O projeto já tem dois anos, mas ganhou em abril um novo fôlego, ao tornar-se oficialmente uma associação: a Alecrim e Salva. Começou por ser «um grupo informal» de alqueidoenses, apenas mulheres, que «num jantar entre amigas» se lembrou que era importante «fazer alguma coisa» para dinamizar a terra e para «cuidar do património», explica Margarida Matos, atual segunda secretária do Conselho Fiscal. O «amor ao Alqueidão» era a tónica de todas as ideias e projetos deste grupo, que teve como primeira ação caiar casas da freguesia, iniciativa intitulada Dar Luz ao Alqueidão.

A acompanhar o grupo, de olhar atento, estava Adelaide Cordovil, que apesar de residir em Lisboa, tem inúmeras memórias da sua infância vivida no Alqueidão da Serra. Ligada a projetos sociais devido à sua profissão, interessou-se pelo trabalho desenvolvido pelo grupo e começou a aproximar-se. «Em setembro ou outubro [do ano passado], abriram umas candidaturas na Fundação Calouste Gulbenkian para projetos», e logo a agora responsável entrou em contacto com o grupo, nomeadamente com Helena Batista que é a atual presidente da direção para que o grupo aproveitasse esta oportunidade. No entanto, as candidaturas eram apenas para associações legalizadas, passo que ainda não tinha sido dado por este grupo. Este foi o pontapé de saída para que a associação se constituisse.

O grupo reuniu-se, fez «uma análise das forças, fraquezas e objetivos» para avaliar se valia a pena «criar mais uma associação nesta área», numa freguesia onde já existiam «várias organizações». Para Adelaide Cordovil, este foi um momento «muito giro», porque, sendo «de uma geração diferente», conseguiu «conhecer o grupo» e o que o «unia», o «amor ao Alqueidão». Uma das fraquezas apontadas numa fase inicial era o facto de todos os membros do grupo «estarem fora» da terra e o de «não existirem homens» na equipa. Todas estas questões levaram a que se fizesse «um levantamento» junto de vários alqueidoenses, cerca de 100, «para ver se fazia sentido fazer uma associação com estes objetivos e se gostariam de participar na associação». O «feedback foi muito positvo», as pessoas acharam que esta associação «seria positiva e disponibilizaram-se logo para fazer parte», conta Adelaide Cordovil.

A constituição da associação e os objetivos

A associação Alecrim e Salva nasceu em abril deste ano. Inicialmente o objetivo era que o nome fosse apenas Alecrim, mas por já se encontrar registado, foi acrescentada a Salva, «que é também uma flor da freguesia com muita história» da qual é feito «o chá» e que está «a correr alguns riscos de desaparecimento», explica Adelaide Cordovil. Um dos objetivos da associação é também «salvar» esta planta.

As atividades da associação não são «restritas apenas aos órgãos sociais», uma vez que o intuito é «envolver a comunidade» e as restantes instituições. Para cumprir este desígnio, explica a presidente da assembleia, foram criados «grupos de trabalho», entre eles Tradições, Cultura, Histórias Tradicionais, Gastronomia, Edificado, Ervas Aromáticas, Percursos de Natureza e Património, Edificado, Dar Voz a Idade, entre outros, que assentam em quatro pilares: Cultura, Ambiente, Património e Parcerias. É também uma missão da associação «motivar encontros entre as pessoas» que hoje, «à semelhança do que se passa nas cidades, isolam-se nas suas casas», frisa Adelaide Cordovil.

Muitos dos projetos que estão já a ser desenvolvidos pelos grupos de trabalho «são de médio-longo prazo». Existe, dentro dos Percursos de Natureza e Património, o objetivo de «identificar percursos» com «placas que tenham infomação sobre os locais». Todo o «levantamento» destes percursos envolve «tempo e recursos que a associação ainda não tem», refere. O grupo das Histórias Tradicionais encontra-se a «fazer recolha de histórias e lengalengas, falando com pessoas mais velhas» do Alqueidão da Serra para mais tarde «reunir num livro». A exposição fotográfica dos «rostos dos seniores» é a intenção do grupo Dar Voz à Idade, para valorizar estas faixas etárias. Adelaide Cordovil lembra que «são estas pessoas que transmitem coisas do passado para constuir o futuro». Uma vez que a associação ainda não fez um ano não se pode candidatar a «financiamentos públicos» mas, no futuro, essa será uma das metas.

Entre os objetivos já cumpridos estão «as sessões de cinema» dinamizadas pelo grupo de Cultura, como forma «das pessoas saírem de casa e terem acesso a filmes de qualidade», realça a presidente da assembleia. As duas sessões já realizadas «foram um sucesso», com uma «adesão muito boa por parte dos alqueidoenses». No final das sessões foram disponibilizados produtos da gastronomia local, como «as cavacas, os tremoços e pevides» para que as pessoas ficassem a conviver.

Uma das aliadas ao longo deste processo tem sido a Junta de Freguesia do Alqueidão da Serra, que numa fase inicial cedeu uma sede no Campo da Chã, mas a localização revelou «ter alguns limites». O presidente de Junta, Filipe Batista, sugeriu que o grupo pedisse à Casa do Povo a cedência de espaço, que se mostrou «logo aberta a isso, até porque permite valorizar o espaço», explicou Adelaide Cordovil.