«A falta de profissionais de saúde, em especial de médicos, é talvez o maior problema que temos neste momento no concelho». Quem o diz é o presidente da Câmara, Jorge Vala, em declarações a O Portomosense. «É um problema muito grave, mas muito grave mesmo e eu não vislumbro resolução a curto prazo», sublinha.

Jorge Vala, confessa que a instabilidade [em termos de permanência nos respetivos lugares] dos profissionais de saúde é uma coisa que não consegue compreender e para a qual não tem tido respostas. «As respostas são vagas. São justificações em algumas situações completamente generalistas e sem podermos, sequer, dizer à população que vai passar a ter médico de família, por exemplo».

O autarca é perentório em afirmar que «a questão da saúde no concelho já esteve má mas nunca esteve tão má quanto está atualmente» e para ilustrar isso mesmo aponta uma a uma as situações em que a falta de médicos e de enfermeiros é uma realidade: «Temos uma médica em Porto de Mós que rescindiu contrato e três médicos de baixa prolongada (em Porto de Mós, Alqueidão da Serra e Arrimal/Mendiga). Neste momento, o Centro de Saúde de Porto de Mós tem dois médicos e um deles apesar de estar a trabalhar penso que estará à beira da reforma. Em Serro Ventoso, ainda não foi renovado o contrato do médico e então está sem ficheiro e nem sequer está a acompanhar doentes COVID-19 enquanto aguarda a renovação. Em Mira de Aire e no Alqueidão da Serra falta uma enfermeira».

Quem está sem médico, nomeadamente de Alqueidão da Serra e Arrimal/ Mendiga tem de se deslocar ao Centro de Saúde de Porto de Mós para obter receituário e isso, segundo, Jorge Vala, também não é missão fácil porque os dois médicos que estão ao serviço «apesar de terem muito boa vontade, têm também os seus próprios ficheiros (e não podemos esquecer que em Porto de Mós há quatro ficheiros e só dois médicos neste momento) e isso obriga a que as pessoas tenham que esperar horas ou não ter atendimento nesse dia». Portanto, realça, «é uma situação completamente desajustada das necessidades das pessoas e essa é que é a nossa preocupação porque estamos a falar de uma população envelhecida e com problemas».

A tempestade perfeita…

«Depois, para culminar, temos o coordenador do UCSP de Porto de Mós que está demissionário desde agosto. Não abandonou as funções mas obviamente não assume da mesma forma como se estivesse em efetividade. É um excelente profissional e estamos a colaborar com ele, tem feito um trabalho excecional e temos que lhe agradecer a entrega e a responsabilidade para com o serviço mas, volto a dizer, está demissionário e carece de ser substituído. Por quem? Essa é que é a pergunta uma vez que a UCSP está reduzida a três médicos em Mira de Aire e dois em Porto de Mós, reforça o autarca.

Para piorar a situação ou, nas palavras de Jorge Vala, «para ser a tempestade perfeita», a delegada de saúde está de baixa médica e o responsável autárquico diz não saber «por quanto tempo será» mas não tem dúvidas que esse é outro grave problema. «Podemos dizer que neste momento a situação em termos de COVID-19 no concelho está descontrolada. A saúde está a responder no imediato às situações que são comunicadas mas nós temos recebido telefonemas de muitas pessoas que testaram positivo e entraram em auto-confinamento porque ninguém as contactou. Percebo que o ACES Pinhal Litoral não tenha capacidade para chegar a todo o lado mas, infelizmente, é a situação que temos», diz.

Pese embora a comprovada falta de médicos, «para o próximo concurso médico de segunda época foram solicitadas quatro vagas para a UCSP de Porto de Mós mas só foi atribuída uma», algo que deixa Jorge Vala revoltado porque «há esses médicos todos que vão estar imenso tempo fora e outros que saíram mesmo e uma coisa é termos quatro vagas abertas e só se conseguir preencher uma, e outra é precisarmos de quatro pessoas e só nos darem uma vaga», refere acusando o Ministério da Saúde «de total responsabilidade» neste caso.

Conselho Municipal da Saúde discute problema

Depois de reunir com a associação de utentes, Ur’Gente, e tal como tinha prometido na Assembleia Municipal, o autarca marcou uma reunião do Conselho Municipal da Saúde, que decorreu no passado dia 10, para analisar a situação e definir medidas «para fazer chegar a quem de direito todas estas preocupações». O autarca mostra-se convicto de que «esta é uma situação que carece de um processo político diferente daquele que tem sido conduzido até aqui». «Dizem-nos que Porto de Mós está servido mas, efetivamente, não está. Se há médicos de baixa e ninguém para os substituir, então, de nada vale o lugar estar criado. Assim vamos ter de certeza absoluta no próximo ano, no concelho, milhares de pessoas sem médico de família», frisa

E qual é a razão para só ter sido aberta uma vaga? Resposta imediata de Jorge Vala: «Terá de perguntar ao secretário de Estado. Nós já enviámos cartas ao ACES, à ARS Centro e ao secretário de Estado com todas estas preocupações [relativas à falta de recursos humanos] e a resposta do ACES, ao dizer que só foi atribuída uma vaga no concurso para o concelho ainda veio acentuar mais a nossa preocupação».