António Santos, 64 anos
Alqueidão da Serra
Reformado

O que mais me custa é o distanciamento social. Estávamos habituados a uma convivência totalmente diferente, tenho saudades do meu neto, da minha filha que está confinada em Lisboa. O meu filho, felizmente, de vez em quando passa por aqui com o miúdo mas é esquisito e o miúdo acha estranho que o avô não o abrace, não lhe dê um beijinho. São coisas que nos provocam algum desconforto. No entanto, vou procurar cumprir com aquilo que acho fundamental dentro do que são as orientações das autoridades sanitárias. Isto é um vírus de tal maneira complicado e perigoso que não sabemos onde o podemos encontrar.
Quanto ao uso da máscara, é com facilidade que o faço, aliás, comecei a fazê-lo muito cedo, porque apesar do confinamento, há necessidades básicas que temos que cumprir, nomeadamente ir às compras. A minha esposa está a trabalhar, portanto vou eu e quando entro num supermercado é de máscara e luvas. Procuro não usar os carrinhos, embora já tenha visto boas práticas num ou noutro supermercado, nomeadamente ver alguém a desinfetá-los. Levo sacos próprios, evito colocá-los no chão e evito, inclusive, pô-los no tapete rolante do supermercado.
Considero que é preciso agir, manter, cuidar e é preciso viver numa situação de anormalidade. As pessoas não estão preparadas, estamos todos ansiosos para dar o “grito do Ipiranga”, mas nós não conseguimos, como fazem os orientais, viver o dia-a-dia com uma máscara… Não estamos preparados para isso.

Mário Bento, 80 anos
Calvaria de Cima
Mediador de Seguros

Nos últimos dois meses, praticamente não saí de casa e penso que vou continuar assim. Nem ao escritório fui ainda, estão lá os sócios e o pessoal a trabalhar, mas eu, por ser de risco, não vou lá, vou trabalhando pelo telefone para me entreter, porque para quem está habituado a contactar com as pessoas, não é fácil estar aqui sozinho e calado. Não acredito nestas facilidades que estão a dar agora. Algumas pessoas podem perceber bem o alcance das medidas, mas não vão cumprir porque não têm capacidade de sofrimento para aguentar. Outras são indisciplinadas por natureza, vão julgar que já está tudo em liberdade e podem avançar. Por isso, aqueles que são mais de risco, como eu, devem abster-se de entrar nessa ideia de “isto é tudo nosso”. Para mim, [passar de Estado de Emergência a Calamidade] não vai alterar nada, mas em relação aos outros, estou certo de que isto vai ser a “República das Bananas”.
Acho que a sociedade não está preparada por dois motivos. Primeiro, pela sua própria indisciplina, que é natural. Em segundo, pela parte económica, isso faz muita diferença. Não se sentiu ainda, só passaram dois meses, há sempre um fundo de maneio que permita às pessoas subsistirem, mas depois começa a ser difícil e vai haver necessidades que não são fáceis de ultrapassar, nem através da solidariedade, das instituições, ou do Governo. Não vai haver capacidade para aguentar se for muito mais tempo. O cenário é pior ainda se houver reedição da pandemia, se houver uma segunda vaga vai ser complicado, não estamos preparados para isso minimamente.

Rita Caetano, 22 anos
Juncal
Técnica de Turismo

Estou a trabalhar em casa porque no turismo está tudo parado, estamos a preparar o próximo ano. Vai ser difícil voltarmos a trabalhar com confiança na área do turismo, trazermos para cá os turistas e conseguirmos implementar-lhes as medidas que temos aqui, porque as culturas são diferentes. Eles estão a pagar para estar cá, mas têm de seguir as medidas. Se conseguirmos abrir um bocadinho o turismo no final do ano, acho que vai ser difícil lidar com algumas pessoas que possam não querer tomar essas medidas e nós vamos ter que as obrigar a usar máscara, a estar mais afastadas, é algo a que não estamos habituados.
Terminado o Estado de Emergência, eu e a minha mãe vamos manter-nos a trabalhar em casa, temos todas as condições para isso. O meu pai tem uma loja de eletrodomésticos que está fechada, faz o atendimento de uma pessoa de cada vez, que pede para entrar, desinfeta as mãos, não há contacto direto de quem atende com os clientes.
Em termos da atividade física, temos tentado treinar o máximo de dias possível em casa e depois, mais ou menos uma vez por semana, fazemos uma volta na rua, longe de toda a gente. Temos tentado manter os treinos mais por casa também pela questão do risco de acidente porque ninguém quer ir parar ao hospital nesta altura. Agora, vou começar a fazer mais alguns treinos na rua, sozinha.
As idas ao supermercado são apenas feitas pela minha mãe e não estamos a fazer a desinfeção dos produtos todos. Já pensámos nisso, fizemos talvez uma vez, mas com os estudos que saíram e não havendo provas que a contaminação seja feita pelos produtos, temos só mais cuidado com os frescos, as frutas e os legumes, que lavamos sempre melhor.
Sinceramente acho que não estamos preparados [para viver assim mais uns tempos]. Isto é tudo muito estranho para nós, mas melhor ou pior vamos ter de nos adaptar. Vai demorar se calhar um bocadinho mais de tempo do que noutros países que já têm uma cultura diferente. Temos que deixar de ser latinos e passar a ser um pouco mais orientais e ter uma cultura com mais ordem, mais disciplina.

Ana Rute Moreira, 52 anos
Alcaria
Professora de Yoga

A utilização da máscara é mesmo o pior, não só pelo incómodo, mas também porque me faz um pouco de impressão ver as pessoas descaracterizadas, como se não tivessem cara. [Em termos de conforto], ainda não está muito calor por isso ainda não faz muita diferença usar, mas acredito que quando estiver mais calor não vá ser fácil.
Vou de 15 em 15 dias às compras, compro mais coisas para me manter mais tempo sem ir ao supermercado. O que eu acho mais importante é tratarmos do nosso sistema imunitário, não vale a pena termos muito medo, porque se tiver que acontecer não podemos fugir. Obviamente que uso as luvas, a máscara, chego a casa e tiro os sapatos – mas era algo que já fazia antes –, lavo as mãos… Tenho mais consciência dos cuidados que devo ter, mas não vivo com medo disso, tento é investir no meu sistema imunitário, comer melhor, apanhar mais sol, tomar os suplementos de vitaminas, porque acho que passa um pouco por aí, acho que se estivermos bem, o vírus não há-de cá chegar com a mesma facilidade.
Tinha um espaço aberto em Leiria [onde dava aulas], optei por fechar e mantenho-o fechado porque é muito pequeno e não ia poder ter mais do que três ou quatro pessoas de cada vez, quatro já seria, se calhar, arriscado. Como as aulas de yoga são de grupo, ainda não podem ser feitas, ainda não saiu legislação sobre isso… Entretanto vou desenvolvendo cursos online. Estou a ver, um pouco, como as coisas vão correr porque quando falta o dinheiro, há coisas que as pessoas cortam primeiro e acredito que vá faltar algum dinheiro brevemente…
A sociedade não está preparada para viver com estas condicionantes. As pessoas vão querer agarrar o que tinham, voltar ao que era e eu acredito que isto não vai ser o que era, nunca mais. Acho que vamos mudar o paradigma, a forma de estar na vida. A mim custa-me um pouco, já, não cumprimentar as pessoas com um beijinho quando chegamos, se calhar vai ser assim durante os próximos meses ou anos e é um pouco estranho. E isso é o mais simples.