Aos 38 anos, Zita Santos, cientista natural do Alqueidão da Serra, acaba de concretizar um dos maiores sonhos da sua vida. Após vários anos de investigação na área da fertilidade, a alqueidoense ganhou recentemente uma bolsa do Conselho Europeu de Investigação, no valor de 1,5 milhões de euros, para um projeto com a duração de cinco anos que procura estudar a relação entre nutrição e fertilidade. «Este prémio acaba por ser especial porque foi tudo feito numa conjuntura muito complicada. Escrevi este projeto enquanto estava em confinamento com os meus três filhos e foi um processo muito difícil. Por isso, este culminar sabe mesmo bem», confessa, acrescentando que este financiamento será uma «ajuda muito importante» para conseguir avançar com os seus projetos. Ao mesmo tempo, Zita Santos conseguiu uma posição de investigadora principal no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM), em Lisboa, onde a partir de janeiro irá ter o seu próprio laboratório e poderá desenvolver a sua atividade. Perante este duplo feito, a cientista não cabe em si de satisfeita: «O meu objetivo foi sempre conseguir ter a minha própria equipa de investigação. É a concretização de um sonho, sem dúvida».

«Como é que os nutrientes que ingerimos através da dieta impactam as células no processo reprodutivo?», esta é a grande pergunta para a qual a ciência ainda não tem resposta, mas a que Zita Santos pretende dar solução neste projeto. Nesta investigação, a cientista irá tentar estudar em profundidade o processo das células de linha germinal – o metabolismo celular – que «transforma estes nutrientes em blocos»: «São células muito especiais que asseguram a continuidade de todas as espécies, porque dão origem ao óvulo e ao espermatozoide. Se existir algo de errado nesse processo, quer dizer que o animal não se vai conseguir reproduzir», explica. Um dos fenómenos que a cientista pretende investigar é do que é que estas células necessitam para poderem executar as suas funções. Esta é, aliás, uma das perguntas iniciais do projeto, a que depois se juntam muitas outras: «O bom da Ciência é que quando abrimos uma porta, abrem-se logo três ou quatro. Quando fazemos uma pergunta, a resposta cria-nos mais perguntas». E no fim de se encontrarem respostas, a investigação termina? Antes pelo contrário, é como se esta acabasse de começar. «Nunca conseguimos chegar a uma resposta final, mas adicionamos sempre mais conhecimento», destaca.

O desafio de manter um laboratório

Em janeiro, Zita Santos deixa a Fundação Champalimaud para se mudar para o iMM, onde está, neste momento, a ser construído o seu laboratório. «Estou super excitada, acho que vai ser uma ótima mudança. Ano novo, vida nova», diz, visivelmente satisfeita. Numa fase inicial, a sua equipa será composta por cinco investigadores, número que espera ver aumentado para oito no final dos cinco anos, mas não muito mais do que isso. «Não quero ter uma equipa muito grande, prefiro ter menos pessoas para poder dar mais atenção, supervisionar e orientar. Quando temos equipas muito grandes, começamos a não conseguir dar a devida atenção a todos», justifica. O prémio, de 1,5 milhões, que considera ser «ótimo» para lançar o seu laboratório, mas insuficiente a longo prazo, será aplicado não só para pagamento dos recursos humanos, como para aquisição de todo o equipamento necessário, desde químicos a animais. «Quando digo o montante, as pessoas ficam de boca aberta mas quando começamos a lidar com os gastos, percebermos que, apesar de ser uma almofada boa, não dá para tudo», frisa.

Uma vez criado o laboratório, o objetivo será mantê-lo «por muitos anos neste tipo de registo». Para isso acontecer, Zita Santos irá candidatar-se a vários apoios para obter o financiamento necessário à sua subsistência, uma vez que «em Portugal não existe financiamento de base por parte dos institutos que permita aos laboratórios manterem-se». «É um bocadinho como uma pequena empresa, precisamos sempre de manter o constante financiamento. Temos sempre que andar à procura de mais para conseguir manter os nossos projetos a andar», explica, acreditando que o facto de ter ganho este «prémio prestigiante» poderá ser uma ajuda para financiamentos futuros.

Duas linhas de investigação

Se agora o objetivo é estudar a relação entre nutrição e fertilidade, em 2020, quando Zita Santos venceu o Prémio Piloto do Consórcio Global para a Longevidade e Igualdade Reprodutiva o seu foco estava direcionado para outro fator: a idade. O projeto, que lhe valeu um prémio de 200 mil euros, pretendia perceber de que forma «o declínio reprodutivo [na mulher] está relacionado com a alteração a nível metabólico das células». Assumindo que a «causa número um» para a infertilidade nas mulheres «é a idade», a investigadora reconhece que «existem outras causas» associadas ao processo de infertilidade, como doenças metabólicas, muitas delas relacionadas com a dieta, e são precisamente essas que agora quer estudar, com esta nova linha de investigação.

O prémio, recebido juntamente com outro investigador, estava previsto para um período de dois anos, porém, nem tudo correu como esperado e, hoje, o projeto ainda está em desenvolvimento, em parte por causa da pandemia: «Houve um delay bastante acentuado naquilo que achávamos que ia ser a progressão do nosso trabalho, infelizmente, mas neste último ano já conseguimos avançar um bocadinho e talvez daqui a um ou dois anos já consigamos ter resultados para publicar», acredita.