A sala de aula é um reflexo da sociedade

by | 29 Dez 2020

Escrevi estas palavras há dois anos: «Tão bom. Recordou o recreio, cruel e marginalizador. Os olhares que não esquece, eu senti-os também. Tantos somos os que não esquecem. Há sempre um dia em que regressamos às brincadeiras onde não nos deixaram ser parte. A integração regulada pela hierarquia de beleza. As respostas imaginadas na cabeça. Mas se dessa experiência a Ana Bacalhau construiu esta alma bonita, o que temos de temer? Somos “pequenos detalhes” invisíveis para muitos». Na altura, a cantora, conhecida por muitos, falou, numa entrevista, sobre o facto de se ter sentido, em grande parte da sua vida, deslocada. Quantos de nós já sentimos que não pertencíamos a um contexto ou a um lugar? Mas uma coisa é certa, há sempre um dia em que percebemos o porquê, em que tudo se alinha. Dói-nos muito sentir que não nos deixam entrar no seu mundo, mas há um dia que encontramos as nossas pessoas. As pessoas que dão sentido aos pensamentos que guardávamos apenas na nossa cabeça e que nos pareciam exclusivos da nossa perceção. A idade traz a calma para percebermos que não podemos nem queremos ser consensuais para todos. Que não podemos pertencer a todos os grupos. Que é tão bom “pertencermos” a quem nos conhece. A quem um olhar basta para nos ler a alma. Mas até entendermos isso, era muito melhor que não fossem feitas distinções. Que nos deixassem viver a nossa verdade sem que não parecesse errada. Entendemos depois, mais tarde, tudo o que vivemos. Até lá, até que as feridas se curem, pergunto-me que mazelas pode deixar numa criança que o próprio professor faça distinção entre alunos dentro da sala de aula? A sala de aula é um reflexo da sociedade, em que nos distinguem se o nosso pai é varredor de ruas. Na sala de aula, como em todos os sítios, todos deveriam ser filhos do mesmo pai.
O que nos define vai além do canudo que a universidade nos dá. Nada tem a ver com a roupa que vestimos ou com o carro que conduzimos. No fim, dura e cruelmente, todos somos apenas e só um corpo que morre. Pouco importa o que deixamos fisicamente, porque o que se mantém vivo de nós é o que demos aos outros emocionalmente. Então, na sala de aula, como nos outros sítios, que não se distinga a criança porque o seu pai não veste fato ou porque não é, para nós, a mais bonita. Que não se valorize apenas a criança que tira as melhores notas nem se olhe com desdém para a que tem excesso de peso. Que não se repare na roupa repetida ao longo da semana. Sabemos pouco sobre a dificuldade que foi ter a possibilidade de comprar aquela camisola. Não interessa se vestimos e calçamos marcas reconhecidas. São palavras, apenas isso. Não somos menos porque somos calados, porque o que interessa é o que pensamos dentro da nossa cabeça.
Mais importante, devemos questionar-nos. Quanta sabedoria tem um agricultor que sabe quando deve semear e colher os produtos? Quanto engenho tem a costureira que dá ponto por ponto de uma forma quase perfeita? Quanta mestria tem o pedreiro que põe pedra por pedra e que nos constrói a casa, o lar? Quanto talento tem a cozinheira que sabe exatamente o sal que deve pôr para que a comida nos saiba a conta certa? Não são todos filhos do autarca. Não são todos filhos do médico, do advogado, do professor. Mas uma coisa é certa: são todos filhos de gente, com história e com valor. Com sabedoria. Com vida. São muitos os que se levantam todos os dias para dar aos filhos o melhor de si, o melhor que sabem. Ser pai, ser mãe, essa sim é uma profissão desafiante, e não há curso que nos ensine a ser melhores pessoas ou melhores pais. Isso, nasce com cada um de nós.