Caro leitor antes de continuar a sua leitura, um aviso prévio e importante: algures nesta página e na seguinte será confrontado com algumas passagens que poderão constituir um violento “murro no estômago” mas há verdades que por mais duras que sejam, não devem ser escondidas e a violência sexual sobre crianças é uma delas.
Como referiu Rute Agulhas, psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça, e coordenadora do Grupo VITA na palestra que proferiu em Porto de Mós no passado mês de novembro, «trata-se de uma temática tão premente que não podemos ignorar, fazer de conta que não existe. É incómodo? É! É um tema difícil? É! Tira o sono a muita gente? Tira!», mas só conhecendo a realidade por mais crua e brutal que seja é que se pode apostar na prevenção ou, nos casos em que essa já de nada valha, denunciar as suspeitas (ou as certezas) sobre determinada situação em que uma ou mais crianças possam estar a ser vítimas de violência sexual.
«Dados da Polícia Judiciária e o próprio Relatório Anual de Segurança Interna dizem-nos que todos os anos é uma problemática que está a aumentar em termos de sinalização». Provavelmente, «não haverá um aumento de casos» mas estar-se-á, sim, «a conseguir tornar mais visíveis estas situações que se pautam pelo segredo, pelo encobrimento, e que acontecem entre quatro paredes, sem testemunhas», diz.
Rute Agulhas lembra que todos «somos vizinhos, familiares, cidadãos» portanto, sempre que alguém sabe ou tem fortes suspeitas de abuso sexual deve sinalizá-lo» junto da Polícia Judiciária ou do Ministério Público. E não, não se espere para ter certezas absolutas porque «os abusos não acontecem ali no meio da rua, à vista de todos», avisa.
“Temos muitos meninos de 8, 10 anos a consumir pornografia e há um aumento muito significativo de violência sexual perpretada por jovens de 13,14, 15 anos.”
Além de não ser um problema residual, os seus efeitos não se ficam pelo curto prazo, há impactos também a médio e longo prazo e os casos de abusos sexuais no seio da Igreja Católica mostram isso mesmo: «Há pessoas abusadas há 30 ou 40 anos e que hoje têm 60, 70, 80 anos e que apesar de terem passado tantos anos se mostram ansiosas, deprimidas (algumas com tentativas de suicídio), com imensos problemas ao nível do sono, dificuldades sexuais e com uma enorme desconfiança face ao outro», revela.
Hoje já não existirá o mito que Rute encontrou há 27 anos quando iniciou a sua carreira de que «estas coisas só acontecem em Lisboa e no Porto», mas a verdade, diz, é que há «ainda muito desconhecimento sobre esta problemática e aquilo que envolve».
«Temos muitos meninos de 8, 10 anos, a consumir pornografia e verifica-se também um aumento muito significativo de violência sexual perpretrada por menores. Estamos a falar de jovens de 13, 14, 15 anos que muitas vezes começam pela pornografia por ser de fácil acesso. Depois quando lhes perguntamos o porquê, respondem que queriam experimentar. E com quem? Com quem está ali à mão… o irmão mais novo, o colega da escola, o primo…», refere a psicóloga realçando que «estes abusos entre pares são cada vez mais expressivos».
«Há mais de 10 anos que há um pico de casos em crianças entre os 8 e os 13 anos» mas o que é verdadeiramente assustador, segundo Rute Agulhas, é que «está a crescer de ano para ano, embora lentamente, o abuso sexual dos zero aos 3 anos de idade e essa criminalidade já atinge 5% do total dos casos». «Pode-nos parecer pouco mas corresponde a milhares de processos», frisa.
«As crianças nestas idades são as vítimas perfeitas porque ou não falam, ou quando falam não as percebemos ou, também, porque misturam a realidade com a fantasia, portanto, como o testemunho não é válido em tribunal, ou há prova física ou não há nada», diz.
Outro dado muito preocupante é que quando falamos em crianças dos zero aos três anos de idade, estamos a incluir «o abuso de bebés de poucos dias ou com 1 ou 2 meses», sublinha. Ora, «uma criança tão pequenina (até aos 3, 4 anos de idade) se for alvo de penetração completa, morre», reforça.

A especialista conta a propósito que um dos casos que mais mexeu consigo ao longo destes quase 30 anos de prática clínica é muito recente. Trata-se de um rapaz de 21 anos que começou a consumir pornografia infantil aos 11 anos, passando depois a produzir conteúdos e a disponibilizar e a trocar os ficheiros na internet até ser detido pela Polícia Judiciária. «Confesso que ao ler o despacho de acusação em que há a descrição detalhada dos vídeos, fiquei com náuseas, quase a vomitar, e não é muito fácil um caso mexer assim comigo mas a maioria era com crianças recém-nascidas em que alguém lhes fazia sexo oral ou anal» conta.
E se há gente que se excita sexualmente com situações como estas, há quem procure o mesmo mas num contexto bem mais simples e corriqueiro, por exemplo, na praia. «Vamos a uma praia ou a uma piscina e o que vemos? Crianças pequeninas nuas ou semi-nuas porque não têm maminhas nem pêlos. É uma situação inocente, pensam muitos pais. Mas é essa ausência de maminhas e de pelinhos que gera desejo em muita gente e nem imaginam a quantidade de pessoas que se vão masturbar para as praias porque estão ali a ver crianças, gratuitamente. E o problema não é (só) esse mas o captarem imagens ou vídeos que depois, claro, já sabemos onde é que vão parar e com que fim», exemplifica a especialista.
Para Rute Agulhas há aqui também um problema de falta de coerência de alguns pais porque se ensinam, e bem, as crianças que há zonas privadas do seu corpo que não são para ser vistas nem tocadas por outras pessoas, não fará sentido que depois na praia sejam os próprios a deixar andar os miúdos sem roupa.
Entre os vários mitos associados à violência sexual está aquele que diz que “só os homens é que abusam de crianças e jovens”. «É verdade, de facto, que há uma percentagem muito maior mas, se calhar, há muitas mulheres que também o fazem mas que não são apanhadas. Em 27 anos já me passaram milhares de casos pelas mãos, já lhes perdi a conta, mas em contrapartida, lembro-me de todas as situações com mulheres, desde a mãe que engravidou do próprio filho, a casos a envolver avós, tias, madrinhas, irmãs mais velhas, primas, e até uma freira», dá como exemplo.
“Não são só os homens, temos também mulheres que cometem abusos sexuais de menores”
«Ainda associamos muito a mulher à ideia de protetora e cuidadora e dizemos: “Por amor de Deus, uma mãe, uma avó fazer isso?” Pois, mas algumas fazem-no, mas passa muito mais despercebido. Se uma criança vos disser que dorme com a avó, talvez não valorizem mas se for com o avô, aí, talvez já haja uma pulguinha atrás da vossa orelha e se comecem a questionar…», refere.
Há, então, que olhar para esta realidade «com outros óculos» porque «não há só abusadores homens. A pessoa abusadora não obedece à ideia de “feios, porcos e maus” e muito menos tem escrito na testa, pedófila». «Além disso, podem ser da nossa família, do grupo de amigos e conhecidos. Pessoas em quem confiamos, casadas e com filhos»…
A maioria das pessoas que abusam de crianças não vão atrás como se andassem à caça, preferindo, antes, construir uma “teia” à sua volta. «Agem de forma muito lenta mas muito precisa, sem pressas, à espera que a vítima caia. Identificam uma criança, estabelecem com ela uma relação de confiança, fazem-se passar por amigos especiais, confidentes, fazendo-a crer que só elas é que a compreendem e só nelas é que podem confiar». A estratégia de isolamento da criança passa, ainda, muitas vezes, «por ameaçar a vítima» de que algo de mal pode acontecer a esta ou a pessoas que lhe são próximas, se contar a alguém, explica a psicóloga.
Quando o contacto é feito pela internet, este acontece em redes sociais (como Tik Tok e Instagram, grupos do Whatsapp, Teams), ou em chats de videojogos onde a pessoa abusadora anda, literalmente, “à pesca”. «Entram com perfis falsos, fazem-se passar por alguém da mesma faixa etária, depois começam a meter conversa. Muitas vezes mandam perguntas para o grupo e depois consoante as respostas, já em privado, lançam o isco. «Quando já estão numa relação de um para um, em média, a pessoa abusadora demora 19 segundos para começar a pedir ou enviar fotos sem roupa ou conteúdos pornográficos. Quem faz isto com um miúdo faz com vários e há sempre quem caia, é uma autêntica rede de pesca», acrescenta, Rute Agulhas. Conseguidas essas fotos ou vídeos «surgem as ameaças de que se não fizer aquilo que a pessoa quer, irá partilhá-los com os pais da vítima».
Apesar dos perigos que correm, policiar os filhos na internet não será a melhor solução porque muitos miúdos «em vez de um, têm dois telemóveis, e se os pais os seguem numa conta nas redes sociais, criam uma segunda ou terceira onde eles não estejam». Assim, a estratégia deve ser, antes conversar, sensibilizá-los para os perigos e a forma como se podem defender, no entanto, Rute Agulhas, reconhece que a missão é difícil até porque «arranjam sempre forma de andar um passo à frente dos pais e colocá-los numa espécie de redoma também não é solução».
“Deve-se explicar às crianças que o corpo é seu e não é qualquer um que chega e pede para ver ou mexer”
«Prevenir não é uma vacina. Era bom mas não é», frisa Rute Agulhas, psicóloga clínica com larga experiência no acompanhamento de situações de violência sexual sobre crianças e jovens. Falar sobre o assunto e com linguagem adaptada a cada idade é o primeiro passo mas não se espere pela adolescência, há cada vez mais crianças abusadas muito novinhas», avisa. Para a especialista, deve-se aplicar a estratégia dos 3´Rs: Reconhecer, Reagir, Revelar. «Agora é o próprio Vaticano que vem recomendar que sejam dadas ferramentas às crianças para saberem reconhecer situações de risco e para pedirem ajuda», refere como exemplo.
Ao nível das organizações há todo um conjunto de regras mas «as pessoas também devem ter formação para saberem identificar situações de alarme». Por outro lado, «a sensibilização não deve concentrar-se apenas em ações isoladas uma ou duas vezes por ano», lembra.
«E não chega olharmos para a escola, o clube ou a igreja e pensar que são sítios seguros só pelo facto de haver agora um código de conduta, por se trabalhar de porta aberta ou tentarmos que não haja interações de um para um, é preciso envolver também as crianças de forma ativa nesse processo», defende.
Uma das primeiras medidas é explicar à criança «que o corpo é seu e não é qualquer um que chega ali, toca, fotografa e pede para ver ou para mexer em partes privadas». Só que aí há logo um problema: «só para o pénis e para a vulva, podíamos ficar aqui 30 mil anos para identificar todos os nomes pelos quais são conhecidos. Sei de uma educadora de infância que carregou durante meses uma culpa enorme porque uma menina lhe dizia que o tio lhe lambia e mexia na “bolachinha” e ela nunca percebeu do que é que a criança estava a falar. A culpa não está em quem não conhece mas em quem não ensina às crianças (também) o nome científico», afirma a psicóloga.
Outra questão é a dos segredos. «Temos que explicar aos mais pequenitos que há segredos bons e maus e aos mais crescidos que há segredos seguros e inseguros. Um inseguro será aquele que nos faz sentir coisas desagradáveis seja a nível físico ou emocional (dores de barriga, dificuldade em dormir, tristeza, raiva, culpa, vergonha…). Portanto, os segredos inseguros devem ser contados.
Ponto fundamental é, também, a identificação dos toques. «É importante explicar que um toque pode ser adequado ou desadequado conforme o contexto. Uma coisa é o médico numa consulta ou a muda de uma fralda numa creche, outra é, imaginemos, uma professora que mexe na vulva de uma menina». Em suma, as crianças devem aprender desde muito novas que «nenhum toque no seu corpo deve ser segredo e se alguém quiser fazer segredo, isso é um sinal de alerta que deve partilhar com um adulto».
No entender da psicóloga é muito importante trabalhar com a criança o conceito de “adulto de confiança”, ou seja, que devem ter «cinco mãos cheias de adultos, dentro e fora da família, em quem possam confiar caso precisem de ajuda. E é importante que sejam de um e de outro lado «porque se o abuso for no interior da família e se só puderem contar com esta pode ser complicado».
Por muita prevenção que se faça, haverá sempre abusos e Rute Agulhas alerta que não é fácil escutar o relato de uma criança que procura ajuda. «Ficar, literalmente, em pânico e aterrorizado é perfeitamente normal, em especial se for de uma criança com quem se tem grande proximidade, ou se a pessoa suspeita for também próxima», assegura.
O que fazer, então? «Manter a calma (beber um copo de água), relaxar e ouvir o que a criança tem para dizer. É muito importante que não nos armemos em detetives, a escola não investiga, o psicólogo não investiga. Vamos deixar isso para quem de direito mas há uma informação mínima que deve ser recolhida: O que se passou, quem fez, quando, onde e como aconteceu e o porquê ou o que foi dado para justificar determinado ato. Os pormenores a nós não interessam, não temos de saber se entrou muito ou pouco, se houve ejaculação ou sangramento. Isso são dados a apurar no âmbito da avaliação pericial ou na investigação policial», avisa.Outra recomendação é não fazer perguntas ou comentários «que deixem a vitima sentir-se como culpada dos abusos», devendo, antes, frisar que percebe «que tenha sido uma situação muito difícil e que é natural que se sinta triste» mas que pode falar porque «está ali disposta a ouvi-la». Por fim, o prometer a uma criança que vai guardar segredo, isso é que nunca poderá acontecer. «Temos mesmo de sinalizar a situação», deixa claro, Rute Agulhas.
Fotos | Isidro Bento





