Enquanto nada mudar, os agricultores vão continuar a manifestar-se. Esta foi a garantia dada pela União dos Agricultores do Distrito de Leiria (UADL) na manifestação realizada no início deste mês em Porto de Mós. O encontro dos manifestantes aconteceu junto ao Mercado Municipal e o objetivo era que, depois, os agricultores se dirigissem ao edifício dos Paços do Concelho para entregar ao presidente da Câmara, Jorge Vala, um documento com as reivindicações mais prementes, para que depois a autarquia o fizesse chegar à ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes. Os agricultores não precisaram de se deslocar à Câmara, porque a Câmara fez-se representar na manifestação através do vereador do Ambiente, Eduardo Amaral, a quem entregaram o documento. Entre as queixas que se podem ler neste manifesto estão os «altos custos dos fatores de produção, adubos, fitofármacos, sementes, rações, eletricidade e gasóleo»; «o escoamento da produção agrícola a baixos preços e isto quando se consegue escoar» e a «necessidade de combate aos javalis e a animais selvagens porque assim é impossível cultivar». Os agricultores pedem «apoios urgentes para a agricultura familiar, não só para os grandes proprietários». Dias depois destas manifestação, a ministra já anunciou algumas medidas para melhorar a situação do setor, entre as quais, a diminuição em três cêntimos do gasóleo agrícola.

António Ferraria, um dos membros da direção da UADL e na luta pelo setor «há mais de 40 anos», garante que nunca viu um cenário «tão complicado como neste momento». Há fatores de produção que chegam a custar o «dobro ou mais, como o adubo e os pesticidas». O preço do gasóleo agrícola ronda atualmente 1,56 euros por litro quando há pouco tempo «custava menos de um euro». Os exemplos não terminam aqui e os agricultores «não vão conseguir continuar a cultivar se não obtiverem apoios por parte do Ministério da Agricultura», reforça. «Já estamos habituados a que o Ministério distribua os milhões pelos grandes proprietários», acusa ainda o representante dos agricultores.

Eduardo Amaral que, além de receber o documento pelas mãos de António Ferraria, discursou perante os agricultores, garantiu que a Câmara tem estado e estará sempre «ao lado dos agricultores». O vice-presidente lembrou que a autarquia esteve junto da UADL na luta contra os javalis: «Estavam a destruir culturas e fizemos a ligação com Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, conseguimos que fosse marcada uma reunião, juntamente com os caçadores para minimizar os estragos». Agora, reconhece o autarca, os problemas «são mais profundos porque os agricultores acabam por ter custos superiores na produção do que recebem com a venda», afetando, na maior parte dos casos, a agricultura familiar. Para os jovens que se interessam pelo setor ou que querem voltar das cidades para as zonas rurais «é fundamental que estas lhe possam dar o rendimento devido», algo que nesta área não se está a verificar, sublinha Eduardo Amaral. Só «criando condições dignas será possível fixar os jovens», nomeadamente nas zonas serranas que estão a ficar desertificadas.

Precisamente com o intuito de combater a desertificação na sua freguesia, o presidente da Junta de Serro Ventoso, Carlos Cordeiro, frisa quem tem apoiado os agricultores. O único presidente de Junta presente no protesto disse a O Portomosense que esta é uma preocupação que partilha, não só pela subsistência das famílias, mas também por tudo de negativo que trará às terras do concelho: «A agricultura é um setor primário, os agricultores começam a deixar de cultivar, os terrenos ficam abandonados o que é um risco e intensifica a desertificação do território».

Confederação Nacional da Agricultura pede regulação do mercado agrícola

Laura Tarrafa, membro da direção da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), marcou presença na manifestação realizada pela UADL. A responsável reiterou que os preços hoje praticados estão a «pôr em causa se um agricultor põe ou não um trator no campo»: «Porque não sabe se vai conseguir escoar a sua produção e a que preço». A juntar a isto, houve uma «sobreposição de crises». «Estamos a falar de um setor que passou por uma crise pandémica, como todos os outros, e uma crise de seca brutal desde janeiro», reforça. Laura Tarrafa afirma mesmo que os agricultores não podem «continuar a aceitar pagar para trabalhar». A CNA «exige» que à semelhança do que já acontece em Espanha, «seja aplicada uma lei que proíba a venda de produtos agrícolas a um custo mais baixo do que o de produção». «Isto poderia transformar brutalmente a relação do agricultor na gestão da sua exploração agrícola, estamos a falar de um setor que precisa urgentemente de ser regulado», sublinha. Dados de 2016 indicavam que em 100 euros que o consumidor paga, 20 euros ficavam para o agricultor, mas apenas cinco eram lucro. «Hoje estes cinco euros, com a inflação, já desapareceram», afirma Laura Tarrafa.

Foto | Jéssica Moás de Sá