«Há pessoas que não tenho dúvida nenhuma que terão uma dificuldade tremenda em fazer o verdadeiro luto, porque nem sequer viram o corpo do defunto para poderem dizer: “ok, vais partir, despedi-me de ti”», esta é uma das consequências que Reinaldo Virgílio, agente funerário, prevê que possam advir da forma como estão a decorrer as celebrações fúnebres, devido à COVID-19. O velório já não se realiza, a cerimónia, muito mais pequena, acontece no próprio cemitério, restrita aos familiares mais próximos, num máximo de 10 pessoas e os familiares, na maior parte das vezes, não podem ver nem tocar no corpo de quem parte.

No seu trabalho, Reinaldo Virgílio viu-se obrigado a uma reinvenção, admitindo que «o medo» é uma constante. O agente acredita que, o facto de as pessoas estarem cientes do problema e «serem bombardeadas» todos os dias com todas as medidas de proteção, facilita a aceitação: «Neste momento quando lhes dizemos [aos familiares] que os corpos não podem ser expostos, que não há velório e que a cerimónia do cemitério é com poucas pessoas, as pessoas acabam por perceber logo porque já estão sabedoras, não é só com eles que isto está a acontecer». Esta aceitação não evita, no entanto, que se sintam «frustrados, com o sentimento de não se poderem despedir como queriam dos seus entes queridos». Isso tem levado até ao sofrimento por antecipação, conta Reinaldo Virgílio, que já recebeu telefonemas de quem tinha um familiar num estado saúde debilitado, perguntando ao agente se, no caso de falecimento, «poderia abrir uma exceção e permitir que se visse corpo», confidencia. Estas exceções «não existem nem podem existir», no entanto o agente percebe a «frustração» pela qual as pessoas estão a passar.

Entre as mudanças no seu trabalho diário, Reinaldo Virgílio destaca o serviço de tanatoestética (processo de preparação estética do falecido), porque acredita que esse trabalho é fundamental no processo de luto: «Quando um corpo pode estar em velório, a minha preocupação é dar-lhe a maior naturalidade, e para isso há todo um trabalho de preparação que neste momento não pode ser feito». Esta questão «faz parte do sentido de servir» ao acreditar que esta última imagem que os entes queridos vêem do falecido tem que ser «o mais parecida possível» com aquilo que em vida conheceram, porque essa imagem vai perpetuar-se na memória futura.

A identificação do corpo é hoje feita também pelo agente funerário, uma vez que a família não pode, em todo o processo, contactar com o corpo. «Nós, como estamos em meios pequenos e eu conheço muita gente, é fácil identificar um corpo, mas quando existe dificuldade, tem que ser através de uma fotografia por exemplo», explica, acrescentando que tudo é feito «de “fato-macaco” completo, máscara, viseira, luvas, protetor de sapatos e touca». «Vamos protegidos como se fossemos astronautas, apenas para fazer o levantamento do corpo, tudo mudou na nossa atividade», frisa. As normas mudaram também noutro aspeto, obrigando a que o levantamento do corpo nos lares, residências e hospitais seja feito no próprio dia, o que para agências que «não tenham conservação de cadáveres é complicado». Para Reinaldo Virgilio este processo tem sido muito complicado, até porque faz o exercício de se colocar «na pele dos outros». Embora esteja do «lado comercial», procura sempre dizer às famílias que quer que o vejam «como um amigo», que tenta, a partir do seu trabalho, acalmar a dor.

Encontrar outras formas de estar perto

José Costa é também agente funerário, mas tem uma realidade um pouco diferente a retratar. Na sua agência estão a ser utilizadas «urnas em vidro», por isso, até ao momento, nos funerais que realizou, todos os familiares presentes, puderam «estar com o corpo, embora através do vidro». Apesar de não ser possível velar o corpo, e o número de participantes na cerimónia ser restrito, esta possibilidade, acredita, pode trazer alguma paz porque «existe uma referência, há o reconhecimento do corpo». Ainda assim, nalguns casos, os falecidos «estavam hospitalizados e estando as visitas proibidas, não existiu qualquer acompanhamento» em todo o processo até à morte. Esta realidade, considera, dificulta o processo de luto.

O agente conta ainda que «todos os falecidos» que foi «buscar ao hospital não foram referenciados como COVID-19 e por isso acabou por ser um procedimento normal». Tudo o que se segue é que foge totalmente à normalidade: não há velório, são apenas quatro ou cinco familiares na celebração, feita no próprio cemitério. Ainda assim, José Costa, confidencia que as pessoas têm arranjado formas de sentirem que estão a fazer «uma última homenagem» aos que partem. «Às vezes estão nos seus carros à porta do cemitério para ver o corpo chegar, ou então seguem o percurso do carro fúnebre quando sabem as horas do funeral. Como conhecem o percurso que fazemos, às vezes saem à rua para ver passar», conta. Também as novas tecnologias têm servido para atenuar a ausência, embora José Costa reconheça que já eram utilizadas antes da pandemia, por exemplo, «para quem estava no estrangeiro» e não podia estar presente. Mas, «para os idosos, esta realidade é mais complicada de aceitar» e na maior parte das vezes, são eles, que fazem questão de estar, nem que seja à porta de casa, a ver, pela última vez, passar quem estimaram até ao fim dos seus dias.

Quando tudo passar, falecidos serão lembrados nas celebrações

Padre das paróquias de Mira de Aire, Alvados e São Bento, Luís Ferreira tem encarado como «algo excecional» a forma como se estão a realizar as cerimónias fúnebres, reconhecendo que é «uma situação muito difícil para as pessoas a quem parte alguém». A cerimónia realizada no cemitério, a Última Encomendação, tem também uma oração própria dedicada «a todos aqueles que gostariam de estar presentes e não podem estar», explica. Acaba por ser, admite o pároco, «uma celebração mais diminuta e mais sofrida pelos familiares mais próximos».

«Graças a Deus», liberta Luís Ferreira, ainda não realizou muitos funerais neste período e em todos eles «se sentia a dor e experiência difícil de não ter ali as pessoas mais próximas», no entanto houve um funeral «de uma pessoa muito conhecida em Mira de Aire» que em condições normais «teria muita gente à sua volta, tendo agora apenas sete ou oito pessoas». Estas dicotomias entre o que seria a realidade e o que está de facto a acontecer não são fáceis de ultrapassar, mas o padre tenta atenuar a dor. «Recordo sempre nas celebrações que faço online as pessoas que partiram para as pessoas que assistirem também recordarem essa pessoa», explica, frisando também que deixa uma garantia: «Comprometemo-nos todos juntos, mais tarde, quando for possível, a celebrarmos e recordarmos este nosso irmão e irmã que partiram. É o modo de conseguir minimizar, o quanto possível, esta experiência dolorosa».