de outros países, protestam contra o custo de vida e, em particular, contra a dificuldade em conseguir uma casa para viver. O acesso à habitação, direito consagrado na Constituição, parece que passou a ser um privilégio só para alguns. Mas antes destas manifestações houve quem já tivesse percebido o rumo que a vida estava a tomar e tivesse desistido (e continuam a desistir). Garantem que esta vida não é para eles, que merecem e precisam de mais. E saem do país, como quem fecha uma porta sem saber se algum dia se voltará a abrir. Fazem-no de lágrimas nos olhos e com um sentimento de mágoa e frustração difícil de descrever. Sentem-se revoltados por serem obrigados a escolher um caminho, que ninguém deveria ser obrigado a escolher, porque o país onde nasceram e cresceram lhes falhou. E sentem-se traídos porque, afinal, estudar muito e trabalhar muito, já não é garantia de nada… Era preciso mais, mas isso ninguém lhes disse.