Da história deste jornal faz, necessariamente, parte a história de Porto de Mós, das suas gentes e dos seus problemas. Muitos foram os temas que fizeram correr tinta nestas páginas, mas o IC9, pela sua importância e pela polémica causada à época da sua idealização e construção, foi o nosso escolhido.

Quando começou a falar-se da construção de um itinerário complementar que ia fazer com que Porto de Mós ficasse com melhores acessibilidades a outras vias muito importantes no país, a satisfação foi geral. No entanto, depois de se perceber que o traçado podia dividir aldeias ao meio, expropriar terrenos e demolir habitações, a novidade deixou de ser tão consensual como até aí, e originou mesmo forte contestação.

Depois de muito tempo de luta por um traçado que prejudicasse ao mínimo os portomosenses, e após várias discussões nos diferentes órgãos autárquicos, o IC9 avançou finalmente. Não se conseguiram todas as alterações que à altura foram reclamadas mas mesmo assim a população foi confrontada com uma solução muito mais de acordo com as suas expectativas e, hoje, o IC9 é uma via cuja importância ninguém nega e que, tal como se previa, se tem revelado uma boa porta de entrada e de saída do concelho.

Para esta evocação de um assunto que deu que falar nas páginas de O Portomosense durante longas semanas fomos recuperar alguns dos testemunhos de populares descontentes. Em junho de 2009, O Portomosense publicava um artigo que intitulou da seguinte forma: Vidas suspensas pelo IC9. Em antetítulo a frase: “Moradores perdem património e sossego”. Numa fase em que ainda não se sabia ao certo por onde passaria a nova estrada, contava-se a história de Miguel Carreno que decidiu colocar um anúncio com o seguinte texto: “Vende-se terreno com vista para o IC9”. Na altura, o morador da Corredoura, dizia que não queria «causar polémica, apenas vender uma casa, sem enganar ninguém». O motivo da venda prendia-se com a vontade de «procurar tranquilidade noutro lado», motivo que o tinha feito fixar-se ali e que agora era também a razão da sua provável saída. Outro dos testemunhos era de João Correia, habitante na Carrasqueira «há mais de 20 anos», numa casa que se previa «ser demolida para a passagem do IC9 na zona de Fonte do Oleiro». Na altura, João Correia confirmou a O Portomosense «a visita de técnicos à sua propriedade, para estudos de terreno», no entanto, referiu «que nunca foi contactado oficialmente por qualquer entidade». As suas expectativas eram de que o processo de negociações pudesse ser “civilizado e educado”, pois admitia «não ter hipóteses de contrariar a demolição da casa, que tem sido referenciada desde o início do projeto».

Neste mesmo jornal, dizia-se que as obras deviam «avançar dentro de pouco tempo, tendo em conta os prazos apontados pelo Governo, no entanto, a informação sobre o traçado tarda em chegar às populações». Esta afirmação era comprovada por Ana Isabel Pires, moradora na Fonte do Oleiro, que afirmava que já tinha ouvido «falar do projeto» mas que não sabia por onde ia passar. Porém, mesmo sem certezas, Ana Isabel Pires considerava que a obra não seria boa «porque “a aldeia vai ficar cortada e a estrada vai ficar mais perigosa”».

O IC9 acabou por abrir ao público no início de maio de 2012, dizendo-se em nota da Câmara, à época, que esta «via transversal no litoral oeste do país, beneficia diretamente as acessibilidades entre os concelhos da Nazaré, Alcobaça, Batalha, Porto de Mós, Leiria, Ourém e Tomar».