A madrugada que nos mudou a vida

12 Fevereiro 2026

28 de janeiro de 2026. 

Nessa madrugada foram poucos os que conseguiram dormir. A partir de uma certa hora, a forma como o vento soprava lá fora impedia qualquer tentativa nesse sentido. Trazia consigo uma força e uma intensidade que poucos alguma vez experienciaram, com um barulho estridente difícil de descrever.

Os números falam por si. Não muito longe daqui, em Monte Real, eram 5 horas, quando foi registada uma rajada de vento que ultrapassou os 178 km/h. A maior de todas, acredita-se, terá chegado aos 208 km/h e foi registada, quarenta minutos depois, em Soure. 

Durante minutos que pareceram horas, houve mesmo quem julgasse que ia morrer, que não iria sobreviver à força da Natureza. Uns esconderam-se, como puderam, ao mesmo tempo que pediam a uma qualquer força superior para que parasse com aquilo que parecia ser uma cena saída de um filme de terror. Os outros, mesmo com grande esforço, não conseguiam abstrair-se do barulho de tanta e tanta coisa a ser destruída.

No fim, o “filme” terminou mas o terror ficou. A maioria não teve coragem de enfrentar o gigante enquanto este, tal rei e senhor, vagueava pelas ruas sem ter quem lhe fizesse frente. Esperou, então, que amanhecesse para abrir a porta e espreitar lá para fora mas nem os piores pensamentos das últimas horas tinham preparado quem quer que fosse para aquilo que a luz do dia revelava.

À medida que o olhar vai percorrendo locais familiares, o pânico não demora a apoderar-se do corpo de cada um. E é fácil perceber porquê. Ninguém nos prepara para deixarmos de ver tanta coisa que existia em nosso redor e que eram de, algum modo, uma extensão do nosso ser: Casas devastadas, empresas dizimadas, árvores arrancadas, num rasto de destruição sem precedentes. O vento destruiu quase tudo por onde passou. Fez voar telhas com décadas, arrancou, pela raiz, árvores centenárias, arrasou empresas com os maiores alicerces, quase como se de castelos de cartas se tratassem. Mas o vento não levou só telhas, levou também vidas e sonhos que, nalguns casos, demoraram uma vida inteira a construir.  Muito do que nos caracterizava foi derrubado pelo vento. Não há uma única pessoa que não tenha sido afetada, uma única vida que não tenha sido sacudida pelo vento. 

A manhã do dia 28 de janeiro de 2026 foi madrasta para muitos e o que se viu nesse dia não se esquece. Gente desesperada, desnorteada, sem saber como reagir perante tamanha tragédia. Sentir que a força da Natureza, nos roubou a sensação de segurança que só o nosso lar nos traz, é desolador. É como se nem nos sentíssemos seguros naquele que foi, toda a vida, o nosso refúgio, o nosso porto seguro. E como se isso não bastasse, sair de casa e ver que a nossa terra, como sempre a conhecíamos, tinha sido fortemente devastada, perdendo muita da sua identidade, é duro e é uma sensação que tão cedo não nos sairá da memória. 

28 de janeiro de 2026 foi também o dia em que os que, como eu, nasceram mais perto do Pinhal de Leiria, caímos com as (poucas) árvores que resistiram ao grande incêndio de 2017. As que não caíram, muitas foram literalmente decapitadas, à semelhança daquilo que aconteceu em São Jorge, junto ao CIBA. Nesse dia, para tantos, morreu também a réstia de esperança de um dia ainda poder ver o Pinhal do Rei nem que fosse um bocadinho parecido àquilo que foi um dia. Percorrê-lo hoje é como abrir uma ferida com quase 10 anos, uma dor dilacerante, difícil de suportar. Esta nova tragédia (com consequências ainda mais devastadoras) num povo, por si, já frágil e melindrado é como se acabasse de ter sido assinada a sua sentença de morte. 

Quem seremos nós depois desta tragédia que afetou toda a nossa região? Acredito que é difícil conseguirmos continuar a ser os mesmos. A mudança torna-se inevitável quando existe a certeza que a nossa terra, como até aqui a conhecíamos, nunca mais será a mesma. 

O mundo parou só para alguns 

Depois da tempestade não veio a bonança. Antes pelo contrário, depois da tempestade veio outra tempestade. A tempestade de vivermos em constante alerta e sobressalto. Sem água, sem luz, sem comunicações, completamente isolados de todos. A tempestade colocou uma grande maioria numa situação de extrema vulnerabilidade e profundo isolamento. Uns ficaram à sua própria mercê, outros à mercê da sorte e outros, daqueles que não tiveram medo de ir percorrer o desconhecido, em busca dos mais necessitados. 

Ao mesmo tempo que uns fizeram das tripas coração para levar a ajuda a quem mais precisa, outros dedicaram a sua energia a fazer o mal, a roubar, sem quererem saber a magnitude das consequências que tal ação poderia ter, sem quererem saber quem iriam atingir.

Nos últimos dias, acordar tem sido doloroso. Basta uma rajada de vento mais forte para rapidamente voltarmos àquela fatídica madrugada. Portugal que é conhecido por ter um dos melhores climas, tem estado a braços com tempestades sucessivas, que não dão descanso a quem ainda tenta recuperar de uma de nome Kristin. Como se isso já não bastasse, uma parte do país enfrenta agora um período de cheias que tem colocado milhares de pessoas em sobressalto constante, com medo de perderem o pouco que ainda lhes resta. 

16 dias depois da tempestade, há ainda milhares de pessoas sem luz e outras tantas sem comunicações. Como é possível, em pleno século XXI, conseguir viver-se assim? Não se vive, sobrevive-se, dizem. Esta continua a ser a realidade de milhares de famílias que lutam há dias a fio por sobreviver, sem descanso, sem ânimo, sem saberem como será o seu futuro, mas enquanto isso o resto do país foi votar para as eleições presidenciais, como se os votos destas não importassem para a contagem final, como se esse seu direito não tivesse relevância para o resto do país. Vão votar no final desta semana, quando já sabem quem é o presidente da República que as há-de representar durante os próximos cinco anos. Bem sei que a lei não o permite. Mas quando o facto de uma parte da população não poder ir exercer o seu direito de voto não for argumento suficientemente forte para alterar a lei ou arranjar outra qualquer solução alternativa, colocando todos os portugueses em pé de igualdade, acho que estaremos todos perdidos enquanto sociedade.