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“A iliteracia é o analfabetismo dos dias de hoje”

4 Maio 2023
Isidro Bento

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Isidro Bento

4 Mai, 2023

A iliteracia, ou seja, a incapacidade para ler ou interpretar o que é lido, é não só uma forma moderna de analfabetismo, como um fator muito importante para a emergência da extrema-direita populista na Europa, defendeu o historiador Fernando Rosas, no decorrer da quinta conferência do ciclo Ditadura e Democracia: que História, Que Presente? Que Futuro?, promovido pelo Município de Porto de Mós no âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Questionado por um elemento do público, o historiador afirmou que «a iliteracia é o analfabetismo dos dias de hoje e está a surgir, em parte, pelas redes sociais e por um certo uso destas». «As redes dão uma falsa sensação de participação nas coisas e são uma forma radical de criar isolamento», referiu, acrescentando que «quando as pessoas deixam de ler ou perdem o hábito da discussão de viva voz», tornam-se na «clientela das novas formas de extrema-direita e de ditadura» que se manifesta pela «reação epidémica e simples, pelas formulações automáticas e pelo esmagamento do pensamento crítico». «Não é só o que a rede transmite mas o novo tipo de sujeito social que está a criar, o indivíduo que está nas redes e que se educa por elas e que é permeável à mentira, à demagogia, à falsa verdade e que, um dia, vai escolher os partidos por aquilo que é parecido com as redes sociais», denunciou. O combate não se adivinha fácil, mas Rosas não tem dúvidas de que «a escola é um campo de batalha fundamental». «O pensamento crítico só se faz através de uma escola que fomente a leitura, cruze opiniões, crie hábitos de discussão e de estar em maioria e em minoria», justificou.

Em resposta a outra pergunta, afirmou que «a Democracia é o melhor de todos os regimes imperfeitos», por ter «esta coisa essencial de que se as coisas estão mal, podemos falar delas, criticá-las e através do voto manifestar-nos». «O que é preciso é que a Democracia não bloqueie os instrumentos que regem as liberdades e a forma perversa de o fazer é, sem nós repararmos, essas coisas começarem a ser limitadas», defendeu. Numa clara alusão a André Ventura, do Chega, disse que, «quando um dirigente político diz que está a fazer política em nome de Deus, há qualquer coisa que está mal. Esses que agem em nome de Deus serão também os que em seu nome vão restringir as liberdades e utilizar práticas xenófobas, racistas e discriminatórias e comer a liberdade em nome da liberdade». «A liberdade é estarmos como estamos aqui, pessoas de esquerda, a falar e discutir a liberdade num concelho com uma câmara do PSD», frisou.

Portugal teve fascismo suave e ditador “poupadinho”?

Será que Portugal teve um fascismo “suave” como alguns historiadores defendem e Salazar seria tão «poupadinho» como se diz? «Há, de facto, uma corrente da historiografia que tende a apresentar o Estado Novo como uma espécie de fascismo benévolo e é claro que os regimes fascistas, historicamente, não são todos iguais, mas resultam sempre de uma aliança entre o fascismo plebeu que, como os abutres, pica a miséria, explora o medo e os destroços das crises sociais e económicas com tiradas de demagogia, e a elite de direita tradicional. No caso do Estado Novo, há claramente a predominância da direita conservadora tradicional fascizada», esclareceu.

Já a política de Salazar no controlo das finanças «era drasticamente parecida com a atual política de contenção orçamental, com a grande diferença de que não havia parlamento aberto a resmungar e ninguém piava porque aquilo era imposto. Por isso é muito mais difícil controlar as finanças em Democracia que em Ditadura», sublinhou. Salazar não seria, assim, o “poupadinho”, mas «um homem que desconfia do desenvolvimento industrial e que acha que a verdadeira virtude da raça vem da terra». E para os nostálgicos da economia salazarista uma outra nota: «Durante o Estado Novo, houve a estrita regulação da concorrência através da intervenção regulatória do Estado na fixação dos preços, na regulação das normas de concorrência e na comercialização, portanto, ao contrário do que defendem, não há mercado nisto», frisou.



“Manda quem pode, obedece quem deve”

Respondendo a outro interveniente que quis saber se os regimes se cansam ao fim de 48 anos (numa alusão à queda da ditadura mas também à atualidade), afirmou que se cansam «quando são mal governados, quando não respondem às necessidades nos domínios da habitação, da saúde, da educação, da segurança social», mas que não se deve «confundir a árvore com a floresta». «Se governa mal, temos a possibilidade de o trocar ou de o combater em liberdade. O que não podemos é confundir a justa, democrática e necessária crítica da governação, seja ela qual for, a qualquer condicionamento à liberdade de criticar, agir, comparar e de votar em liberdade», destacou.

A questão do analfabetismo puro foi também abordada, tendo Fernando Rosas dito que «Salazar fazia parte de uma elite política» que considerava que «manda quem pode e obedece quem deve», portanto, «mandavam os que sempre tinham mandado e obedeciam os que sempre tinham obedecido». Nessa medida, o ditador achava que «não era preciso alfabetizar o povo em excesso», bastava que soubesse ler, escrever e contar. «Essa coisa de alfabetizar o povo para o tornar soberano, vamos lá devagar. O povo não precisa de ser soberano, precisa é de ser bem governado e governa bem quem sempre governou. Era a ideia que vigorava e as coisas só começaram a mudar quando começou a industrialização nacional, nos anos 1950, e passaram a ser necessários especialistas em várias áreas», concluiu.

Os seis pilares em que assentou a longevidade da Ditadura

Como é que a Ditadura durou tantos anos? Foi a pergunta à qual Fernando Rosas tentou dar resposta na conferência, explicando com detalhe aquilo que, para si, são os seis fatores que justificam a longevidade do regime fascista. O primeiro assenta na violência preventiva, com «a supressão das liberdades, a proibição dos partidos e dos sindicatos livres, o fecho do parlamento e a interdição da greve», e na violência punitiva com a «repressão física dos opositores por via do recurso sistemático à tortura e à prisão sem culpa formada e por tempo indefinido». O segundo diz respeito «ao controlo político sobre as Forças Armadas», conseguindo que estas «ficassem às suas ordens, mantendo-as ao serviço das suas prioridades políticas e ideológicas». «A cumplicidade com a Igreja Católica», que se manteve durante muitos anos, e que gerou «uma união moral com o fito de recristianizar a nação e uni-la à nova ordem e dessa forma consolidar e e estabilizar o Estado Novo», é apontada como o terceiro fator. «O corporativismo enquanto regime e que levou à prática da supressão administrativa da luta de classes proibindo a greve, liquidando a liberdade sindical e silenciando a liberdade de expressão dos partidos», será o quarto. O «totalitarismo tendencial» surge como o quinto e diz respeito «ao projeto de fabricação social e ideológica de um homem novo, reeducado ou formado nos valores da nova ordem por organismos de propaganda e inculcação ideológica». O último tem a ver com «o consenso imperial gerado pelo colonialismo português» e que fez que só no início dos anos 1970 é que a luta contra o colonialismo e a guerra tivessem sido «trazidas pela esquerda radical e pela resistência católica para o centro da política antifascista em Portugal».

Foto | Isidro Bento

 

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