Calcem os nossos sapatos… mas de cara descoberta

5 Novembro 2026

Confesso que me surpreendeu a reação dos vereadores “da oposição” a uma notícia em que era referido que o presidente da Câmara, numa reunião do executivo, dera conta do seu desconforto por, pela primeira vez nenhum vereador da chamada “oposição” estar presente.

 É claro que o responsável autárquico conta com larguíssimos anos de vida pública e obviamente que estava consciente de que algum jornalista presente na sala poderia considerar o facto inédito e, ainda para mais embrulhado numa crítica explícita, matéria noticiável. Não digo que o tenha dito com essa intenção mas quando se afirma algo numa sessão pública há sempre essa hipótese e foi o que aconteceu.

Pois bem, como é que os visados reagiram? Fizeram o que acontece tantas vezes, atacaram o mensageiro e não a mensagem ou o seu autor. A revolta expressa em público (e em privado) de uma forma, quanto a mim totalmente exagerada, não foi quanto ao que se disse, muito menos dirigida a quem o disse, mas a quem noticiou um facto comprovável por todos (até porque há o registo áudio das reuniões).

Há aqui algum facto falseado? Afinal, estiveram lá e não foram vistos? As palavras do presidente da Câmara foram também falseadas? Julgo que não, pelo menos, este na reunião pública seguinte deixou claro que o jornal se limitara a reproduzir aquilo que aconteceu e foi dito.

“Matar” o mensageiro que traz a notícia que não queremos que seja conhecida parece que é coisa que já existe desde, pelo menos, 300 anos A.C., mas meus senhores, o Direito criou uma ferramenta muito mais justa e equilibrada para que quem se sinta vítima de notícia falsa, incorreta ou com imprecisões. Intitula-se Direito de Resposta e desde que sejam cumpridos alguns pressupostos básicos é de publicação obrigatória.

Bem, se algum mérito teve todo aquele protesto na reunião de Câmara pública foi demonstrar que no jornalismo não existe corporativismo. Entre as fronteiras da lei e da deontologia, cada jornalista tem uma margem razoável para avaliar o que para si e para o seu jornal, tem valor notícia.

Deixando os críticos de (louvável) cara descoberta, não posso deixar de referir os outros, aqueles, que se escondem por trás de um nome inventado e numa qualquer página nas redes sociais.

Lendo o que vão escrevendo, divido-me entre o riso e a vergonha alheia, tamanha a desfaçatez e o desconhecimento de quem parece ter um doutoramento em jornalismo e largos anos de experiência nesta área.

Sinceramente, gostava de os ver a acompanhar, durante 15 dias, a feitura de O Portomosense. Se quiserem, o convite está lançado. Venham ver como se faz este jornal. Gostava, por exemplo, de ver o que escolhiam noticiar em apenas uma ou duas páginas disponíveis, de uma Assembleia Municipal com quatro ou cinco horas, dezena e meia de pontos e mais um período para intervenções do público e para Antes da Ordem do Dia. Ou que matérias escolheriam de uma reunião de Câmara que tem lugar quase no fecho de edição e quando ao mesmo tempo se tem entre mãos outros trabalhos igualmente complexos (sim, porque, há quem faça algo mais que estar o dia inteiro a ver os contratos que vão chegando ao Portal Base).

Saberá esta gente quantas horas, quantos dias, demora a tratar um evento com aquela duração? Conhecerá o enorme gozo que se tem de ter trabalhado várias horas, dias até, numa determinada matéria e depois esta não ser publicada porque, entretanto, entrou algo mais urgente e o espaço não estica?

Felizmente, que o ridículo não mata porque senão seria uma tragédia tantas vezes se escreve sobre falta de deontologia e se continua a vir à praça pública dizer o que bem se entende, de cara coberta, e imagine-se, até apelar à participação dos munícipes nas Assembleias Municipais para falarem dos problemas da terra, quando quem o sugere, só tem coragem para o fazer sob o manto negro do anonimato.