Nasceu no Algarve há um quarto de século, mas é em Porto de Mós, para onde se mudou há 19 anos, que a Academia Antero Nobre vai encerrar atividade. Foi o atual presidente, Aníbal Nobre, que o revelou, a O Portomosense e também aos membros fundadores da Associação Nacional de Poetas e Prosadores, primeiro nome da entidade que viria a ser, mais tarde e até aos dias de hoje, Academia Antero Nobre de Artes e Letras.

A sugestão da nomenclatura partiu do, à data, presidente da Câmara Municipal de Olhão, de forma a homenagear o historiador, escritor e político Antero Nobre, «uma figura grada da cultura algarvia», com «nome de escola, nome de rua e monumento» naquela cidade – e pai do presidente vigente da Academia. A ideia surgiu aquando do cortejo fúnebre do homenageado e poucos dias depois reuniu-se «um grupo, com a esmagadora maioria dos intelectuais algarvios de então», para alterar os estatutos e cumprir a decisão. A data dessa reunião, 9 de dezembro, é agora a oficial quando se refere o aniversário da Academia, que faz «sempre a festa no sábado mais próximo desse dia».

«A festa», claro, são saraus de poesia e jogos florais, iniciativas que sempre estiveram na génese da «atividade excecionalmente movimentada» da Academia, que se orgulha dos seus mais de 140 livros editados, 14 saraus de poesia, dois concursos infantis de desenho e 17 concursos literários, que «foram sempre os mais participados e mais internacionais do país», garante Aníbal Nobre.

Pessoas “de todo o mundo” a escrever sobre Porto de Mós

Esta atividade literária veio a radicar-se, primeiro, em Pedreiras, e depois, no Juncal. «A sede da Academia figura onde estiver o seu presidente», explica Aníbal Nobre, fazendo questão de dizer que não é «99% da Academia», é «mesmo 100%». O poeta e escritor veio «cá para cima» em 2003, ano em que a Academia organizou «logo um sarau de poesia no Castelo, no feriado municipal». Passados 19 anos, Aníbal Nobre diz mesmo que, «apesar de ter todas as raízes no Algarve», se sente «muito mais daqui do que lá de baixo»: «Já o disse publicamente, eu serei sempre de Pedreiras», diz ao nosso jornal o também autor do Hino a Porto de Mós. Mais tarde, Aníbal Nobre muda-se, “de livros e bagagens”, para o Juncal – e, deste modo, também essa vila se torna um dos lugares homenageados no Concurso Literário da Academia Antero Nobre, que tem sempre várias modalidades a concurso, incluindo exaltações a três locais do concelho: a vila-sede e os lugares que “abrigaram” o presidente.

«Eu tenho até uma antologia que é o Mundo em Pedreiras, em que são editados só os trabalhos premiados dedicados a Pedreiras, e passam de 400», começa por explicar Aníbal Nobre. «As pessoas para falarem tiveram de consultar, ir a enciclopédias, tiveram de saber; inclusive, este ano, o primeiro prémio dedicado ao Juncal é de um brasileiro, o primeiro prémio de soneto é de um francês», conta. Esta internacionalização, explica, não é de agora: «Nós temos membros em Faro, no Porto, em Coimbra, em New Jersey, Niterói, Luanda», enumera. E são também eles que partilham o regulamento e promovem o Concurso Literário nos respetivos países. O concurso vai, agora, terminar. «Não tenho capacidade física, nem idade, nem saúde para manter as rédeas disto», explica Aníbal Nobre. «Tenho pena que a Academia termine, mas não tenho possibilidades de prosseguir, e não acredito sinceramente que queiram pegar nisto», adianta.

Aos 80 anos, Aníbal Nobre tem «de começar a ponderar o futuro curto que resta». Avisa, no entanto, que vai ficar por cá: «Já vendi os apartamentos em Faro e a minha irmã também, a única coisa que temos é um jazigo de família em Olhão, mas nenhum de nós quer ir para lá», brinca.

“Porto de Mós não está muito virado para este tipo de Cultura”

Este ano, a Academia Antero Nobre de Artes e Letras recebeu 1 242 trabalhos concorrentes ao XVII Concurso Literário. A O Portomosense, Aníbal Nobre mostrou, em sua casa, as diversas coletâneas e antologias que foi editando ao longo dos anos com os poemas e contos premiados, guardados entre os cerca de 46 mil livros que compõem a sua biblioteca privada. Foi dele que partiu a composição editorial de cada um dos manuscritos do prémio, o que, em conjunto com a organização do mesmo, considera ser «uma despesa gigantesca». Em 2022, toda a logística ligada ao prémio foi por sua conta, garante. «Fiz 60 coletâneas, ficaram em cerca de 2 000 euros», adianta. Se nos anos anteriores, o Município e as Juntas de Freguesia tinham comparticipado «prémios simbólicos» e almoços, este ano a Academia sentiu-se ignorada: «Da Junta de Pedreiras nem responderam à carta», a Junta do Juncal respondeu «fora de prazo» e «a Câmara não respondeu» – ficou surpreendido, confessa, fazendo a comparação com outros anos, em que o Município «pagou o almoço às pessoas» e em que as juntas colaboraram na aquisição dos prémios. Já em 2022, não obteve resposta a qualquer uma das três cartas, pedindo «a divulgação do regulamento»: «Aqui, na nossa zona, ninguém o divulgou, nunca vi afixado em parte nenhuma, nem nos sites [das autarquias]. É o maior concurso literário de Portugal. Não é só ignorar, é mais do que isso. Houve uma ocasião em que, em vitrinas, até [concursos de] matraquilhos estavam anunciados», diz, indignado. Do mesmo modo, o concurso infantil de desenho organizado pela Academia, destinado a crianças do concelho e cujo regulamento foi enviado às autarquias e às escolas, também não viu «um concorrente infantil no concelho», pelo que Aníbal Nobre teve «de alargar para o distrito». Em três dias, conta, recebeu 17 desenhos de 17 crianças dos municípios limítrofes a Porto de Mós.

«Há aqui qualquer coisa que não bateu certo este ano. Pelos vistos os anteriores presidentes da Junta de Pedreiras tinham uma noção de Cultura diferente», considera. Em causa pode estar um «desinvestimento» por parte do Município: «Tenho de facto a ideia que o concelho de Porto de Mós não está muito virado para este tipo de Cultura, e portanto acham que é um investimento muito grande gastar 500 euros, um pagamento de um almoço a quem veio de todo o país…», aponta. Já em Porto de Mós, diz, «não há poetas», ou não havia, até este ano, quando, «ao contrário do que sempre aconteceu», foram premiados quatro autores na região, três no conto e um outro na quadra popular. Esta foi uma agradável surpresa, mas que não vai demover Aníbal Nobre das suas pretensões de encerrar a atividade da Academia. O presidente tinha até a intenção de doar a sua vasta biblioteca à Câmara Municipal, o que já não está tão certo que irá acontecer, dado ter ficado incomodado com «o silêncio». E remata: «Ao fim destes 25 anos, sinto-me cansado, e cheguei à conclusão que não é reconhecido o mérito por algumas pessoas que o deviam reconhecer», conclui.

Foto | Bruno Sousa
Revisão | Catarina Correia Martins