Aldeias onde a falta de luz é sinónimo de isolamento

12 Fevereiro 2026

Jéssica Moás de Sá

Ruas estreitas, ladeadas pelos muros de pedra seca, com casas solitárias, de espaço a espaço. Esta é a realidade de vários lugares do concelho de Porto de Mós, onde a falta de energia (e alguns casos de água), ganhou uma dimensão maior. Sem muitos vizinhos a quem chamar e sem comunicações, o isolamento torna-se, ainda, mais real e perigoso. 

Maria Emília, de 75 anos e natural de Covões Largos (São Bento), viveu sozinha, na sua casa, aquele que apelida «do vento mais forte» que ouviu e sentiu na sua vida. Estava a chover muito quando a encontrámos, a única pessoa que vimos em alguns quilómetros, tudo porque nem a chuva intensa a demovia de «ir buscar o gado». Como viveu estes dias, sem luz, sem comunicações? «Não foi nada bem», respondeu-nos. Água nunca lhe faltou, mas esteve cinco dias sem luz. Maria Emília e a sua «candeia de petróleo» fizeram-se companhia. A comida era feita “à moda antiga” na fogueira, porque apesar de ter gás, a «fogueira, que acendia por ter frio», servia-lhe também de fogão. 

Não tem telemóvel, apenas telefone, mas por estes dias, nem esse lhe servia. Na madrugada de 28 de janeiro, fosse o que fosse, serviria para acalmar o coração. «Tive medo e não foi pouco. Soprava tanto, abalou-me com as telhas. No outro dia fartei-me de andar a pôr telhas, mas tive ajuda dos filhos», conta-nos, frisando que chegou mesmo a chover-lhe dentro de casa. «Tão forte assim nunca ouvi. Então, abalaram carvalhos, de troncos grossos, partidos ao meio», recordava visivelmente surpreendida com a intensidade e a força da Natureza. Maria Emília lamentava ainda: «E o tempo não melhora, não o vemos a vir bom». 

Dias “malinos”

O Mini Mercado Ilidio, em São Bento, dois dias depois da tempestade já estava a trabalhar à mercê de um gerador que «manteve as arcas congeladoras e máquina registadora» a trabalhar, só não chegou «para a máquina do café», contou-nos Arminda Januário, proprietária do estabelecimento. Os primeiros dias, de indefinição e a ver exatamente quais eram os estragos, foram “malinos”, descreve, embora sublinhe que o seu negócio e mesmo São Bento «não foram tão afetados» em comparação a muitos lugares do distrito de Leiria e até do concelho de Porto de Mós. 

Mini Mercado Ilidio Jessica Sa | Jornal O Portomosense

O seu minimercado acabou por ser um ponto de encontro, onde muitas pessoas «carregaram telemóveis»: «Estavam aí um bocadinho, carregavam os telemóveis ou então deixavam e depois vinham cá buscá-los», relata. Os testemunhos que foi ouvindo era de pessoas sem luz, comunicações e «com carne toda estragada nas arcas».

Fotos | Jéssica Moás de Sá e Isidro Bento

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