A ginasta americana Simone Biles pôs recentemente o mundo a falar de saúde mental nos atletas de alta competição quando desistiu dos Jogos Olímpicos de Tóquio, por se sentir «psicologicamente fragilizada». Nas últimas semanas, também Portugal foi confrontado com este tema: Vanessa Fernandes, ex-triatleta, revelou o “tormento” pelo qual passou durante a sua carreira com a pressão que sentiu de diversas frentes para conseguir sempre mais e melhor, quando tudo o que estava a dar já era o seu máximo. Os dois testemunhos foram encarados como atos de coragem, que podem ser importantes para outros atletas que estejam a sentir o mesmo. Porque este é um tema que não pode sair da ordem do dia e queremos contribuir para isso, aqui damos voz a quem também deste tema pode falar: Um ex-atleta paralímpico e uma atleta no ativo que é campeã do Mundo e da Europa. Mas não só. Temos no concelho um clube que está a formar atletas vencedores, o Grupo Desportivo das Pedreiras. Ouvimos não só atletas do clube que estão a aprender a ser atletas, como o coordenador, que é quem lhes dá as ferramentas para voarem. Sejam quais forem os voos, o importante é aprender a gerir as quedas.

David Carreira, ex-atleta paralímpico de natação

“Nós sabemos que os maus momentos também fazem parte e a preparação de uma grande competição e de um atleta é muito exigente, desgastante, dá muito trabalho e tira-nos muita energia e tempo, mas a partir do momento que atingimos os nossos objetivos tudo isso fica para trás”.

Depois de ter competido na competição “máxima” de todas as competições, os Jogos Paralímpicos (neste caso do Rio de Janeiro, em 2016), David Carreira, atleta natural do Alqueidão da Serra, decidiu parar. Antes dos Jogos, já tinha participado em campeonatos da Europa e do Mundo. Alcançou 70 títulos de campeão nacional, batendo 57 recordes nacionais. Toda esta experiência faz do nadador testemunha importante sobre a pressão que existe no desporto de alta competição, com a qual sempre lidou bem, algo notório no seu discurso. David Carreira garante que nunca permitiu que a natação, que começou por ser uma «brincadeira», deixasse de o ser, preferiu utilizar a responsabilidade acrescida da competição como motor. «A competir temos que saber utilizar a pressão pelo lado positivo, como forma de nos motivarmos a dar mais em cada treino», frisa.

Embora reconheça que nem todos os atletas conseguem ter este espírito, David Carreira sempre soube que para estar ao mais alto nível, existiam cedências pessoais que tinha de fazer. «Um atleta de alta competição tem de ter noção de que para ter alguns resultados, precisa de muito tempo, senão, não está no sítio certo», salienta. O ex-atleta paralímpico encarou o abdicar de tempo com os amigos, para atividades de lazer, como algo que faz parte do caminho de um atleta. «Não estamos limitados a nada, não é por sermos atletas que temos de deixar de sair à noite ou de fazer o que quer que seja, mas eu sentia que não estava para aí virado. Eu queria aproveitar o fim de semana para descansar porque sabia que as semanas tinham sito intensas em termos de treino, às vezes tinha um fim de semana de competição e sobrava pouco tempo, eu sabia que era assim se quisesse ter alguns resultados», explica. Também o controlo da alimentação sempre foi visto com naturalidade: «Nunca cheguei ao ponto de sentir pressão de quem quer que fosse em termos alimentares, de estar proibido de comer algo, agora, eu próprio sabia que tinha de controlar. Tinha a noção que existiam dois pontos fundamentais para alcançar resultados: Descansar bem e uma boa alimentação», frisa.

Apesar de ter sempre mantido esta atitude positiva, nem tudo foi bom. «Não posso negar que tive fases complicadas em que acabei por duvidar das minhas capacidades, porque sentimos que damos o máximo nos treinos e depois os resultados não aparecem», recorda. Aqui, o seu treinador, com quem tinha uma ótima relação, foi preponderante. «Ele não me ignorou, não me deixou de lado, deu-me mais força para que não desistisse naquele momento e conseguisse continuar a trabalhar», afirma. David Carreira acredita que um treinador tem de ser um amigo, só assim estará atento à saúde mental do seu atleta: «Se o treinador for apenas um treinador, acredito que ele vá olhar para o umbigo dele e fazer os possíveis para o seu atleta ter os melhores resultados mas não vai perceber o que está por trás disso, o trabalho que é preciso ser feito nessas fases mais complicadas em que tem de haver um ombro amigo».

O nadador alqueidoense desistiu da carreira aos 26 anos, depois da participação nos Jogos Paralímpicos. A difícil gestão entre a sua vida profissional e os treinos e competições esteve no centro da sua decisão, algo que em Portugal é uma realidade, devido à falta de apoios dados aos atletas. «Essa diferença era mais notória quando íamos ao estrangeiro representar a seleção e competíamos com atletas de outros países que não faziam mais nada do que treinar e isso acaba por afetar a preparação. Em muitas situações eu fazia um treino antes de ir trabalhar e outro depois do trabalho, depois de um dia preenchido que desgastava também», recorda.

A capacidade de David Carreira de ver “o copo meio cheio” leva-o a afirmar que, olhando para a sua carreira, as coisas boas foram muito superiores às más, apesar de todos os sacrifícios. «Fui um sortudo no meio de tantos atletas e consegui aquilo que uma minoria dos atletas portugueses consegue, portanto não tenho motivos para reclamar», conclui.

Inês Henriques, campeã dos 50 km marcha

“Quando o médico da Federação disse que tinha que tomar anti-depressivos, eu perguntei como é que era possível. Pensei que tinha de resolver aquilo comigo própria e durante algumas semanas neguei a toma. Eu tinha feito os 50 quilómetros, era uma atleta forte, como é que tinha chegado aquele ponto? Entramos em negação”.

Inês Henriques é campeã do mundo e da Europa dos 50 km de marcha conquistados no Campeonato do Mundo de Londres em 2017 e no Campeonato Europeu de Berlim em 2018. Já depois destas conquistas, a atleta de Rio Maior e embaixadora de Porto de Mós (onde conquistou em 2017 o recorde do mundo nos 50 kms), passou por um período complicado onde desistir da carreira esteve nos planos.

Antes de chegar a este ponto, Inês Henriques confessa que sempre foi muito exigente consigo mesma, mas do seu lado sempre teve um treinador (com quem trabalha há mais de 30 anos) que doseou essa exigência. «Sempre tive uma pressão controlada, tenho um treinador com muita experiência e que nunca deixou que eu queimasse etapas, deixou-me crescer. Inicialmente eu queria treinar todos os dias e ele não me deixava, porque não se deve exigir que um atleta chegue a níveis elevados muito rápido», recorda, lembrando que há muitos treinadores que não deixam os atletas crescer naturalmente. «Nós conseguimos o que conseguimos com muitos anos de trabalho, no caso da prova dos 50 quilómetros é uma prova com uma dureza muito grande, em que são necessários muitos anos de experiência para a fazer», acrescenta ainda.

Inês Henriques defende também que todos os sacrifícios que fez, nomeadamente o facto de abdicar de tempo com a família, o ter faltado a festas de finais de curso, entre outros eventos, foi sempre opção sua e nunca lhe foi imposta por ninguém. «O atletismo sempre foi mais importante, eu costumo dizer que é o meu modo de vida», afirma a marchadora que garante ainda que não está «arrependida do caminho» que percorreu. A questão alimentar também foi sempre bem gerida: «Houve um ou outro momento em que tive de perder peso, mas tive sempre acompanhamento de nutricionistas e nunca cometi loucuras, nem nunca me foi pedido pelo meu treinador. Ele sempre disse que preferia que tivesse um quilo a mais do que não ter força para treinar. Alguns treinadores são obcecados nesse aspeto, neste caso o meu treinador é que teve problemas porque alguns atletas se recusavam a comer e depois não tinham força».

Sempre teve este apoio incondicional do treinador que era atento à sua saúde mental, então o que levou Inês a, já depois das grandes conquistas da sua carreira, necessitar de apoio psicológico? «Tive um processo muito complicado na minha vida pessoal e uma lesão que me impediu de treinar durante sete semanas. Depois o voltar foi muito difícil, o meu corpo não respondia da forma que eu queria e aliado a isso tive muitos problemas de sono. Estive muitos meses sem conseguir dormir bem», recorda. A ansiedade era causada «por sentir que não era capaz», agravada pelos problemas de sono e também pela espera que viveu para saber se os 50 km marcha femininos seriam ou não considerados olímpicos. «Depois soubemos que o Comité Olímpico tinha decidido que a prova não era olímpica, isso não me ajudou nada. Acredito que se me tivessem dito que era, o foco era diferente, eu deixei de ter o foco que tive desde miúda, deixei de ter motivação e alegria para marchar», recorda Inês Henriques, especialista nesta distância.

O apoio psicológico que recebeu de um psicólogo da Federação Portuguesa de Atletismo e também de uma especialista do sono foram fundamentais para que fosse recuperando e para que esteja de volta aos treinos. «Mentalizei-me que não tenho de provar nada a ninguém. Recomecei a treinar, inicialmente só fazia corrida onde me apetecia e quando me apetecia e isso deu-me motivação. Depois comecei a marchar e comecei a sentir prazer outra vez», conta. Aos 41 anos, garante que estará no Campeonato do Mundo e da Europa de 2022. A participação nos Jogos Olímpicos de Paris em 2024 dependerá da certificação dos 35 km marcha femininos como prova olímpica. «Se não for olímpico, termino a minha carreira no campeonato europeu de 2022», avança.

Emanuel Moniz , coordenador do GD Pedreiras

“É fundamental não fazer pressão sobre os miúdos senão acabamos por os perder. Eles estão aqui para se divertirem, para crescerem e aprenderem, isso é a base de tudo, a partir daí o resto sai naturalmente”.

Começou como atleta, agora assume o papel de coordenador e treinador do Grupo Desportivo das Pedreiras (GDP). Falamos de Emanuel Moniz, especialista na área de meio fundo e marcha mas que ajuda as crianças e jovens em todas as modalidades. Emanuel Moniz defende que a relação entre treinador e atleta tem de ser de união, não fazendo demasiada pressão, mas conseguindo motivar o desportista: «Temos de conhecer os limites do atleta». Sobretudo nestas camadas jovens, uma exigência ponderada é fundamental, acredita. «Não vou dizer aos atletas para não sairem à noite ou para não comerem determinado alimento, mas procuro de outra forma demonstrar que é importante para estarem cada vez melhor. Serem atletas não os vai impedir de ter uma vida normal, procuro que vivam o dia a dia da forma mais normal possível e depois eles vão percebendo que se dormirem e descansarem bem e tiverem uma alimentação equilibrada, isso vai-se refletir nos treinos e provas», explica. O treinador não aceita é a falta de comprometimento com os treinos, pedindo aos atletas que estejam presentes sempre que possam.

Emanuel Moniz frisa que é importante que «um atleta esteja bem a nível mental para ter um bom desempenho» e nos momentos em que vê os atletas mais frustrados tenta atuar de «forma pedagógica», dadas as idades com que trabalha. «Eles estão numa fase de desenvolvimento, não temos tido problemas psicológicos, o que vejo muitas vezes é que quando um atleta não consegue, por exemplo, atingir um mínimo para os nacionais, fica muito frustrado. Nesse momento falamos com eles e explicamos que tudo tem o seu tempo, que se continuarem a trabalhar os resultados vão aparecer», explica. Por vezes a maior pressão vem da parte da família. «Todos os pais gostam de ver os filhos a ganhar e às vezes, nas competições a que vou, eles ultrapassam um bocado o limite. Exigem ao atleta que ganhe à força e isso pode fazer com que um atleta desista», salienta. Quando isso acontece com pais e atletas do clube e porque considera que o GDP é um clube com «um sistema de trabalho em que o atleta está em primeiro lugar», Emanuel Moniz opta por falar com os pais e explicar «que tudo tem o seu tempo e para deixarem as coisas fluir naturalmente».

André Moreira e Isa Ferreira, atletas GD Pedreiras

“A pressão que sinto tem sido na conta certa e é importante, porque eu às vezes preciso de um empurrão para fazer melhor, sei que sou um pouco preguiçoso”, André Moreira

“Quero fazer disto vida, penso que se for sair com os meus amigos é menos um treino em que consigo evoluir, então prefiro vir treinar”, Isa Ferreira

André Moreira e Isa Ferreira, ambos com 15 anos, estão há cinco e três anos no Grupo Desportivo das Pedreiras, respetivamente. Ambos imaginam o futuro de sapatilhas e num pódio, se possível. Até lá, sabem que o caminho é exigente. Até agora a maior dificuldade tem sido conciliar os treinos e provas com a escola. «Os testes e a escola influenciam muito a vida desportiva, às torna-se difícil vir aos treinos e ter bons resultados, mas acho que com esforço tudo se consegue, quando se gosta», afirma André Moreira. Isa Ferreira é da mesma opinião: «Essas alturas de testes e provas em simultâneo são muito difíceis, mas é tudo uma questão de organização, de tirar tempo para cada coisa». Difícil é também “arranjar” tempo para o lazer. «Normalmente optamos por ir às provas ou aos treinos em vez de sair com os amigos, ir ao cinema ou algo do género. É um pouco difícil, para ser sincero», confessa André Moreira. Isa Ferreira também acaba por, quase em 100% das vezes, dar prioridade à sua vida desportiva, mas é «uma opção» consciente, para evoluir enquanto atleta.

Os dois jovens são também cuidadosos no que diz respeito ao descanso e à alimentação. «Durmo sempre entre oito a nove horas e tento ter um equilíbrio na alimentação», garante André Moreira. Isa Ferreira frisa que para ela essa parte não é difícil: «Eu tenho uma alimentação equilibrada porque a minha mãe também sempre foi rigorosa com isso e diz que se não comer bem, também não treino bem. Quanto às horas de sono são sempre oito», explica. Todos estes fatores que têm de ter em conta, alguma vez fizeram com que pensassem em desistir? Os testemunhos dividem-se. «Às vezes a pressão é muita e é difícil gerir tudo, mas nunca pensei em desistir», diz André Moreira. Já Isa Ferreira assume que isso já lhe passou pela cabeça. «Já pensei em desistir por tudo isto, por ser difícil gerir treinos, escola, vida pessoal. Meto sempre os treinos em primeiro lugar, nunca a escola e depois há dias em que chego a casa e ainda tenho de estudar alguma coisa e não consigo», justifica, embora agora essa opção não esteja em cima da mesa. Em cima da mesa está, para os dois jovens, lutarem para que um dia possam elevar as suas carreiras a patamares mais altos.